COLUNISTA
Uma fábula existencial
Inspirado na obra Three bags full, o longa narra a inusitada jornada de um rebanho de ovelhas cuja rotina pacata é abruptamente desestabilizada após a morte de seu pastor, George. Habituadas a ouvir histórias de mistério narradas por ele durante as noites no campo, as ovelhas passam a interpretar o mundo a partir da lógica investigativa dos romances policiais. Diante da tragédia, o grupo decide atravessar os limites de seu universo rural e mergulhar em uma realidade desconhecida e essencialmente humana, movido pela tentativa de compreender o assassinato de seu dono. Entre estradas, vilarejos e encontros improváveis, o rebanho transforma uma investigação criminal em uma inesperada jornada de confronto com aquilo que existe para além das cercas da pastagem.
O filme constitui-se como uma fábula e, como toda fábula tradicional, encontra-se impregnado de lições morais. Eclipsado por um verniz lúdico e colorido, o que mais chama a atenção são justamente essas lições algumas sutis, outras explícitas reveladas em suas múltiplas camadas narrativas. O espectador desavisado, porém atento, que ingressar na sala de cinema esperando apenas uma comédia superficial, deparar-se-á com um enredo rico, que dialoga intimamente com temas pertinentes como exclusão e preconceito, memória e esquecimento, amadurecimento e infantilidade, angústia existencial, religião e crença.
Embora sejam numerosos os tópicos abordados para um drama familiar, impressiona a maneira como As Ovelhas Detetives articula harmonicamente seus diferentes núcleos narrativos sem jamais ultrapassar os limites de seu tom fabulesco, leve e lúdico. Assim como Platão utilizou a alegoria da caverna para ilustrar a oposição entre o mundo aparente e a realidade, o filme emprega, de maneira análoga, o pasto, a estrada e o vilarejo como espaços simbólicos de descoberta e transformação.
Embora por vezes pareça genérico e, em determinados momentos, excessivamente melodramático, o filme faz excelente uso de seus elementos formais sobretudo da iluminação e da paleta cromática empregando-os de maneira expressiva, enquanto os demais recursos cinematográficos servem para aprofundar a dramaticidade e o sentimentalismo da narrativa.
As Ovelhas Detetives soa como uma obra deslocada de seu tempo, e talvez isso explique seu desempenho relativamente modesto nas bilheterias. Remetendo a clássicos do gênero, como Babe, o longa nada contra a corrente ao recorrer declaradamente à fantasia em uma época na qual o cinema parece buscar, cada vez mais, um realismo quase visceral. Paradoxalmente, muitos espectadores pagam pelo escapismo, mas passam a rejeitá-lo quando ele os afasta em demasia do real recorrendo, não raro, a críticas risíveis centradas em verossimilhança e em uma busca quase fetichista pelo realismo como se o distanciamento do mundo concreto e a reaproximação com a própria dimensão infantil fossem experiências constrangedoras.
Por fim, As Ovelhas Detetives talvez não entregue aquilo que a maioria do público acredita desejar assistir; entretanto, oferece precisamente aquilo que pode encantar todos os que estiverem dispostos a se entregar a uma grande história e a adentrar, sem cinismo, o universo mágico das fábulas.
Nostalgia e liquidez
Uma análise de O Diabo Veste Prada 2 permite observar como a indústria de Hollywood operacionaliza a chamada nostalgização das narrativas. Este processo não é apenas uma repetição, mas uma estratégia estética e mercadológica que busca criar vínculos afetivos imediatos através da reciclagem de elementos do passado. O longa-metragem funciona como um produto típico do consumo característico do conceito baumaniano de modernidade líquida, apresentando-se de forma espetacularizada e efêmera, onde o valor do acesso à marca consolidada supera a substância da obra.
O filme se apoia meramente nessa nostalgia, emulando sequências e ritmos do original de 2006 sem, contudo, capturar sua energia vital. Essa tática visa garantir o retorno financeiro através da previsibilidade emocional, oferecendo ao público um refúgio em tempos de incerteza. Na prática, a obra utiliza o passado como um simulacro para compensar a ausência de uma história real, resultando em uma sequência de acontecimentos desconexos que priorizam a segurança em detrimento da vocação cinematográfica.
Embora o longa tente refletir o zeitgeist atual, ele o faz superficialmente. Assuntos urgentes como a Inteligência Artificial e o poder das Big Techs são apenas pincelados no roteiro. Ao tratar temas complexos como meros acessórios de cena, o filme falha em estabelecer um diálogo denso com o presente, tornando as discussões sociais puramente utilitárias.
No entanto, um dos sintomas mais claros da crise de originalidade no projeto é o tratamento dado aos personagens originais. Em vez de refletir os 20 anos de
amadurecimento esperados, o roteiro opto conservadorismo narrativa, voltando atrás em decisões de trajetória por insegurança. A protagonista Andy Sachs é retratada com uma falta de confiança e maturidade que contradiz seu arco anterior, demonstrando que o filme prefere manter os ícones estáticos para não arriscar a alienação do público nostálgico.
Em última análise, O Diabo Veste Prada 2 confirma a tendência de transformar o cinema em um objeto de fetiche puramente mercadológico. O filme entrega o reconhecimento visual e sonoro que o espectador deseja, mas esvazia a obra de qualquer intenção artística que pudesse estressar positivamente a experiência.
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