Edição: sábado, 07 de março de 2026

Douglas Moutinho

COLUNISTA

Douglas Moutinho

A Noiva

Subversão superficial

Foto 1
A Noiva, dirigido por Maggie Gyllenhaal, parte de uma premissa promissora: revisitar o mito criado por Mary Shelley e ambientá-lo na Chicago dos anos 1930. Na trama, o monstro de Frankenstein que se autonomeia também Frankenstein pede à Dra. Euphronius que crie uma companheira. Ao reanimar uma jovem recentemente morta, surge a Noiva, encaminhando a narrativa para um romance violento, caótico e potencialmente subversivo. Na prática, porém, o filme raramente sustenta essa promessa.

O longa parece empenhado em apresentar uma proposta de subversão especialmente em chave feminista mas esbarra na coragem necessária para isso. Há uma sensação constante de que o filme acredita que bastam alguns palavrões, explosões de raiva e uma protagonista temperamental para construir uma figura feminina poderosa. O resultado é superficial. A provocação permanece na superfície e não se converte em construção dramática consistente.

Esse problema se agrava na forma como a narrativa se desenvolve. Em vez de confiar na força das imagens, o filme recorre repetidamente à exposição verbal para explicar o que deveria ser sugerido pela mise-en-scène. A direção parece desconfiar da própria capacidade de narrar visualmente e compensa essa insegurança com diálogos excessivamente explicativos. Assim, aquilo que poderia emergir do choque entre situações, enquadramentos e atmosferas acaba sendo simplesmente dito. O cinema cede espaço à ilustração verbal.

O roteiro também demonstra fragilidade estrutural. As conexões dramáticas entre os elementos da história são frouxas e muitas vezes arbitrárias. Um dos dispositivos mais curiosos e problemáticos é a presença da própria Mary Shelley dentro da mente da criatura reanimada. A escritora aparece como uma espécie de entidade que habita a morta-viva ao mesmo tempo que habita o submundo, conduzindo reflexões e diálogos que deveriam produzir densidade temática, mas na prática reforça a tendência do filme à explicação literal.

Há também uma indecisão tonal constante. O filme oscila entre terror, drama e comédia sem consolidar nenhum desses registros. Em certos momentos, parece tentar assumir uma postura de sátira do gênero; em outros, busca uma seriedade sombria que nunca se estabelece plenamente. A confusão aumenta quando a narrativa passa a flertar com o musical. Algumas dessas sequências surgem de maneira abrupta e deslocada, produzindo um efeito de constrangimento que rompe o pouco de gravidade que o filme ainda mantinha.

A proposta de reinvenção do mito de Frankenstein poderia abrir espaço para uma reflexão estética e narrativa interessante. Em vez disso, o longa prefere explicar suas intenções, multiplicar discursos e alternar registros sem convicção. Falta decisão formal e falta coragem para levar suas próprias ideias até o limite. O resultado é um projeto que se pretende subversivo, mas que permanece preso a uma superfície ruidosa e pouco consistente.


Pânico 7

Retorno ao passado e medo do futuro


Pânico 7 retoma a estrutura clássica da franquia: um assassino assume o manto de Ghostface e passa a aterrorizar a protagonista mais clássica da série e as pessoas ligadas a ela. Desta vez, o cenário é a cidade onde Sidney Prescott tentou reconstruir a própria vida. A aparente estabilidade de sua vida se rompe quando sua filha se torna o novo alvo do assassino, trazendo de volta todos os fantasmas que acompanham a protagonista desde o primeiro filme.

O Ghostface desta nova entrada é particularmente brutal. A violência gráfica algo que vinha se intensificando nos capítulos mais recentes da saga aparece aqui de forma ainda mais visceral. No entanto, esse potencial acaba parcialmente desperdiçado por um roteiro que raramente consegue transformar a brutalidade em verdadeiro impacto dramático. A trama se desenvolve de maneira pouco surpreendente e, ao final, recorre ao expediente já tradicional do subgênero: a longa explicação do plano do assassino. Embora esse tipo de revelação faça parte da identidade da série, aqui o procedimento soa excessivo, com motivações e detalhes sendo minuciosamente verbalizados em vez de integrados de forma mais orgânica à narrativa.

Apesar dessas fragilidades, o filme apresenta alguns elementos interessantes. Um dos mais relevantes é a tentativa de relacionar a lógica dos assassinatos com o ambiente tecnológico contemporâneo. A presença da inteligência artificial como potencial instrumento de manipulação e vigilância cria um diálogo direto com inquietações do presente. Esse aspecto, ainda que não revolucionário, é explorado com mais consistência do que em produções recentes que também flertaram com o tema, como Brinquedo Assassino e M3GAN.

Outro ponto forte é o retorno de Neve Campbell ao papel de Sidney Prescott, a final girl mais emblemática da franquia. Sua presença funciona como eixo de estabilidade para a narrativa e ajuda a manter a continuidade simbólica da série. A personagem é utilizada de maneira eficaz, o que faz com que as ausências de Jenna Ortega e Melissa Barrera sejam muito menos sentidas do que se poderia imaginar.

No fim, Pânico 7 não representa uma reinvenção significativa da fórmula. O filme repete muitos dos mecanismos já conhecidos da franquia, inclusive suas limitações narrativas. Ainda assim, cumpre aquilo que o público espera da série: sequências violentas, momentos de suspense construídos em torno de um enredo intrincado e uma dose constante de nostalgia ligada à longa trajetória de Sidney. Não é um capítulo particularmente inovador, mas preserva os elementos que mantêm viva a identidade da saga, consagrando-se como uma entrada essencial para a série.

Edição: sábado, 07 de março de 2026

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