COLUNISTA
Steven Spielberg sempre foi o cineasta do espanto. Seus grandes filmes transformaram o encontro com o impossível em uma experiência humana: o alienígena, o desconhecido e o extraordinário eram portas para discutir solidão, medo e conexão.
Em Dia D, Spielberg retorna à ficção científica tentando mais uma vez falar sobre uma descoberta capaz de mudar a humanidade. O problema é que o filme promete uma reflexão profunda sobre fé, crenças e o futuro, mas entrega uma narrativa que muitas vezes apenas se veste de profundidade.
A maior fragilidade está no roteiro. Em uma época de redes sociais, inteligência artificial e circulação instantânea de informações, o filme parece preso a uma lógica antiga de conspirações e segredos escondidos. A ideia de uma revelação global poderia render uma discussão poderosa sobre como o mundo reagiria, mas Spielberg pouco explora essas consequências.
Visualmente, o diretor continua impressionante. Sua composição de planos, seu domínio da tensão e sua capacidade de criar imagens memoráveis continuam intactos. Porém, algumas sequências de ação parecem genéricas e destoam da tentativa de construir um suspense mais reflexivo.
É curioso observar que Spielberg, um dos cineastas que mais influenciaram o cinema das últimas décadas, parece agora dialogar com caminhos que outros diretores desenvolveram melhor. Há ecos de um cinema de mistério e revelação próximo ao de M. Night Shyamalan, mas sem a mesma identidade autoral que torna essas ideias realmente marcantes.
Dia D não é um fracasso. É o trabalho de um mestre da forma que ainda sabe criar fascínio visual. Mas o filme revela uma contradição: Spielberg continua capaz de filmar o momento em que alguém descobre algo extraordinário, mas talvez tenha dificuldade em encontrar algo verdadeiramente novo para dizer sobre essa descoberta.
Toy Story 5: a infância na era das telas
A força de Toy Story sempre esteve em transformar brinquedos em metáforas sobre mudança, abandono e amadurecimento. Ao longo dos anos, a franquia cresceu junto com seu público, e o desafio de Toy Story 5 era encontrar um novo conflito que justificasse seu retorno.
O filme acerta ao olhar para um problema atual: a relação das crianças com a tecnologia. O dispositivo Lily Pad representa o choque entre a brincadeira tradicional, baseada na imaginação, e um mundo digital cada vez mais presente.
A discussão é relevante, mas o filme talvez seja otimista demais ao tratar a tecnologia como algo que pode ser facilmente equilibrado. O excesso de telas tem efeitos reais no desenvolvimento infantil, afetando atenção, criatividade e socialização. Ao tentar evitar uma visão totalmente negativa da tecnologia, a obra acaba suavizando um problema mais profundo.
Um grande acerto é Jessie como protagonista. Sua trajetória sobre medo de ser substituída e perder seu lugar conecta o passado da franquia com os dilemas atuais.
Visualmente, a Pixar continua impressionante. O nível de detalhes e acabamento técnico coloca o filme entre as animações mais refinadas do estúdio. Porém, apesar de funcionar como reflexão sobre o presente, Toy Story 5 não alcança a mesma força de algumas entradas anteriores da série.
No fim, o filme entende que Toy Story nunca foi realmente sobre brinquedos, mas sobre aquilo que eles representam: a necessidade humana de criar vínculos e imaginar. A questão é se ainda existe espaço para isso em um mundo dominado pelas telas.
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