Edição: sábado, 25 de julho de 2026

Douglas Moutinho

COLUNISTA

Douglas Moutinho

A Odisseia

uma grande odisseia, mas não homérica

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Adaptar A Odisseia, de Homero, constitui um enorme desafio. Mais do que uma narrativa de aventuras, o poema sintetiza a visão de mundo da Grécia Arcaica, na qual heroísmo, religiosidade, destino e intervenção divina são indissociáveis. Christopher Nolan, porém, opta por reinterpretar esse universo a partir de uma perspectiva contemporânea, produzindo um filme visualmente grandioso, mas distante da essência da obra original.

Um dos aspectos que o leitor dA Odisseia mais sentirá falta é a quase completa supressão da dimensão mítica. Como consequência, figuras como as sereias, Polifemo, Cila, Caríbdis e os Lestrigões deixam de possuir significado simbólico para se tornarem apenas obstáculos de ação. Ao abandonar a lógica sobrenatural que estrutura do poema, o filme compromete a própria identidade da Odisseia.

O filme tanta aproximar a narrativa da sensibilidade contemporânea, e isso gera sucessivos anacronismos. A moralidade homérica é suavizada, os diálogos adotam linguagem excessivamente cotidiana e o roteiro apresenta soluções fáceis, pouco desenvolvimento dramático e referências incompatíveis com o contexto histórico. Essa mesma lógica aparece na reconstrução da Grécia micênica. Embarcações inspiradas em modelos vikings, armaduras de épocas posteriores e escolhas de elenco pouco comprometidas com qualquer verossimilhança histórica enfraquecem a ambientação. Embora o cinema não esteja preso à reconstituição arqueológica, ele também participa da construção do imaginário coletivo e carrega responsabilidade intelectual por suas escolhas.

Ainda assim, alguns acertos merecem destaque, como a reconstrução do palácio de Odisseu, as filmagens em Corinto e a representação de Troia, que demonstram maior rigor histórico.

Em relação ao elenco, Matt Damon entrega um Odisseu convincente, mas privado de características fundamentais do herói homérico, como sua religiosidade, seu temor aos deuses e parte de sua ambiguidade moral. Tom Holland, Robert Pattinson e Anne Hathaway oferecem boas interpretações, embora Penélope também seja simplificada pelo roteiro. Samantha Morton, como Circe, demonstra que releituras contemporâneas podem funcionar quando sustentadas por uma construção dramática consistente.

Em contrapartida, os aspectos formais representam o grande triunfo do filme. A fotografia em IMAX impressiona pela escala e beleza das imagens; os efeitos práticos conferem materialidade às cenas; a sequência da descida ao Hades destaca-se pela criatividade visual; e a trilha de Ludwig Göransson amplia a força emocional da narrativa sem recorrer aos excessos comuns do gênero.

A Odisseia é um espetáculo cinematográfico de grande impacto visual, mas que não captura o espírito do poema de Homero. Mais do que alterar episódios específicos, o filme transforma a lógica do universo homérico, substituindo sua cosmovisão mítica por uma leitura racionalizada e contemporânea.

Por isso, a obra funciona melhor como uma interpretação livre do que como uma adaptação propriamente dita. O maior problema está justamente no título: ao chamar o filme de A Odisseia, Nolan cria a expectativa de uma adaptação do poema, quando oferece, na realidade, uma leitura profundamente pessoal e significativamente distante da obra que a inspira.


O Convite

Quando o desejo revela o vazio

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

À primeira vista, O Convite parece uma comédia sobre um casal liberal e uma noite repleta de provocações sexuais. No entanto, Olivia Wilde utiliza essa premissa apenas como ponto de partida para uma reflexão sobre o desgaste dos relacionamentos, o ressentimento e a dificuldade de comunicação.

Confinado quase integralmente a um apartamento, o filme transforma um simples jantar em um duelo emocional. O roteiro encontra humor nas pequenas frustrações do cotidiano, revelando como casamentos costumam ruir não por grandes acontecimentos, mas pelo acúmulo de pequenas mágoas. Seth Rogen é o grande destaque, equilibrando sarcasmo e melancolia com excelente timing cômico. Penélope Cruz imprime magnetismo a Pína, enquanto Edward Norton e Olivia Wilde completam um quarteto de interpretações muito bem afinadas.

Apesar da evidente origem teatral, Wilde demonstra um olhar cinematográfico apurado. Sua mise-en-scène é cuidadosamente construída: espelhos, janelas, iluminação e a própria organização dos ambientes transformam o apartamento em uma extensão psicológica dos personagens, enquanto a trilha de Dev Hynes amplia a tensão crescente da narrativa.

O terceiro ato explica além do que antes foi exposto, reduzindo parte da ambiguidade construída ao longo da noite. Ainda assim, o filme recupera sua força na belíssima cena final, aberta a múltiplas interpretações. Mais do que oferecer respostas, ela devolve ao espectador a tarefa de decidir o que testemunhou.

Inteligente, espirituoso e sensível, O Convite demonstra que seu verdadeiro tema nunca foi o sexo, mas aquilo que permanece ou desaparece quando a intimidade dá lugar à rotina.

Edição: sábado, 25 de julho de 2026

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