Edição: domingo, 23 de agosto de 2026

Douglas Moutinho

COLUNISTA

Douglas Moutinho

A Morte de Robin Hood

Gnose, Memória e Verdade

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução


Michael Sarnoski, responsável pelo interessantíssimo Pig (2021), retorna com mais um projeto de destaque dentro de uma indústria saturada. Após ter demonstrado excelente domínio da linguagem cinematográfica em sua estreia, Sarnoski não decepciona ao estar à frente do roteiro e da direção de A Morte de Robin Hood, trazendo à tela a história do famoso personagem britânico.

O filme é claramente dividido em duas partes: a primeira é visceral. Sequências de perda, de dor, de violência visual e um caos que faz com que o espectador pareça estar vivendo dentro de um pesadelo, por vezes até lovecraftiano, ainda que dentro de uma lógica pautada pela verossimilhança realista. Sua estética nitidamente utiliza elementos de outras mídias contemporâneas como games , os movimentos de câmera são rápidos, e o enredo é um mero plano de fundo para a ação. Todavia, essa primeira parte não dura mais que um quarto do longa, que muda completamente a sua proposta. De certa forma, nesse primeiro momento, o herói está “morto” desde o princípio: sua lenda parece nunca ter existido ou ter sido, de fato, apenas uma lenda distante.

Em uma segunda parte, rompendo claramente com essa dinâmica, o filme abraça uma estética quase etérea, abandonando os elementos de sobrevivência bestial exteriores e atendo-se a uma lógica gnóstica. A indagação que remanesce na mais superficial camada narrativa questiona se a busca dessa última (micro)jornada do herói debruça-se sobre a salvação da alma, do corpo ou da memória. Pelo silêncio, pelos longos planos, pelas contemplações e pelas nuances raras em um cinema hollywoodiano cada vez mais voraz em expor a intimidade de suas musas, A Morte de Robin Hood opta por um cinema intimista que desperta o espírito e nos lembra da ideia nietzschiana de que as convenções, pela repetição e pelo esquecimento de sua origem, acabam por se tornar verdades verdades que são, em última instância, ilusões cujas origens foram esquecidas. Como é característico do pós-moderno, pelo bem ou pelo mal, tais “verdades” estão sendo debatidas. Seria possível, na hora derradeira do encontro com o daimon, encontrar catarse e ver graça no reinício?

O Fim da Rua

Nostalgia, Dinossauros e uma Fórmula Conhecida

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

David Robert Mitchell retorna à direção com O Fim da Rua, uma aventura familiar construída a partir de uma fórmula bastante conhecida pelo cinema dos anos 1980. A história acompanha uma família suburbana cuja vizinhança é inexplicavelmente transportada para uma época pré-histórica. A partir daí, os dinossauros tornam-se a principal ameaça, enquanto os conflitos domésticos são colocados à prova diante da necessidade de sobrevivência.

Mitchell assume sem disfarces a inspiração no cinema familiar oitentista. A fotografia, a trilha sonora e a construção dos personagens reforçam essa atmosfera, mas o filme pouco acrescenta ao modelo que recupera. Não há uma mitologia particularmente elaborada nem uma tentativa de reinventar a aventura familiar: a premissa absurda serve apenas para colocar personagens comuns diante de uma situação extraordinária.

Ainda assim, O Fim da Rua funciona dentro de seus limites. Os dinossauros proporcionam bons momentos de tensão e espetáculo, o elenco conduz competentemente os conflitos familiares e o ritmo, apesar de algumas oscilações, mantém a aventura suficientemente divertida. O resultado é uma produção despretensiosa, mais interessada em proporcionar entretenimento do que em surpreender.

Por isso, seu principal mérito está justamente em executar com eficiência uma fórmula já conhecida. O Fim da Rua não é inovador, tampouco particularmente ambicioso, mas é simpático, nostálgico e agradável. No fim, há apenas uma família, alguns problemas domésticos e dinossauros e isso pode ser suficiente para uma tarde de cinema.

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