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Douglas Moutinho

COLUNISTA

Douglas Moutinho

O Drama

Entre o segredo e o julgamento: moralidade, passado e ego

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Como pode um acontecimento pretérito, ocorrido há anos, reconfigurar a percepção que outrem constrói a seu respeito no presente? Qual terá sido o ato mais reprovável que já cometeu? De que modo se relaciona com o próprio passado? Como reagiriam aqueles que lhe são próximos caso viessem a conhecer seus momentos mais degradantes? Seriam os atos moralmente condenáveis produto de uma mente deturpada, das contingências do contexto, da imaturidade ou de um sistema de valores específico, ou configurariam eles elementos definidores da personalidade ao longo da vida? Em que medida o passado o constitui? Quão irrepreensível é você para se arrogar o direito de
julgar o outro? Seria você superior àquele cujo passado foi exposto apenas porque o seu permanece oculto? O erro alheio é invariavelmente menor que o próprio? É possível, afinal, recomeçar?

Essas constituem algumas das indagações que perpassam as quase duas horas de O Drama, filme dirigido e roteirizado por Kristoffer Borgli, que apresenta Zendaya e Robert Pattinson como os protagonistas Emma e Charlie, um casal que, após dois anos de relacionamento, vê suas estruturas abaladas às vésperas do casamento pela revelação de um antigo acontecimento envolvendo Emma. Tal revelação emerge em um momento de descontração entre Emma, Charlie e dois amigos, no qual partilhavam “o que haviam feito de pior na vida”. A partir do instante em que Emma expõe o referido episódio, seu mundo passa a se desagregar. Charlie torna-se progressivamente obcecado pelo passado de sua futura esposa; as relações de amizade se fragilizam; e o próprio horizonte de futuro se torna incerto.

Antes de tudo, enquanto seres que experienciam a história em sua processualidade cotidiana, impõe-se a obrigação intelectual de reconhecer que todo julgamento é, em essência, moral e que a moralidade se transforma ao longo do tempo. Na era da comunicação acelerada e da globalização, aquilo que se entende por moral revela-se facilmente mutável em lapsos temporais exíguos. Desse modo, qualquer juízo que se estabeleça à revelia do contexto histórico-mental torna-se, automaticamente, anacrônico e, como todo anacronismo, inválido. Não obstante, aquilo que deveria constituir um conhecimento elementar apto a orientar o julgamento em direção a uma postura mais impessoal e até mesmo empática é eclipsado pelo egoísmo, isto é, pela centralidade do ego o eu que obscurece qualquer possibilidade de raciocínio lógico.

O Drama, que se inicia como um romance de aparência simples, converte-se gradativamente em uma densa e intrincada rede de pensamentos que se encadeiam uns aos outros, segundo uma lógica de causa e efeito, acumulando-se até sufocar o casal protagonista. As questões suscitadas pela narrativa não são respondidas de maneira didática. Revela-se cândido o pensamento segundo o qual, para questões de elevada complexidade, existiriam soluções simples e universais. À medida que a trama se desenvolve, torna-se progressivamente mais evidente a densidade e a complexidade dos temas levantados. O roteiro de Borgli cumpre sua função com maestria; contudo, o grande mérito da obra reside no modo como acompanha formalmente o desenvolvimento da narrativa. O emprego dos enquadramentos, dos movimentos de câmera e da montagem, assim como o uso do som, intensifica a escalada dos acontecimentos. A agonia do espectador torna-se quase tangível, resultado de uma direção segura e consciente de seus meios.

Ao término da obra, é praticamente inevitável o impulso de discuti-la e isso constitui um mérito inequívoco. A arte não se destina a oferecer respostas, mas a suscitar questionamentos. Uma obra encerrada em si mesma configura-se como produção menor, meramente expositiva, um cinema de consumo rápido, análogo a um fast-food destinado a massas ávidas por distração imediata. Não é esse o caso de O Drama, que, embora inserido em uma lógica mercadológica, distancia-se do padrão recorrente do cinema norte-americano contemporâneo.

Por fim, de modo sucinto, O Drama debruça-se sobre uma questão de extrema complexidade e intimidade: como seria a própria vida caso os segredos mais profundos viessem à tona? Enquanto ecoa a passagem bíblica em que Jesus exorta que atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado, multiplicam-se, na contemporaneidade, os fariseus que se sentem plenamente autorizados a julgar e a lançar pedras desde que, evidentemente, seus próprios segredos permaneçam resguardados.


Super Mario Galaxy: o filme

Entre nostalgia e espetáculo

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A sequência de Super Mario Bros.: o Filme, intitulada Super Mario Galaxy: o Filme, dá continuidade aos eventos do primeiro longa, resultando, em última instância, em uma experiência orientada ao entretenimento e à nostalgia. Nesse sentido, contudo, pode-se identificar o cerne de sua principal controvérsia.

Galaxy exemplifica um fenômeno recorrente em blockbusters contemporâneos: a discrepância entre a recepção do público e a avaliação crítica. Enquanto o público demonstrou elevada adesão, impulsionando o desempenho de bilheteria por meio da divulgação orgânica, a crítica especializada apontou que o filme se estrutura predominantemente como uma vitrine de personagens, itens e locações do universo de Super Mario, em detrimento de um desenvolvimento narrativo mais orgânico e coeso.

Tal discussão reativa uma problemática clássica dos estudos cinematográficos: a definição e os limites do entretenimento no cinema. Observa-se que determinadas produções inclusive no campo da animação conseguem articular simultaneamente apelo comercial e densidade estética, como evidenciam Robô Selvagem, Cara de um, Focinho do Outro e Gato de Botas 2: O Último Pedido, nas quais ambas as dimensões coexistem de forma mais equilibrada.

Nesse contexto, embora Galaxy abdique de certos elementos autorais em favor de uma apresentação acelerada de seu repertório iconográfico, permanece a questão sobre se tal escolha constitui, de fato, um problema quando considerada sua proposta declarada de entretenimento e sua eficácia junto ao público-alvo nostálgico da franquia.

Em última análise, o filme cumpre aquilo que se propõe a entregar: ludicidade, leveza, diversão e nostalgia. Ainda que possa ser classificado como um produto de lógica industrial orientada ao consumo rápido, sua capacidade de engajamento com o público fã permanece evidente, mesmo que sua relevância artística seja objeto de debate.

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