COLUNISTA
Menos do universo, mais do herói
O novo Homem-Aranha mostra como o cinema de super-heróis ainda consegue se renovar quando encontra novas referências formais. Boa parte da sua linguagem de ação parece dialogar diretamente com os jogos de vídeo game mais recentes da franquia, incorporando um dinamismo que atualiza a estética do gênero sem perder a identidade cinematográfica. Em alguns momentos, o uso de planos em POV torna a experiência especialmente imersiva, aproximando o espectador da movimentação do herói. Também há referências claras ao cinema oriental na construção de algumas cenas de luta. Todos esses elementos atualizam a ação de forma pouco antes vista em um filme da Marvel. Apesar de não serem grandes inovações, seus usos simultâneos, bem equilibrados e bem executados transformaram o filme em uma rara excessão de ação dentre as mais recentes entradas no MCU.
Visualmente, chama atenção o uso intenso do vermelho vivo do uniforme, que contrasta com uma Nova York retratada de forma mais decadente do que nos filmes anteriores. Esse encontro entre a figura heroica e uma cidade mais sombria reforça a presença do Homem-Aranha como símbolo de esperança para o próprio herói. Não pude deixar de sentir como se a cidade mais decadente estivesse ligada ao interior de Peter, enquanto a sua máscara ainda brilhasse fortemente aos olhos alheios. Não por acaso, Peter se afastava de mundo ao seu redor enquanto o Homem-Aranha se inseria cada vez mais na cidade como parte indissolúvel daquela Nova York.
Outro mérito é o foco na aventura solo. Em um universo cinematográfico tão extenso quanto o da Marvel, é um alívio encontrar um filme que funciona por si só, sem depender constantemente de conexões com outras produções. Essa autonomia faz com que a narrativa tenha mais força. Apesar da Marvel parecer ter se convencido disso já nas suas últimas entradas, é bom saber que a tendência ainda é essa.
No entanto, no fundo o que move o filme é aquilo que sempre definiu o Homem-Aranha: sua dimensão moral, felizmente preservada no personagem de Holland. Assim como em Peter Parker, a ideia de que qualquer pessoa pode escolher ser boa nunca é abandonada. Essa preocupação ética continua sendo o verdadeiro coração do personagem.
Para mim, é o melhor filme do Homem-Aranha com Tom Holland. Talvez até dependa menos do fan service do que o anterior, justamente porque se sustenta pelas próprias qualidades. Funciona como um grande filme do personagem, e não apenas como uma peça de um universo compartilhado.
Quando repetir já não basta
Mais do que discutir a gramática interna do filme, o que realmente me interessa é a lógica que sustenta sua existência. A Disney parece cada vez mais empenhada em reproduzir aquilo que já deu certo, transformando suas próprias animações em cópias com atores reais. O problema não está no remake em si. O cinema sempre revisitou histórias. O problema é quando a nova versão não encontra uma razão artística para existir.
Em Moana, essa sensação é constante. A animação de 2016 continua recente. Não havia uma limitação técnica a ser superada, uma nova leitura do material ou mesmo uma distância temporal que justificasse esse retorno. O filme parece existir apenas porque o original já provou seu valor comercial. Essa lógica se reflete na própria construção da narrativa. Quase todas as cenas parecem menos interessadas em reinterpretar a história do que em reproduzir lembranças do espectador. Em vez de transformar a memória do original em ponto de partida para algo novo, o filme a utiliza como ponto de chegada. Essa dependência também afeta a dimensão visual. Curiosamente, embora seja vendido como live-action, o filme continua profundamente dependente da computação gráfica. Em diversos momentos, a impressão é de assistir novamente à animação, apenas recoberta por uma camada de realismo digital. A tecnologia não cria uma nova linguagem; apenas replica a anterior com outra textura. Em vez de justificar a mudança de formato, acaba tornando-a ainda mais questionável.
Nada disso impede que a história continue funcionando. O conflito entre pertencimento e chamado permanece forte, assim como a bela resolução que prefere compreender a dor da antagonista em vez de simplesmente destruí-la. São qualidades que sobreviveram porque já estavam presentes no material original. Mas justamente aí reside o maior problema do filme: suas melhores características pertencem à animação de 2016 e não à esta nova versão.
No fim, Moana confirma uma tendência cada vez mais evidente da Disney. Em vez de usar seus recursos para imaginar novas histórias, o estúdio parece cada vez mais confortável em reproduzir sucessos já consolidados. Quando um filme existe apenas para repetir outro, sua maior qualidade acaba sendo lembrar o espectador de que o original continua sendo a melhor opção.
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