COLUNISTA
Conheci Thiago Veir por ocasião da restauração de uma imagem do Menino Jesus de Praga, ícone sagrado que integra meu acervo. Aos poucos, percebi tratar-se de um homem de cultura multifacetada. Depois, passei a privar de sua convivência como advogado e, mais recentemente, ingressei em seu universo literário, onde o escritor estreia em grande estilo. Não obstante seu notável saber, é dotado de rara sensibilidade, virtude que alcança quem tem o privilégio de relacionar-se com ele.
Filho de uma professora da rede municipal de Petrópolis, Regina Maria Pinto da Silva e de um marceneiro habilidoso, Thiago nasceu e foi criado em um lar de grande riqueza cultural e pluralidade religiosa. Seu avô materno, Corintho, foi pastor conhecido na cidade, enquanto sua avó paterna, Elza, dedicou-se às religiões de matriz africana, exercendo o sacerdócio com reconhecimento local. Sua bisavó materna, descendente de judeus da família Bloom e convertida ao cristianismo, e a avó paterna, também de ascendência judaica, contribuíram para um ambiente familiar plural e aberto ao diálogo.
Nesse contexto, Thiago recebeu uma formação cristã sem imposições, aprendendo desde cedo que a fé é um caminho livre e pessoal. Cresceu, assim, em um ambiente plural às vezes tenso, mas profundamente enriquecedor. Além de escritor, é artista plástico e restaurador de obras sacras, com exposições locais que conquistaram público e crítica.
Formado em Direito pela Universidade Católica de Petrópolis em 2013, colou grau no ano seguinte e, após aprovação na Ordem, concluiu duas pós-graduações: em Direito Processual Civil (2017) e em Direito Previdenciário (2022). Apesar da sólida formação jurídica, suas paixões mais antigas continuam sendo a História e a Teologia. Antes de dedicar-se à advocacia, cursou um período de História na mesma universidade experiência que o marcou profundamente.
Sua obra Et Unam, Sanctam, Catholicam et Apostolicam Ecclesiam (Apesar de Tudo): Uma viagem pela História do Cristianismo Antigo ao Medieval, é fruto de inquietações amadurecidas por vivências pessoais e questionamentos espirituais. O projeto nasceu de anotações dispersas e reflexões acumuladas ao longo dos anos, até ganhar corpo entre 2022 e 2025. Segundo o autor, uma frase ouvida em uma igreja, com a qual não concordou, despertou o impulso decisivo que o levou a transformar antigas notas em um estudo estruturado sobre a história e a teologia cristãs.
Thiago conta, com naturalidade, que dirigia muitas de suas indagações às duas teólogas de sua família em especial uma delas, Jacqueline Pinto da Silva Avancini. A presença dessas figuras intelectuais contribuiu para o amadurecimento de uma obra que une fé, erudição e olhar crítico.
O livro, que ultrapassou mil páginas e precisou ser dividido em dois Tomos, percorre os grandes marcos do cristianismo: das perseguições e concílios ao surgimento da Cristandade medieval. Com base em fontes patrísticas, como Irineu de Lião, Tertuliano e Inácio de Antioquia, Thiago demonstra que a fé dos primeiros séculos foi construída com esforço e unidade, e que o cânon bíblico emergiu da própria comunidade cristã, muito antes de Constantino.
A obra não se limita à história; é também uma meditação teológica. Thiago sustenta que a Igreja Cristã manteve sua continuidade através dos séculos e que a conversão de Constantino representou uma bênção, não uma corrupção. O autor evita o sectarismo: coloca lado a lado as diversas tradições católica, ortodoxa e protestante e, quando diverge, o faz com lucidez e elegância. Seu objetivo não é dividir, mas construir pontes.
Entre as teses mais ousadas, defende que “Cristo tem um só corpo” e que o céu não possui placas confessionais. Com ironia e leveza, escreve: “Se no Céu não há divisões, por que nos prendemos a elas na Terra?” O humor fino e a crítica sutil percorrem a narrativa, que alterna erudição, fé e humanidade.
Inspirado no Credo Constantinopolitano, o título da obra simboliza unidade, santificação e universalidade. “Apesar de tudo” explica o autor , a Igreja se manteve fiel à promessa de Cristo: as portas do inferno não prevaleceram. Thiago compara a Igreja à barca de Pedro, não à de Teseu, pois esta troca peças e perde a identidade, enquanto aquela resiste aos séculos sem perder a essência.
Et Unam, Sanctam, Catholicam et Apostolicam Ecclesiam já alcançou leitores em Portugal, Espanha, Austrália e Estados Unidos, sinal de que a busca pela verdade e pela fé ultrapassa fronteiras. Em suas páginas, ecoam vozes de mestres como Marc Bloch, Régine Pernoud, Jacques Le Goff, Brian Davies, Peter Brown, Santo Agostinho e São João Crisóstomo companheiros intelectuais que moldaram sua visão sobre a continuidade do cristianismo.
Em síntese, o trabalho de Thiago Veir revela uma convicção: a história da Igreja não é uma sucessão de rupturas, mas de esperança. Fé e razão, longe de serem inimigas, convivem na mesma travessia. Com linguagem refinada e espírito conciliador, o autor propõe que o cristianismo não é um vestígio do passado, mas uma realidade viva um vitral que continua a brilhar, apesar de tudo.
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