COLUNISTA
Psicologia, poder e ideologia em confronto
Como acontece em qualquer evento de larga escala, é natural que a Segunda Guerra Mundial tenha servido de base para um número significativo de filmes. Dentre esse repertório de filmes sobre esse tema, o evento já foi explorado sob múltiplas óticas: encenação de batalhas específicas, heroicização de personagens específicas, dramas paralelos fictícios, espetacularização bélica, dramas introspectivos, entre outros.
Em meio a essa gama de possibilidades que a Segunda Guerra Mundial entrega à arte, uma delas desdobram-se nos acontecimentos posteriores ao fim da guerra, mais especificamente, o evento que ficou conhecido como o Julgamento de Nurenberg, onde os nazistas foram acusados e julgados pelos Aliados por crimes de guerra. Retratado algumas vezes no cinema, o acontecimento alcançou a sua encenação máxima na obra de Stanley Kramer, de 1961, onde quatro juízes alemães são acusados de legalizar as atrocidades do regime hitlerista.
Frequentemente quando ocorre no cinema uma grande obra sobre determinado tema, ela se torna referência e guia das produções futuras, estas muitas vezes tornando-se meras reproduções genéricas com atualizações tecnológicas. Definitivamente não foi esse o caso de Nuremberg.
Nuremberg surge com a proposta principal de abordar a relação entre Hermann Göring, marechal do Reich Alemão, e Douglas Kelley, psiquiatra responsável por avaliar líderes nazistas e que fica obcecado em compreender os motivos do Nacional Socialismo através de Göring. Dessa forma, já em sua premissa, Nuremberg situa-se em uma zona pouco explorada da política global dos anos 40.
Adaptado do livro de 2013, The Nazi and the Psychiatrist de Jack El-Hai, o filme configura-se majoritariamente como um longo debate político, ideológico e moral entre os dois protagonistas. Apesar de alguns desses diálogos recorrerem a soluções clichês, a grande maioria deles desdobram-se em indagações pertinentes e ausentes de respostas evidentes. Estimulando reflexões por meio da humanização dos próprios líderes nazistas, James Vanderbilt constrói uma complexa dialética na qual valores, história e motivações se afastam de uma lógica maniqueísta e simplificada comumente encenadas quando o cinema dramatiza a relação entre Eixo e Aliados.
No entanto, embora o filme agrade em diversos aspectos formais e em sua proposta, talvez sua melhor qualidade seja o retorno de Russell Crowe a uma atuação à altura de seu talento. Ao interpretar Hermann Göring, falando em alemão e em inglês com forte sotaque, o ator constrói uma figura marcada por uma aura de superioridade e por um olhar ao mesmo tempo ameaçador e controlador traços associados à figura histórica representada.
Em Nuremberg, a fidelidade histórica tende a se impor como critério central de construção dramática, negligenciando demandas contemporâneas. Essa postura corajosa é digna de elogios em uma época em que a reconstrução histórica mais fidedigna vem perdendo espaço em prol da diversidade. O filme prisma pela plausabilidade, entregando um drama histórico coerente preocupado em construir debates de época, mas ainda assim ancorados no presente, no entanto, situados na mise-en-scène e no roteiro.
A simplicidade enganosa
Devoradores de Estrelas, ficção científica estrelada por Ryan Gosling, acompanha um professor de ciências e biólogo, Ryland Grace, que se torna responsável por uma missão espacial destinada a salvar a Terra, ameaçada por uma misteriosa ocorrência de origem cósmica. No entanto, para que a missão se concretize, Grace precisa aceitar a própria morte.
De premissa simples e até mesmo familiar ao gênero , o filme gradualmente se transforma em uma complexa rede de questionamentos morais e filosóficos, disfarçados sob um verniz leve e lúdico. A obra exige, assim, uma leitura atenta de suas entrelinhas, nas quais a narrativa aparentemente direta se desdobra em múltiplos níveis e revela diferentes camadas ao espectador.
Dialogando e por vezes referenciando com clássicos como 2001: A Space Odyssey, The Martian e Interstellar, Devoradores de Estrelas insere-se de forma orgânica como um continuador digno de uma tradição consolidada da ficção científica. Essas aproximações não são gratuitas: o filme baseia-se na obra homônima de Andy Weir, autor também de Perdido em Marte, e demonstra um claro respeito pelos códigos e temas clássicos do gênero.
Além disso, o longa configura um caso relativamente raro na lógica mercadológica do cinema mainstream contemporâneo. Em um cenário dominado por franquias e propriedades já estabelecidas, projetos originais com grande orçamento tornaram-se menos frequentes. Indo na contramão dessa tendência, Devoradores de Estrelas não apenas se estabelece como blockbuster, como também conquista o público de forma progressiva, registrando crescimento de bilheteria em sua segunda semana um indicativo de recepção positiva impulsionada pelo boca a boca.
Nesse sentido, o filme evidencia que o cinema mainstream não precisa se apoiar exclusivamente em continuações, remakes ou universos consolidados. Uma narrativa sólida, aliada a uma execução consistente, pode gerar impacto igual ou superior ao de fórmulas já conhecidas.
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