Edição: sábado, 17 de outubro de 2026

Douglas Moutinho

COLUNISTA

Douglas Moutinho

Hope: o primeiro impacto

Gamificação sob gêneros

Foto: Reprodução
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Hope: O Primeiro Impacto constrói seu espetáculo pela transformação constante da experiência do espectador. Uma investigação aparentemente localizada ultrapassa os limites do policial, do suspense e do cinema de monstros. Na Hong-jin realiza um blockbuster multigênero em que cada mudança de registro altera a percepção do perigo: o desconhecido provoca apreensão, sua manifestação produz horror e a necessidade de enfrentá-lo abre caminho à ação. O humor atravessa essas passagens, tornando o desastre ainda mais imprevisível.

A gamificação é uma chave especialmente produtiva para compreender essa construção. Há uma lógica de progressão por desafios: explorar o cenário, identificar o inimigo, descobrir suas capacidades e testar recursos para sobreviver. Como num videogame, as regras são aprendidas durante o confronto, enquanto cada etapa amplia a dimensão do problema. Essa lógica também organiza o espaço. Ruas, construções e mata exigem comportamentos diferentes, enquanto a câmera e o desenho sonoro transformam a investigação numa experiência de descoberta e desorientação. Tiros, gritos e impactos anunciam ameaças que a imagem ainda não revela.

As lembranças de Um Lugar Silencioso, Alien e Predador surgem nesse trânsito entre modalidades de medo. A fragilidade humana diante de criaturas superiores remete ao primeiro; o horror de uma biologia desconhecida aproxima o filme do segundo; a mata e a instabilidade entre caçador e presa evocam o terceiro. Hope reorganiza esse repertório familiar, fazendo cada referência alimentar uma etapa diferente do espetáculo.

Embora dialogue diretamente com Hollywood, o filme preserva afinidades com o cinema oriental de monstros, especialmente a tradição japonesa de Godzilla. A criatura se torna um acontecimento coletivo que desorganiza o território e expõe a insuficiência das respostas humanas. A proximidade da fronteira entre as Coreias acrescenta uma tensão particular: uma comunidade habituada a imaginar de onde virá o inimigo precisa enfrentar algo que escapa às suas categorias.

Há irregularidades, sobretudo quando os efeitos digitais não sustentam a força da encenação. Ainda assim, Hope encontra sua personalidade no prazer de ampliar o confronto, modificar suas regras e conduzir o espectador a um território cada vez mais estranho. É um blockbuster cuja energia nasce da disposição de levar o excesso às últimas consequências.

Sacrifício

ainda é possível ouvir a Terra?

Foto: Reprodução
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Há uma conveniência em defender a preservação do mundo quando isso não exige modificar a própria maneira de habitá-lo. Em Sacrifício essa contradição ganha visibilidade em uma festa beneficente na qual celebridades e bilionários transformam a preocupação ambiental em oportunidade de autopromoção. Ben Bracken representa essa hipocrisia ao propor a exploração dos oceanos como solução para os danos causados à superfície terrestre.

Entre os convidados está Mike Tyler, um astro em declínio interpretado por Chris Evans. Sua trajetória como herói cinematográfico acrescenta ironia a um personagem cuja necessidade de reconhecimento transforma qualquer crise numa oportunidade de recuperar o protagonismo.

A invasão da festa por um grupo liderado por Joan rompe o equilíbrio satírico. Convictos de que uma oferenda humana a um vulcão poderá impedir uma catástrofe, os invasores introduzem uma relação com a natureza que escapa ao racionalismo dos anfitriões. A Terra deixa de ser um conjunto de recursos para se tornar uma presença diante da qual o ser humano deve reconhecer sua dependência.

É nessa passagem que Sacrifício assume seu risco mais interessante. A narrativa abandona a crítica social convencional e ingressa num universo em que ciência e crença disputam a explicação dos acontecimentos. O segundo ato inicialmente parece perder o rumo, mas sua progressão revela uma reflexão sobre os critérios que separam conhecimento e superstição.

Chamar de ecológica a relação proposta pelo grupo talvez seja insuficiente. Ecologia designa uma ciência, enquanto Joan e seus seguidores reivindicam uma experiência sensível e ritualística da relação entre o ser humano e a natureza. Surge então o paradoxo central: para salvar a Terra, recorrem a uma prática aparentemente contrária ao conhecimento científico.

O filme questiona, assim, uma civilização que acumulou meios de compreender o mundo sem demonstrar igual capacidade de preservá-lo. Bracken dispõe dos recursos científicos e econômicos, mas perpetua a exploração; Joan acredita ouvir a própria Terra, respondendo com uma convicção absoluta.

Sacrifício encontra sua força ao transformar uma sátira sobre milionários hipócritas numa reflexão sobre os limites do materialismo e da razão instrumental. Sua questão fundamental ultrapassa a preservação ambiental: trata-se de reconhecer na natureza algo que exceda nossa capacidade de explicá-la e administrá-la.

Depois de transformar a Terra em recurso, mercadoria e objeto de intervenção, ainda conseguimos ouvir sua voz? Ou o materialismo já nos ensurdeceu a ponto de só reconhecermos seu coração quando ele ameaça explodir?

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