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Douglas Moutinho

COLUNISTA

Douglas Moutinho

Cara de um Focinho do Outro

O retorno da Pixar à densidade narrativa

n Reprodução

Ainda em 2017, a Pixar Animation Studios lançava Viva A Vida é uma Festa, possivelmente seu último grande marco criativo antes de um período de oscilação estética e narrativa. Desde então, o estúdio passou a alternar entre obras pouco ambiciosas, produtos funcionalmente corretos e narrativas que, embora por vezes competentes, careciam de densidade simbólica. A antiga imagem da Pixar como uma “fábrica de criatividade” cedeu lugar à percepção de uma engrenagem industrial mais previsível, amplamente integrada à lógica produtiva da The Walt Disney Company.

É importante notar, contudo, que os elementos estruturais de suas narrativas permaneceram relativamente estáveis: dramas familiares, imagética lúdica, roteiros acessíveis e mensagens universalizantes. O problema não reside, portanto, no modelo em si, mas em sua progressiva cristalização um modelo reiterado que passa a operar como fórmula. Nesse contexto, a sensação de artificialidade, de produto “enlatado”, torna-se difícil de ignorar.

É justamente contra esse horizonte de expectativas rebaixadas que emerge Cara de um Focinho do Outro (título nacional lamentável, que nada reflete a proposta original de Hoppers). O filme se impõe como uma exceção relevante dentro da produção recente do estúdio, não apenas por sua execução técnica, mas sobretudo por sua ambição temática.

A narrativa acompanha Mabel, uma jovem engajada na proteção ambiental, que se opõe à construção de um viaduto promovida pelo prefeito local. O dispositivo fantástico a capacidade de inserir a própria mente em um castor robô para se infiltrar entre os animais poderia sugerir uma fábula simplificada. No entanto, o filme rapidamente se revela mais complexo, articulando uma rede de subtextos que tensiona leituras imediatas. Sob sua superfície aparentemente didática, Hoppers explora questões como a gênese de regimes autoritários, os dilemas do desenvolvimento sustentável, a persistência como prática ética e a dimensão relacional da subjetividade em contraste
com ideais abstratos de perfeição. O filme também problematiza a polarização ideológica contemporânea, defendendo o diálogo como prática política efetiva, ao mesmo tempo em que relativiza categorias rígidas de bem e mal.

A obra alcança um equilíbrio raro entre o lúdico e o dramático. Ao evitar a exposição excessivamente literal de suas mensagens, opta por uma construção que privilegia as entrelinhas, confiando na experiência do espectador como espaço de significação. Nesse sentido, aproxima-se de um modelo mais elevado de animação, no qual a aprendizagem emerge da vivência da personagem, e não de enunciados pedagógicos diretos. O filme expande um conflito aparentemente simples o embate entre uma jovem ativista e um agente político em uma experiência narrativa de grande impacto.

O que se apresenta, à primeira vista, como uma história local, desdobra-se em uma reflexão global e mais ampla sobre coletividade e sustentabilidade. Nesse sentido, Hoppers não apenas se destaca dentro da filmografia recente da Pixar, mas também sinaliza, ainda que pontualmente, a possibilidade de um retorno à complexidade que outrora definiu o estúdio.


Missão Refúgio

Entre carisma e repetição

f Reprodução


Missão Refúgio, dirigido por Ric Roman Waugh e estrelado por Jason Statham, apresenta-se como mais um exemplar recente do cinema de ação industrial, estruturado a partir de uma premissa funcional e orientado prioritariamente pela eficácia de suas sequências. Statham interpreta Mason, uma figura enigmática que vive isolada em uma ilha, sustentado logisticamente por um intermediário e uma adolescente responsável  pelo transporte de suprimentos. Um acidente, no entanto, desloca o eixo narrativo, colocando sob sua responsabilidade a proteção da jovem.

A escolha de personagens remete imediatamente à estrutura relacional consagrada por The Last of Us: o encontro entre um homem experiente e uma adolescente aparentemente vulnerável, cuja convivência progressivamente redefine ambos. Trata-se de um arquétipo já amplamente explorado no audiovisual contemporâneo. Contudo, a comparação evidencia mais as limitações do filme do que suas qualidades.

Diferentemente da obra da Naughty Dog, que dispõe de um extenso tempo de desenvolvimento seja na forma de gameplay ou adaptação seriada, Missão Refúgio se restringe a pouco mais de noventa minutos. Essa compressão temporal compromete a densidade da relação central: o vínculo entre Mason e a adolescente surge de maneira abrupta, carecendo de mediações dramáticas que o tornem convincente. Assim, o que em The Last of Us se constrói como transformação gradual, aqui se reduz a um atalho narrativo.

No interior do gênero, entretanto, a fragilidade dramática nem sempre constitui um problema central. O cinema de ação frequentemente opera com o enredo como dispositivo funcional um pretexto para a encenação de conflitos físicos e sequências coreografadas. Nesse contexto, o critério de avaliação desloca-se para a inventividade da mise-en-scène: enquadramento, ritmo, espacialização e clareza visual tornam-se elementos decisivos.

Exemplos paradigmáticos recentes, como a franquia Missão: Impossível e John Wick, demonstram como a construção rigorosa da ação pode elevar o gênero a um patamar de excelência formal. Em contraste, o trabalho de Waugh revela limitações.

nacreditavelmente lançando dois filmes em um espaço de 40 dias Missão Refúgio e Destruição Final 2, não desenvolve uma estética própria em nenhum deles. Além disso, em ambos o diretor recorre ao uso de Deus Ex  Machina para possibilitar a condução do enredo. Além disso, a ausência de inventividade nas cenas de ação e a superficialidade na construção das personagens limitam significativamente o impacto do filme. Nesse cenário, o principal elemento de sustentação permanece sendo o próprio Statham.

Consolidado como um dos principais nomes do cinema de ação contemporâneo, o ator herda e atualiza uma tradição associada a figuras como Sylvester Stallone, Chuck Norris e Jean-Claude Van Damme intérpretes cuja presença física e disposição para executar suas próprias cenas de risco constituem parte essencial de seu apelo. Dessa forma, é menos o filme que se afirma por si mesmo do que a persona de Statham que garante sua eficácia imediata. Missão Refúgio não reinventa o gênero nem propõe avanços formais significativos; limita-se a reproduzir seus códigos com competência irregular. Ainda assim, em um cenário saturado por produções indistintas,
essa adesão básica à funcionalidade pode ser suficiente para assegurar sua recepção como entretenimento descartável, porém funcional.

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