COLUNISTA
Fernando Costa
A lei dez mil, setecentos e quarenta e um de primeiro de outubro de dois mil e três e acréscimos posteriores facultam direitos de preeminência aos da terceira idade, com sessenta anos ou mais, que vão desde a tramitação processual, estacionamento, descontos em vários setores e etc.
Uma das atualizações e interpretações legais passaram a “assegurar uma prioridade especialíssima aos maiores de 80 anos cujas necessidades devem ser atendidas preferencialmente em relação aos veteranos.”
Houve um “reforço quanto às medidas de proteção e não deveria recair somente ao Estado, mas também, sobre a família e a sociedade.”
Faz jus, inclusive, à perícia médica e atendimento domiciliar, à acompanhante, etc.
Conquistou prioridade aos processos e a eles “devem ser assegurados todos os meios, oportunidades e facilidades para a preservação de sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social em condições de liberdade e dignidade.”
O ordenamento jurídico lhes garante a educação, cultura, esporte e lazer, habitação, transporte e os benefícios regulados pela Previdência Social além da Assistência àquele que aos sessenta e cinco anos não possua meios à sobrevivência capazes de prover a sua subsistência lhe será firmado um salário mínimo nacional desde que sua parentela não aufira rendimentos nos termos do artigo trinta e quatro do citado Diploma Legal em consonância com a LOAS.
Urge a criação de mecanismo que torne mais fácil a vida desses heróis que tanto fizeram pela prole, nação e muitas das vezes na prática têm tais prerrogativas violadas ou sonegadas.
Pela ótica do âmbito familiar se não ocorre a infração aos quesitos preliminarmente arguidos muitos são tomados de silêncio e solidão.
Infelizmente rima com depressão. Ela se difere de uma queda, fratura ou de uma gripe.
É uma enfermidade da era atual.
Não obstante o avanço dos meios de comunicação não consegue impedir essa terrível solitude que assola milhares de almas e tomam conta do globo terrestre.
Incrível, mas, ela vem se alastrando entre os jovens e as crianças.
Doença do século, no entanto, os anciãos são os que mais sofrem por causa do exílio.
Lembro-me do Senhor Calixto Barbosa, pai de Célio e meu pai na consideração. Ele a driblou ao longo dos noventa e quatro anos bem vividos.
Dizia-nos, “sempre há pessoas que pensam, confinar o longevo num quartinho, nos fundos da casa é melhor para ele.”
“Que o vetusto não gosta do burburinho e do barulho das músicas e do entra e sai.”
Pensava o Senhor Calixto, “isso não é verdade; gosta de compartilhar, de participar das festas, de estar presente.”
As pessoas nem perguntam as preferências dos velhinhos e lavram a sentença do retiro a eles como se estivessem mortos para a vida.
É um absurdo. Eles não podem e nem devem ficar excluídos e condenados a isolamento, ao escárnio do descaso e da falta de amor.
Claro que se tal ocorrer o distúrbio aflorará com facilidade.
Tudo isso decorrente da carência de convívio com os seus e com os outros. Um banho de sol pela manhã não custa nada e é fonte rica de vitamina D nos ensinam as enciclopédias, os médicos e os meios de comunicação.
A hidratação, água fresca e higiene fazem muito bem, no entanto, há velhinhos cheios de escaras e sonhando por um banho e muita das vezes os parentes ou responsáveis não se lembram disso.
Faleceu recentemente uma amiga que lecionou em colégios da cidade e até atuou em programas de rádio local, viajou diversas vezes à Europa chefiando banquetes e foi, salvo engano, a primeira banqueteira de Petrópolis.
Seus relatos davam conta de importantes nomes da sociedade local tendo comandado as festas dos avós, depois dos filhos e dos netos.
Possuiu alguns restaurantes. Criou uma filha e quatro netos. Enfrentou dificuldades, mas, nunca lhe faltou um sorriso nos lábios.
Nos últimos anos foi acometida de grave enfermidade oftalmológica que a afastou das lides profissionais e domésticas, foi submetida a duas delicadas cirurgias sem sucesso.
Nesse interregno lhe surgiu um câncer e dessa data em diante surgiram metástases e o sofrimento foi intenso.
E ela conservou até exalar o último suspiro o mesmo sorriso nos lábios, os das épocas das escolas de samba e dos folguedos de momo.
Durante as vezes que a visitávamos ela me dizia: “ah como sinto vontade de um telefonema, ouvir a voz dos amigos de antes, das pessoas que rodeavam e não as vejo.”
Eu disse isso, no sentido de conclamar as pessoas ao carinho, a uma palavra amiga, de solidariedade e de amor.
Esse é um dos pontos em que admiro meu cunhado Sérgio Luiz de Oliveira: o amparo aos veteranos e carentes de um modo geral.
Sei que a missão evangelizadora deve ser cumprida de acordo com o temperamento e possibilidades.
É um dom sair à noite e madrugadas levando um agasalho, sopa e um café ao desvalido que possui a marquise como teto.
É sublime.
Ele lembra o Pe. Quinha.
Aos domingos Sérgio junto à esposa e amigos cumprem a missão semanal em visita a hospitais.
Proporcionam alegria a tantos através de biscoitos, frutas, fraldas, sabonetes, dentifrício e principalmente uma palavra de estímulo e conforto.
A santidade está na simplicidade encarnada nesses espíritos de luz.
Neles tenho a visão de Jesus, nascido de Maria, por obra e graça do Espírito Santo, tendo recebido os cuidados nutrícios e paternais de José, da linhagem real do Rei Davi e do tronco de Jessé.
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