COLUNISTA
O primeiro acerto de Street Fighter está na tranquilidade com que aceita ser Street Fighter. O filme preserva os cabelos, os figurinos extravagantes e a aparência improvável de seus personagens, abraçando os anos 1990 sem receio da cafonice. Enquanto tantas adaptações atualizam suas figuras até diluir aquilo que as distinguia, esta reconhece que parte do encanto está justamente no excesso.
Essa fidelidade revela uma compreensão do público ao qual o longa se dirige. Para os fãs antigos, aquelas aparências pertencem à experiência da franquia tanto quanto os golpes e as rivalidades. Preservá-las significa levar a sério uma memória visual, permitindo que ela determine a personalidade do filme. A nostalgia funciona porque encontra espaço para ocupar a tela: o universo tem cores, poses e uma disposição para o absurdo que dispensam justificativas realistas.
Como um dos precursores dos jogos de luta, SF não possui uma história, mas um pretexto para inserir aquelas personagens em uma arena. Dessa forma, qualquer enredo que o filme escolhesse para guiar as disputas estaria de bom tamanho. No entanto, ele as sugou. Um roteiro desinteressante acabou tomando espaço de eventos esperados como por exemplo um embate entre Vega e Guile, que nem chegou a ser mostrado. O enredo tem pouca força para justificar o espaço que conquista, sobretudo quando sua expansão implica retirar de cena aquilo que deveria constituir a principal atração. Há uma inversão de prioridades: a história encarregada de reunir os lutadores passa a impedir que os acompanhemos lutando.
As lutas efetivamente mostradas tampouco compensam essas ausências. Embora ofereçam momentos de diversão, nenhuma alcança uma dimensão grandiosa ou se impõe como a sequência que define o filme. Falta inspiração para aproveitar as possibilidades particulares de cada adversário. Um universo tão diverso permite explorar diferenças de tamanho, velocidade, alcance e relação com o espaço; cada combinação deveria produzir um desafio próprio.
Ainda assim, essas limitações não anulam o prazer da experiência. O longa encontra um equilíbrio agradável entre dramaticidade e comicidade, permitindo algum investimento afetivo sem tornar pesado um universo que depende de sua extravagância. A relação entre Ryu e Ken ajuda a dar unidade à aventura, enquanto o humor torna possível conviver com a natureza caricata dos personagens.
Street Fighter chega perto de oferecer a adaptação que sua concepção visual promete. Há uma base sólida para uma possível sequência, e seus problemas parecem corrigíveis sem exigir uma reinvenção. Bastaria confiar mais na capacidade dos próprios confrontos de conduzir a aventura e desenvolver os personagens. Sakurai encontrou o figurino, a atmosfera e o tom. Uma próxima entrada precisa encontrar as lutas que façam tudo isso permanecer na memória.
Para um ator, o rosto é simultaneamente parte de si e instrumento de trabalho. Suas expressões podem dar existência a outras pessoas, mas sua aparência também determina quais oportunidades lhe serão oferecidas. Cara-de-Barro encontra nessa condição uma entrada fértil para o horror. Quando Matt Hagen perde a fisionomia que sustentava sua carreira, descobre que o reconhecimento conquistado possuía uma condição bastante concreta. A indústria continua funcionando; ele é que deixou de servir.
Hagen procura um tratamento experimental depois de ser desfigurado por um criminoso. A intervenção da cientista Caitlyn Corr promete recuperar aquilo que a violência destruiu, mas transforma seu corpo em uma matéria instável. O procedimento amplia radicalmente sua capacidade de mudar de aparência. Para alguém que deseja voltar a ser quem era, poder assumir outros rostos constitui uma solução especialmente cruel.
É nessa contradição que o filme encontra seu centro. A metamorfose realiza uma fantasia própria da atuação: abandonar os limites da aparência para encarnar qualquer pessoa. Entretanto, Hagen recebe essa possibilidade quando sua relação consigo mesmo já está profundamente abalada. Cada nova forma amplia seus recursos e torna mais incerta a existência de uma identidade à qual regressar. O poder oferece liberdade ao mesmo tempo que compromete a noção de pertencimento ao próprio corpo. O horror corporal dá materialidade a essa experiência.
O filme avança com objetividade, fazendo cada tentativa de reparação desencadear outro problema. Essa progressão favorece a urgência de Hagen, mas comprime a oportunidade de conhecer a vida que ele deseja recuperar. Entendemos a gravidade de sua perda antes de experimentar plenamente o significado que aquela existência possuía para ele. Assim, a decadência por vezes alcança maior intensidade física do que emocional.
Watkins encontra recursos expressivos para conduzir o suspense. Nos espaços fechados, a visibilidade limitada obriga o olhar a procurar uma ameaça cuja forma deixou de ser confiável. A metamorfose altera também a relação do espectador com as presenças em cena: reconhecer uma pessoa já não garante saber quem está diante de nós. No ato final, essa incerteza dá às perseguições e aos confrontos uma dinâmica que vai além da resistência física dos envolvidos. A aparência passa a funcionar como armadilha.
Há, contudo, momentos em que a violência preparada pela encenação encontra uma resolução menos perturbadora do que poderia. O filme demonstra disposição para o grotesco, mas sua exploração do corpo instável poderia alcançar consequências mais duradouras.
Ainda assim, Cara-de-Barro constrói uma relação produtiva entre a condição profissional de Hagen e sua transformação. O homem valorizado pela aparência passa a dispor de inúmeras aparências, sem que isso lhe devolva o lugar perdido. O horror nasce dessa insuficiência. Recuperar uma imagem pode exigir um procedimento; recuperar uma vida envolve reconhecimento, memória e vínculos que nenhum rosto consegue garantir.
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