COLUNISTA
Da Dor ao Opus Magnum
Premiado como Melhor Filme de Drama no Globo de Ouro e indicado a oito categorias do Oscar, Hamnet: a Vida antes de Hamlet debruça-se sobre episódios escassamente documentados da existência de William Shakespeare, privilegiando as tensões e afetos do âmbito familiar em detrimento de uma abordagem biográfica convencional do dramaturgo. Ao abdicar da exaltação dos grandes marcos públicos de sua trajetória, o filme opta por perscrutar as zonas íntimas e silenciosas que moldaram sua sensibilidade criadora.
A obra cinematográfica adapta o romance homônimo de Maggie O’Farrell, publicado em 2020, e é dirigida por Chloé Zhao realizadora de Nomadland cuja assinatura autoral se manifesta sobretudo na condução intimista e delicada da narrativa. Tal sensibilidade revela-se no modo como a câmera explora cenários e fisionomias por meio de enquadramentos rigorosos, alternando estaticidade e deslocamentos meticulosamente calculados, sempre acompanhados por uma trilha musical que reforça a atmosfera contemplativa e emocional da obra.
Ao afastar-se de uma perspectiva biográfica e cronológica que reduziria a vida do dramaturgo a uma sucessão de feitos notáveis o filme possibilita ao espectador adentrar a alma de Shakespeare, oferecendo um olhar inédito sobre a gênese de Hamlet. Não se trata de observar a peça pelos olhos de seu autor, mas de compreendê-la a partir das dores, ausências e fraturas existenciais que o conduziram à criação de seu opus magnum.
O luto e a melancolia constituem o fio condutor de todo o drama, o qual, embora prime por uma beleza de matiz bucólica, não se oculta atrás dessa atmosfera como se esta servisse de véu para encobrir um vazio anímico. Ao contrário, a natureza integra-se organicamente ao drama encenado, estabelecendo um diálogo constante com o desenrolar dos acontecimentos. Ela se apresenta simultaneamente como espaço de contemplação de belezas exuberantes e como instância regida por uma lógica própria e por vezes cruel. Imersa no mistério da vida, a experiência da perda e da dor pode, paradoxalmente, engendrar formas de beleza destinadas a perdurar por gerações.
No cerne da obra, somos levados a refletir sobre aquilo que possui maior valor: a vida ou a beleza. Por fim, torna-se evidente que nada existe de forma dissociada e que a catalisação de determinados afetos constitui artifício essencial para a gestação da magnificência artística. Apenas uma conclusão se impõe: vida, morte, sublimidade, arcádia, thauma e catarse são indissolúveis das maiores criações já desenvolvidas pelo homem.
O Vazio da Forma e o Prazer do Suspense
Para a adaptação cinematográfica do êxito literário homônimo de Freida McFadden, Paul Feig foi o diretor escolhido decisão que encontra respaldo em sua trajetória à frente de narrativas centradas em perspectivas femininas. A Empregada, afinal, estrutura-se precisamente sobre esse eixo, ao explorar dinâmicas de poder e vulnerabilidade no interior do espaço doméstico.
A narrativa acompanha Millie, jovem de passado nebuloso que aceita trabalhar na residência do casal Nina e Andrew Winchester. Inserida em um ambiente regido por convenções sociais e aparências cuidadosamente mantidas, ela logo percebe que o cotidiano da casa é atravessado por relações assimétricas, jogos de manipulação e fragilidades emocionais que tensionam a convivência.
Sidney Sweeney, no papel de Millie, entrega uma variação de um tipo já recorrente em sua carreira: a jovem de beleza evidente envolta por uma aura de ingenuidade. Curiosamente, tal atuação de registro genérico revela-se compatível com o próprio filme, sobretudo quando se evidencia que a obra não aspira a um rigor maior nem parece levar a si mesma demasiadamente a sério. Apesar de incoerências narrativas, fragilidades estruturais de roteiro e de um ritmo apressado que por vezes compromete a construção dramática, o filme abraça o absurdo como estratégia, convertendo tais limitações em componentes de um entretenimento direto e funcional.
As questões mais problemáticas residem na genericidade formal. Tudo é excessivamente explicativo e a condução narrativa carece de uma consciência autoral mais definida, dando a impressão de um filme pensado menos por um cineasta e mais por uma lógica estritamente utilitária. Ainda assim, nem tudo se perde: a atuação de Amanda Seyfried se destaca positivamente, conferindo alguma densidade a um conjunto que frequentemente se contenta com o superficial.
Em última instância, A Empregada configura-se como uma miscelânea de elementos cinematográficos dispersos que, embora careçam de coesão estética e ambição artística, resultam em uma obra eficaz em seu propósito básico: entreter e sustentar o interesse do espectador até seus momentos finais.
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