Edição: sábado, 21 de fevereiro de 2026

Douglas Moutinho

COLUNISTA

Douglas Moutinho

O Morro dos Ventos Uivantes

Autonomia, Liberdade Criativa e o Vazio Estético

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Adaptado da atemporal obra de Emily Brontë, O Morro dos Ventos Uivantes transporta para a tela a primeira parte da história de Heathcliff e Cathy sob a ótica da cineasta Emerald Fennell, conhecida por Saltburn e Bela Vingança. Embora a diretora tenha se esquivado quanto ao filme ser ou não uma adaptação, ele deve ser pensado através do diálogo com a obra original que lhe deu origem. É perceptível a ampla liberdade criativa de que Fennell lança mão, mostrando-se indiferente a anacronismos, etnias ou idades das personagens. Historicamente, nada se articula de maneira coerente. No entanto, o filme não foi concebido como representação histórico-literária, mas como criação autônoma que parte de personagens preexistentes deslocados para uma realidade social que não se conecta com a proposta da diretora.

Dessa forma, torna-se inevitável remetermo-nos ao conceito de morte do autor, formulado por Roland Barthes. Segundo o crítico francês, a publicação de uma obra faz com que ela deixe de pertencer exclusivamente ao escritor, relativizando um possível sentido originário e permitindo ao leitor construir significados próprios a partir do texto. Tal pensamento, inovador no campo da crítica literária, rompe com a tradição antiquada de tentar desvendar uma intenção única e definitiva do autor. Consequentemente, o fato de O Morro dos Ventos Uivantes distanciar-se abruptamente do romance original pode levar alguns a recriminarem o filme; contudo, os fundamentos teóricos dessa exigência foram superados há mais de meio século, não fazendo sentido pensar unicamente em fidelidade narrativa.

A adaptação de Fennell não é questionável pela liberdade criativa, mas pelo vazio e pela covardia, tanto no conteúdo quanto na forma. A cineasta surpreendeu com Bela Vingança, em 2020, filme que lhe rendeu o Oscar de Melhor Roteiro Original. Embora a proposta de subversão feminista do subgênero “estupro e vingança” tenha se mostrado instigante, a diretora parece indecisa entre chocar o público, enaltecer a coragem da protagonista ou aprofundar-se em sua complexidade psicológica. Além disso, faltou-lhe ousadia para tratar visualmente de um tema de tamanha gravidade. A indecisão e a covardia reaparecem em Saltburn e tornam-se ainda mais evidentes em O Morro dos Ventos Uivantes, divulgado quase sob uma aura erótica que, no entanto, não se concretiza.

Todavia, sua falha mais grave não reside no anacronismo dos cenários e objetos, na incoerência social ou mesmo na covardia, mas no vazio que se evidencia sobretudo em sua forma. O filme entrega reiteradamente imagens de inegável apuro plástico, como quadros que evocam pinturas a óleo ou fotografias meticulosamente compostas. Entretanto, no cinema, quando a beleza fotográfica e cenográfica não dialoga harmonicamente com os demais elementos narrativos, o resultado é uma obra esvaziada, que se sustenta apenas na superfície estética. O longa converte-se, assim, em uma sequência expositiva de belos cenários, belos atores, figurinos impecáveis e enquadramentos calculados. Toda essa beleza, lançada quase violentamente ao olhar do espectador, termina por ocultar as múltiplas ausências sensoriais, formais e narrativas que atravessam a obra.


Destruição Final 2

O Colapso de uma Sequência

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Passados cinco anos após os eventos que devastaram grande parte do planeta Terra narrados em Destruição Final: O Último Refúgio, a sequência dirigida por Ric Roman Waugh surge como promessa de levar a aniquilação global a um patamar ainda mais extremo ao menos é essa a impressão construída pelo marketing. Sob perigos constantes de radiação, tsunamis, terremotos e erupções, John, vivendo com sua família em um bunker, precisa sobreviver às novas ameaças naturais crescentes e, após a destruição do abrigo, conduzir os seus até uma área supostamente segura na França, denominada “cratera”, onde o ecossistema permanece intacto.

Obviamente, em um cenário apocalíptico, a missão de atravessar o oceano e adentrar um novo continente configura-se como tarefa, no mínimo, ingrata. Talvez por essa dificuldade extrema, os roteiristas Mitchell LaFortune e Chris Sparling praticamente se erguem como entidades espirituais que guiam os passos e moldam o entorno de seus personagens protegidos, à maneira das antigas divindades gregas. Faltou pouco para que, assim como Paris diante do golpe fatal de Menelau, John e sua família fossem simplesmente transportados, por intervenção superior, até a cratera.

O chamado Deus Ex Machina, recurso já amplamente debatido na teoria do roteiro e criticado por Robert McKee tornou-se, na contemporaneidade, uma solução preguiçosa para o preenchimento de lacunas narrativas. Destruição Final 2 não recorre a esse artifício uma ou duas vezes, mas faz dele a própria espinha dorsal de sua progressão dramática. O cinema hollywoodiano manifesta frequentemente a tendência de menosprezar a inteligência do espectador, oferecendo quase a totalidade das respostas sem exigir qualquer elaboração interpretativa; contudo, aqui, esse menosprezo acompanha o público do primeiro ao último minuto.

Já passou da hora de o cinema norte-americano mainstream compreender que efeitos especiais não sustentam qualidade fílmica. Ao contrário, frequentemente evidenciam o quanto a produção se mostra aquém em qualquer aspecto que ultrapasse o domínio técnico e mecânico e alcance o campo criativo. E isso é Destruição Final 2: 90 milhões de dólares investidos em um ensaio técnico. Em uma época na qual testemunhamos produções admiráveis realizadas com uma fração desse orçamento como Godzilla Minus One, produzido com pouco mais de 10 milhões de dólares e vencedor do Oscar de Melhores Efeitos Visuais , soa quase constrangedor que cifra tão elevada resulte em obra de qualidade tão diminuta.

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