COLUNISTA
Ao rememorar o dia 17 de julho de 2008 fico a refletir.
Por mais tente, não me acostumo com ela: a morte.
O desembargador João Francisco expirou.
Fez-se silêncio. Pairou no ar enorme tristeza e as lágrimas teimavam em rolar pela face esmaecida.
Ainda que recorramos à formação religiosa, nossa fragilidade humana não esconde a dor ante o coração vazado pela lança da saudade.
Nós nos visitávamos com frequência.
Falávamos ao telefone diariamente, nutrido pelo entusiasmo, sapiência e amor do pai na benquerença, privilégio esse não somente meu, mas de outros tantos pupilos e admiradores do insigne brasileiro, notável chefe de família, professor, pensador, escritor, humanista e speculum iustitiae.
Cessou tudo!
A cidade parou naquele dia! Atônita precisou recobrar seus ânimos e equilíbrio.
Parecia não querer aceitar a realidade, porém, consummatum est, o confrade João Francisco faleceu!
Veio-me à memória a imagem do advogado brilhante, o magistrado que honrou a toga, teses e obras publicadas, o magistério, a senda de realizações como contador, vereador, deputado estadual, juiz titular do II Tribunal de Alçada, do qual foi vice-presidente e Presidente da 1.ª Câmara Cível, tendo em seguida galgado o honroso múnus de desembargador do TJ e seu 1.º vice-presidente.
São inúmeras as lembranças. No entanto, a mais significativa era o seu coração de anjo a iluminar a todos que o rodeávamos.
Faço um retrospecto e revivo a época da criação e fundação da Academia Petropolitana de Letras Jurídicas, em 8 de dezembro de 1995, portanto, a celebrar 30 anos de sua fundação.
Ele, junto aos desembargadores Luiz Felipe - seu filho, Gama Malcher, Antônio Izaias e Miguel Pachá, o Procurador de Justiça Sérgio Carvalho, o professor Paulo Machado da Costa e Silva e, os advogados Luiz Gutierrez e Herbert Cohn, presidente da O.A.B., ajudaram-me a trazê-la à luz, concretizando assim meu sonho, hoje realidade. Recordo-me de seus três mandatos frente à tradicional instituição cultural.
Semanalmente nos reuníamos para falarmos de nossos projetos e realizações em prol da cultura jurídica.
Saudades de nossos encontros dominicais, à missa das 11h30min, em nossa gótica e centenária Catedral São Pedro de Alcântara.
O desembargador João Francisco não poupava elogios e estímulo a este operário da Justiça, nunca lhe faltando uma palavra de carinho e coragem.
Ele era o mais antigo membro da Academia Petropolitana de Letras em exercício, gloriosa instituição que, em 3 de agosto de 2025, completou 103 anos de profícua existência e ele, 101 primaveras.
Entre as inúmeras arcádias ornadas com seu brilho, destacavam-se, também, o Instituto Histórico de Petrópolis, O.A.B. e Academia de Educação.
Era renomado experto das línguas portuguesa e espanhola, além de outras virtudes.
Modelar esposo e pai. Aprendemos que morte só existe para aquilo que não é eterno e que “ninguém morre enquanto permanece vivo no coração da gente”.
Quem crê em Jesus Cristo, a morte é o começo da felicidade eterna.
É a libertação das amarras e grilhões terrenos. Não é o fim, mas sim, o começo. É para todos, faz parte da vida.
Reproduzo a homenagem prestada por seu filho amado e nosso amigo querido desembargador Luiz Felipe Francisco, escrita em 28-09-2024, através do texto a seguir:
“Se vivo hoje, meu pai João Francisco, estaria completando, nesta data, 100 anos de idade.
Não mais entre nós fisicamente, suas orientações, seus conselhos, seus cuidados e seus exemplos continuam a se irradiar entre nós da família, entre amigos, alunos, colegas e pessoas que com ele conviveram no jornalismo, na cátedra, na política e na magistratura, ainda que num único momento.
Posso afirmar que dele me recordo todos os dias, não só porque deu à minha vida um colorido todo especial, desde minha infância, como porque foi meu maior exemplo de vida moral e profissional, na adolescência e na vida adulta, afora.
Por isso, hoje, rendo a ele todas as minhas homenagens e deixo aqui registrado todo o orgulho de tê-lo tido como meu pai, rogando aos céus que, do lugar especial onde certamente há de estar, continue a abençoar toda a sua descendência, que dele recolheu sempre ensinamentos, amor e carinho.
Meu adorado pai, te amarei eternamente!!!”
Desejo, neste momento, me unir em preces e louvores seus entes queridos e de tantos quantos o amam, e o amarão sempre, porque continuaremos a ser-lhe fiéis descansando na certeza de que o Filho Redentor nos prometeu que “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que houver morrido viverá” (Jo. 11,25).
Neste epílogo, reporto-me a Antoine de Saint Exupèry quando disse: “É o amor, e não o tempo, que cura todas as feridas, aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”
Estou convicto de que a Mãe Maria Santíssima o manterá em seus braços sob a proteção de Deus, Supremo Juiz que o acolheu na mansão celeste.
Veja também: