Edição: domingo, 14 de junho de 2026

Douglas Moutinho

COLUNISTA

Douglas Moutinho

Mestres do Universo: fidelidade e a autossabotagem

Foto: Divulgação
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Mestres do Universo é o primeiro filme da franquia centrada em He-Man desde Masters of the Universe (1987), adaptação estrelada por Dolph Lundgren. Diferentemente daquele longa, que transferia grande parte da ação para a Terra como consequência das limitações orçamentárias, a nova produção investe pesadamente na construção visual de Eternia, o mundo fantástico que serve de cenário às aventuras do herói. Finalmente, He-Man recebe uma adaptação compatível com a dimensão imaginária de seu universo. A questão é se esse esforço foi suficiente para transformar fidelidade estética em um grande filme.

Com o elevado investimento veio também a missão de dialogar com uma nova geração de espectadores. Não é segredo que He-Man é um produto profundamente ligado ao seu tempo. Sua estética sempre habitou um território camp e assumidamente artificial, marcado pelo excesso visual, pelo maniqueísmo narrativo e por valores característicos da cultura pop dos anos 1980. Nesse contexto, apenas atualizar os efeitos especiais talvez não fosse suficiente para tornar o personagem atraente ao público contemporâneo, especialmente quando existe a preocupação simultânea de preservar aquilo que tornou a franquia um fenômeno.

O resultado é um filme que respeita a imensa maioria dos elementos clássicos da série. Sua imagética evita recorrer excessivamente a tendências estéticas momentâneas e encontra força justamente naquilo que poderia parecer antiquado. Esse distanciamento do realismo que domina boa parte do entretenimento infantojuvenil contemporâneo revela-se um dos maiores acertos da adaptação. O respeito ao material original é perceptível nos jargões, nos elementos centrais da mitologia, nos figurinos detalhados e em toda a exuberância visual que sempre caracterizou o universo de Eternia. Há algo de deliberadamente cafona em muitas dessas escolhas, e o filme acerta ao compreender que essa cafonice faz parte da identidade da obra.

Os elogios, entretanto, tendem a se concentrar na qualidade técnica, no apelo nostálgico, no respeito visual à franquia e nas cenas de ação. Quando o filme procura dialogar com a nova geração, surgem os seus problemas mais evidentes. E o problema não está em buscar novos espectadores, mas na aparente convicção de que eles seriam incapazes de apreciar momentos de silêncio, gravidade dramática ou mesmo uma narrativa que leve a si própria minimamente a sério.

Não considero adequado reduzir a arte à transmissão de mensagens. Ainda assim, quando uma obra escolhe organizar seu enredo em torno de uma ideia central, espera-se ao menos alguma coerência entre aquilo que é construído ao longo da narrativa e aquilo que é apresentado em sua conclusão. O filme trabalha repetidamente determinados valores e conflitos para, nos momentos finais, enfraquecer ou contradizer parte significativa do que vinha desenvolvendo. O resultado é uma sensação constante de dispersão dramática. Talvez não seja coincidência que o roteiro conte com seis profissionais creditados, algo que ajuda a explicar a falta de unidade que atravessa a narrativa.

Outro problema recorrente está na quantidade de piadas e tentativas de desconstrução do próprio personagem. Satirizar a própria história entra em choque com o respeito demonstrado nos demais aspectos da adaptação. O filme parece exibir suas imagens para um público adulto que guarda carinho e admiração pelo universo de He-Man, mas escolhe narrar essa história através do olhar de alguém que considera esse mesmo universo motivo de piada. A consequência é um conflito permanente entre reverência e ironia.

Embora apresente muitos acertos e represente uma agradável surpresa em termos de entretenimento, Mestres do Universo falha justamente onde mais precisava ser firme: na coragem de acreditar plenamente no personagem que decidiu adaptar.

Todo Mundo em Pânico 6: o retorno do besteirol ainda sob controle

Foto: Divulgação
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Após um longo período de expectativa, chega aos cinemas o sexto capítulo da franquia Todo Mundo em Pânico. A espera foi acompanhada por uma campanha de marketing incomumente agressiva para os padrões da série, vendendo o filme como uma comédia "sem limites".

Trata-se de uma promessa particularmente ambiciosa. Em uma época em que a comédia parece cada vez mais receosa de desagradar parcelas de seu público, a ideia de um retorno ao humor verdadeiramente irreverente naturalmente desperta interesse. A expectativa, portanto, era elevada.

Lançado em 2000, o primeiro Todo Mundo em Pânico tornou-se um marco do cinema de comédia satírica e do besteirol que dominou os anos seguintes. Herdeiro de uma tradição desenvolvida ao longo das décadas de 1980 e 1990, o filme combinava paródia, humor ofensivo, referências à cultura popular, violência cartunesca e sexualidade escancarada sem perder a coerência narrativa. Ao satirizar principalmente Pânico e diversos outros sucessos da época, a produção encontrou um equilíbrio raro entre absurdo e construção dramática, culminando em um desfecho memorável. Não por acaso, permanece como o ponto mais alto da franquia.

A nova entrada é, de fato, superior à maior parte das continuações lançadas ao longo dos anos. Ainda assim, está distante daquilo que sua campanha publicitária prometia. O filme não se aproxima da ousadia nem da capacidade de subversão presentes no original. Embora apresente um número considerável de piadas ofensivas e politicamente incorretas, a sensação predominante é de cautela. Em vários momentos, a obra parece relutante em ultrapassar limites que anteriormente constituíam justamente a identidade da série.

Outro problema está na construção da sátira. Muitas das referências surgem apenas como reconhecimento imediato, sem que haja um trabalho mais elaborado de desconstrução ou comentário sobre os objetos satirizados. Em vez de transformar suas referências em material cômico consistente, o filme frequentemente limita-se a apontá-las para o espectador. Soma-se a isso um roteiro irregular, que avança mais por sucessão de esquetes do que por uma estrutura narrativa verdadeiramente sólida.

Ainda assim, Todo Mundo em Pânico 6 possui méritos. É agradável assistir ao retorno de um tipo de humor que praticamente desapareceu do cinema comercial contemporâneo. Mesmo longe da irreverência prometida e consideravelmente mais contido do que seus modelos, o filme recupera parte do espírito anárquico que marcou as comédias dos anos 2000. Não representa o renascimento pleno do besteirol, mas demonstra que ainda existe espaço para uma comédia menos comportada do que aquela que domina as telas atualmente.

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