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sexta-feira, 29 de agosto de 2025


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Fernando Costa

COLUNISTA

Fernando Costa

Coração dói...

Éramos crianças em Hermogênio Silva e na localidade residia um velhinho de nome Faustino de  baixa estatura, barbas brancas e pele de ébano.

Fumava cachimbo e andava descalço. Seu calcanhar poderia matar uma cobra ante a calosidade.

Prestava pequenos serviços. Era bom e paciente.

Não se sabe como surgiu o hábito, mas, ao acenarmos, entoávamos: “coração dói”, ele respondia: “ah, dói...”

Nós em algazarra o víamos passar, íamos logo atrás dele proferindo: “Seu Faustino, “coração dói,” ele  replicava “ah dói”, novamente, “coração dói”,  “ah dói...”

E isso sem irritação ou mal-humor.

Gostávamos dele e dessas palavras.

Decorridos 76 anos me vem à memória a saudosa terra natal, missas, ladainhas, recitação do Terço e as Coroações de Nossa Senhora.

Rememoro o cair da tarde, as nuvens alaranjadas e as histórias narradas por mamãe, sentados na imensa pedra estofada que adornava o grande portão de minha casa, seguido ao pontilhão feito de braúna, madeira resistente às intempéries.

Mais adiante, existia a linha férrea e a rodovia.

Essa proximidade levou-me a ser atropelado aos 4 anos. Lembram-me tenha ocorrido por volta das 16h, numa quarta-feira. O dia e o mês não me disseram. Papai estacionou seu automóvel ao lado direito da rua e pediu à Marina, minha irmã, para buscar seus pertences.

Ela não percebeu, mas eu a segui e fui jogado metros à frente do atropelador. Ele estacionou pelo simples motivo de haver sido interceptado por meu tio Acácio administrador das Estâncias Duvivier. Fê-lo levar-me direto ao hospital, fato que causou grande consternação e rebuliço ao local.

Minha casa era antiga e bonita, estilo colonial, vidraças enormes e em seu interior existiam cercaduras azuis todas contornadas por andorinhas. Assim, vez por outra deixo a marca dos pássaros nos desenhos esboçados.

O casarão era adornado por mangueiras, coqueiros, ipês, mulungus, flamboyants e  dividiam o cenário com belas bromélias suspensas em suas frondosas hastes.

Vários artistas plásticos, entre eles o consagrado Samuel Salvado retrataram-na em ângulos diversos.

No escritório onde exerço as atividades profissionais há também, um óleo sobre tela retratando-a, esse, da lavra de meu confrade Walter Berner, laureado ourives das paletas e pincéis petropolitanos.

Eu gostava de plantar flores e regá-las, mais ainda, de ouvir pelo rádio “a escolinha do caçula”.

Ao lado, residiam vários parentes. Tia Sebastiana foi minha professora primária e a escola era num dos salões de sua casa.

Fui aluno também das mestras Geny e Alice Gac, Sylvia Siqueira e Philadelphia Reis.

Mesmo antes de ser matriculado na primeira série, hoje alfabetização eu havia aprendido as primeiras letras em casa.

Saudade do meio ambiente despoluído, vastidão dos campos, pomares repletos, frutos da época e do convívio nas fazendas.

Relembro os banhos-de-poço, de rio, água de mina bebida em folha de inhame, a canoinha morro abaixo, os mangais, o goiabal,  piques, esconde-esconde, o cheiro de café colhido e moído em casa, os capins-melados, a terra batida, os enormes silos, passeios a cavalo, de charrete,  jeep e a pé, as incursões pela mata, os feixes de lenha, a vida na vasta natureza e o caminhar descomprometido até Monte Alegre, para rever meus amigos Eudóxia e Teixeira, seus filhos Rose Heleni, Terezinha e irmãos, e ainda Dona Ginica nossa mãe de leite, Dona Geralda, Senhor Antônio Neves, Luci, Vera, Fátima, Marinete, Maria da Piedade e demais irmãos.

E nestas lembranças um pedaço de meu coração deixou gravado Dona Anna Nabaldian Phenninger, os Padres Geraldo João Lima, Ferdinando Osimani, Sebastião, Freis Jorge e Estevão, tios Titita, Aparecido e filhos, com os quais aprendi muita história.

Impossível não mencionar Célio Barbosa, eterna dedicação, bem antes do vestibular.

Peço-lhes licença para uma reverência especial a minha doce mãe Eliza, ao longo de seus 83 anos e onze meses de vida, neles inclusos 58 anos e quatro meses deles, sem contar os nove meses que habitei o sacrário de seu ventre, tive a primazia de privar de seu convívio e de seu amor, ela sim, uma heroína, santa e amiga. Silenciosa, conselheira  severa se necessário, contudo, um anjo. Seu porto seguro, pálio e arrimo foi Maria Santíssima e essa luz ainda hoje permanece viva.

Não havia hierarquia entre seus 12 filhos, netos, bisnetos e trinetos.

À mamãe, eram interligados em primeiras núpcias Mário Duarte Louzada e depois do falecimento dele, decorreram-se alguns anos, conheceu o papai Waldemiro Rodrigues da Costa.

Em 2025, Mamãe estaria completando 102 anos de nascimento e uma lágrima cai.

Ao abrir os faustos de minha história, compreendo e rendo este panegírico ao velhinho Senhor Faustino.

Passava pela criançada, com docilidade, clemência e suavidade, respondia-nos, ainda que fôssemos atrás dele por longa distância e repetidas vezes e o perguntássemos “Seu Faustino, “coração dói”, ele respondia: “ah, dói meus filhos, ah dói”...

E como dói Seu Faustino, o coração dói de saudades dos afagos, das lições de vida,  exemplos, sofrimento, renúncia, beleza e pureza, chineladas, o abraço apertado, olhar terno de mamãe e dos amigos que descansam em meu calejado peito.

Por isso, escancaro meu coração, convidando-lhes a revisitá-lo, mas, por favor, pisem devagar, cuidado com as feridas que por certo irão encontrar.

Há pontos  corroídos e doem muito. Partilho no mesmo diapasão este preito de gratidão com meus irmãos. Por isso, divido aos vossos, meu coração, mas que dói, dói.

Repleto em razão esteve o filósofo popular o Senhor Faustino  quando sabiamente nos ensinou um dia o “coração dói, ah dói...”

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