COLUNISTA
O terror sempre ocupou, dentro da história do cinema, um espaço associado à ruptura, ao excesso e à transgressão. Historicamente marginalizado pela crítica tradicional, o gênero construiu sua identidade justamente através da sujeira estética, da violência gráfica, da exploração do corpo e da disposição constante em atravessar limites morais, visuais e narrativos. Em obras como O Massacre da Serra Elétrica, a precariedade técnica não surgia como deficiência, mas como potência estética: o ruído visual, a câmera instável, a iluminação agressiva e a sensação quase documental de degradação produziam um horror profundamente material e social. O terror não buscava conforto, sofisticação ou respeito; buscava confronto.
No entanto, o horror contemporâneo parece atravessar um processo progressivo de domesticação. Se antes o gênero lidava diretamente com questões ligadas à classe, violência urbana, sexualidade, decadência social, paranoia política e colapso familiar, hoje grande parte do terror desloca seus conflitos para dimensões abstratas. Em um cenário cultural marcado pela hiperexposição discursiva, pela vigilância moral das redes sociais e pela rápida problematização pública de obras consideradas ofensivas, o terror encontra na abstração psicológica uma estratégia de sobrevivência. Quanto menos diretamente uma obra nomeia grupos sociais, conflitos políticos ou tensões culturais específicas, menor é o risco de atrito público.
Não por acaso, o terror atmosférico cresce justamente no momento em que o cinema de horror parece cada vez menos disposto a assumir frontalmente determinadas violências da realidade contemporânea. O horror torna-se seguro. Perturba, mas cuidadosamente; inquieta, mas dentro de limites formais rigorosamente controlados. A violência gráfica é reduzida, a nudez torna-se cada vez mais rara e o grotesco passa a ser enquadrado dentro de uma estética sofisticada e visualmente elegante. Esse processo de aburguesamento não se manifesta apenas no conteúdo, mas também na forma. A fotografia cristalina em widescreen, os movimentos sutis de câmera, o minimalismo sonoro e a mise-en-scène calculadamente elegante revelam um gênero que busca legitimidade estética dentro dos padrões do cinema de shopping.
Entretanto, reduzir essa transformação a uma simples decadência seria igualmente simplista. Os primeiros expoentes dessa onda contemporânea de terror psicológico foram fundamentais para revitalizar um gênero que, durante os anos 2010, encontrava-se artisticamente esgotado e industrialmente saturado. Mesmo dentro de um sistema aparentemente fechado e domesticado, alguns realizadores ainda conseguem produzir obras genuinamente autorais. Da mesma forma que Godard, Truffaut, Rohmer e Chabrol identificaram marcas autorais em cineastas inseridos no sistema industrial hollywoodiano, também é possível perceber singularidades em alguns realizadores contemporâneos que operam dentro das limitações formais do horror atmosférico.
É justamente nesse contexto que surgem simultaneamente Obsessão e Passageiro do Mal.
Obsessão parte de uma premissa aparentemente simples: o jovem Bear utiliza um objeto sobrenatural para fazer com que Nikki se apaixone por ele. O desejo funciona, mas de maneira monstruosa. Nikki deixa progressivamente de agir como uma pessoa real e passa a existir como manifestação grotesca da carência afetiva e da fantasia de controle do protagonista. Seu amor deixa de ser afeto para se tornar dependência absoluta, invasão e violência emocional.
Embora o filme evidencie claramente algumas das limitações formais do horror contemporâneo, Obsessão consegue preservar um núcleo temático profundamente humano dentro da estética domesticada do terror psicológico atual. Apesar da fotografia limpa, da atmosfera melancólica e da mise-en-scène elegante típicas do horror de prestígio, o filme ainda trabalha diretamente com questões reconhecíveis da experiência contemporânea: solidão masculina, idealização romântica, incapacidade de lidar com rejeição e desejo de posse emocional. O sobrenatural não funciona apenas como metáfora abstrata, mas como extensão monstruosa de impulsos afetivos extremamente concretos. Ainda que seu grotesco permaneça cuidadosamente controlado e a violência raramente exploda de maneira realmente desconfortável, existe no filme uma tensão interessante entre sua embalagem burguesa e o desconforto emocional genuíno presente em seu núcleo narrativo. Diferentemente do horror setentista, que utilizava ruído, excesso e degradação estética como forma de agressão sensorial, Obsessão enquadra seu horror dentro de uma estética limpa e prestigiosa sem abandonar completamente sua dimensão perturbadora.
Passageiro do Mal segue um caminho bastante diferente. O filme acompanha um jovem casal que, após testemunhar um acidente brutal na estrada, percebe que uma entidade demoníaca passou a persegui-los continuamente durante a viagem. A partir dessa premissa simples, o longa constrói uma experiência baseada em paranoia, perseguição sobrenatural e tensão constante, apostando na sensação de inevitabilidade da ameaça.
Entretanto, ao contrário de Obsessão, Passageiro do Mal raramente consegue transformar essa proposta em uma experiência verdadeiramente autoral. Embora eficiente em sua atmosfera noturna e opressiva, o filme permanece excessivamente preso às fórmulas mais genéricas do terror contemporâneo. Sua construção dramática depende constantemente de jump scares, explosões sonoras e sustos mecanicamente distribuídos ao longo da narrativa, fazendo com que o horror funcione mais como estímulo imediato do que como desconforto genuinamente construído.
Nesse sentido, Passageiro do Mal talvez represente de maneira ainda mais evidente o estágio atual do horror atmosférico contemporâneo: um cinema tecnicamente sofisticado, visualmente limpo e comercialmente funcional, mas cada vez menos interessado em confronto, excesso ou verdadeira ruptura estética. Diferentemente de Obsessão, que ainda encontra pequenas fissuras autorais dentro desse modelo domesticado, Passageiro do Mal parece aceitar integralmente os limites seguros e previsíveis do horror contemporâneo.
As duas obras acabam funcionando, portanto, como exemplos complementares das ambiguidades do terror contemporâneo. Ambas pertencem ao mesmo contexto de higienização estética e neutralização temática do gênero, mas enquanto Obsessão ainda encontra fissuras autorais dentro desse sistema fechado, Passageiro do Mal evidencia justamente os limites criativos de um horror cada vez mais controlado, sofisticado e domesticado.
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