Edição: sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Fernando Costa

COLUNISTA

Fernando Costa

Hermogênio Silva

Em diversas oportunidades, ao conversarmos eu e a afilhada escritora e historiadora  Cinara Jorge repetimos: “saimos de Três Rios, mas Três Rios não sai da gente.”

Conheci a luz em seu esplendor no dia 2 de julho de 1949,  ensolarada manhã em Hermogênio Silva, sub-sede do primeiro e único distrito de Bemposta.

A algazarra de meus irmãos em laúza e matinada à época enriquecem a imaginação como se um coro de anjos desse as boas vindas ao menino recém-nascido.

Edificado em raízes fortemente fervorosas se devem à minha mãe Eliza a inquebrantável devoção à Maria Mãe de Deus e nossa, mais tarde sedimentadas pelas professoras, sacerdotes, pessoas dignas, para mim, enciclopédias guardados no escrínio de meu coração roceiro.

Por isso, não me esqueço das tardes quando nos assentávamos sob o pórtico construído com madeira de lei e ali naquelas pedras almofadadas ela nos contava histórias de cunho religioso, pedagógico e do cotidiano.

Ao lado de nossa casa havia o estabelecimento de ensino, onde cursei o primário.

Chamava-se “Escola Estadual Dr. Eduardo Duvivier.”

Em outubro de 2010, a Academia Petropolitana de Poesia Raul de Leoni, hoje Brasileira de Poesia, na gestão do acadêmico Sylvio Adalberto, realizou a festa em homenagem aos mestres.

Fui honrado com as presenças de minhas mestras primárias Sebastiana do Carmo e Souza e Alice Maria Gac Coelho.

Seguindo esse fio condutor acrescento que ao ingressar no colégio eu já sabia ler e escrever.

Filho de numerosa família, somamos ao todo em doze e àquela altura já havia 5 deles à minha frente, portanto, o sexto, era comum assistir minhas irmãs às voltas com os exercícios, apontamentos e tudo aquilo me fascinava.

Graças a Deus minha infância e adolescência foram vividas literalmente no templo.

Essa formação fundamentou minha vida.

Era diário meu convívio à catequese e às Sagradas Escrituras.

A atenção se voltava em especial às Parábolas.

Jesus Cristo ensinava através delas. Nesse diapasão, creio que a arte sacra serviu de supedâneo às preces, culto ao belo e ao religare celestial.

No âmbito residencial uma de minhas tarefas preferidas era regar o jardim frontal de nossa casa e dali eu podia ouvir a Rádio Globo principalmente às dezessete horas que levava ao ar a “Escolinha do Caçula”, porém, Marly gostava de programas musicais, também, das Rádios Três Rios e Tupy.

Nem sempre a mim era legado esse privilégio. Obedecia-se aos superiores.

Eles me precederam e contribuíram em muito para a nossa educação.

Silenciosos e orantes bastava um olhar para dizer que aprovava ou reprovava nossas atitudes e peraltices.

A produção visual da vivenda era da matriarca, cujo talento à costura me faz lembrar as cortinas floridas de gorgorão, chitão ou “voile” e que adornavam os janelões coloniais.

A seguir, Eremita e Marina e depois, à Marly que a exercia com a severidade estoica dos antigos espartanos.

Adolescente, eu via beleza num galho e folha seca, tronco de árvore, pilão, vasos antigos, gramofone, cortador de capim e tantos mais...

Nesse pormenor a mana era conservadora e não permitia inovações...

A criança curiosa perguntava a um, a outro o que era isso, e aquilo e um dos questionamentos era o porquê de meu distrito, antes “Campo da Grama” e depois, “Hermogênio Silva?”

Surgiu ali a ideia de escrever uma carta ao programa da Escolinha do Caçula, da Rádio Globo; certamente elucidaria minha dúvida em se considerando a ausência de biblioteca local e o fato de o menino não possuir tirocínio às pesquisas, haja vista sua tenra idade.

Lápis e papel em mãos uma missiva foi escrita ao “Professor Sabe Tudo” interpretado por Moysés Veltman, com quem por várias vezes já havia me comunicado pedindo músicas a exemplo de “Jesus Alegria dos Homens” executada pela Banda do Corpo de Bombeiros da cidade do Rio de Janeiro, “Cidade Maravilhosa”, “Valsa de uma Cidade”, entre outras.

Corri até à Dna. Hilda Teixeira Pinto, a chefe postal do correio local, enviei a cartinha e fiquei a aguardar.

O tempo transcorreu e quando menos esperei, num raro dia em que ouvi a rádio, meu nome foi mencionado e o professor entrou no ar ao me dizer: “querido Fernando Antônio, você reside num local cujo nome era o de um ilustre brasileiro".

Hermogênio Pereira da Silva, mais conhecido como Hermogênio Silva, nasceu em  São Gonçalo aos  7 de janeiro de 1848 e faleceu em Petrópolis em  5 de maio de 1915.

Era médico, político e jornalista.

Foi senador eleito pelo Rio de Janeiro na legislatura 1909, mas não chegou a ocupar o cargo.

Também foi deputado estadual para a legislatura iniciada em 1892 e terceiro vice-presidente do estado do Rio de Janeiro entre 1895 a 1897.

Ocupou o executivo municipal de Petrópolis (RJ) nos períodos de 1889-1890, 1891-1894, 1896-1897, 1901-1904 e 1908-1910.”

Claro, mais tarde, compulsei os alfarrábios da Biblioteca Municipal e jornais ali arquivados, inclusive, ao conversar com minha conterrânea e afilhada Cinara  confreira do I.H.P. e da A.P.L. enveredamos pelo tema e explanações outras foram rememoradas “exempli gratia” de que ao criar as estações da Leopoldina, nomes insígnes a elas foram dadas.

Assim, conheci o patrono de minha terra, homem de prestígio, ornado em cultura, virtudes  e realizações, inclusive vários de seus descendentes, residente na Imperial Cidade de Pedro possuem seus nomes em edifícios, ruas e hermas espalhados em praças locais.

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