COLUNISTA
Silêncio. Os poetas, os jornalistas, os comerciários, os comerciantes, os artistas e, por extensão o povo petropolitano faz silêncio. E parafraseia Luiz Vaz de Camões quando disse: “Cessa tudo que a antiga musa canta”.
Esse gesto é para honrar a memória da extraordinária mulher Alice Carvalho de Souza Vieira. E nos unimos aos parentes, amigos e familiares na pessoa de Maria Alice e Familiares, Maria Ângela, Álvaro e Regina, às famílias Vieira e Carvalho em preces e pranteada saudade de tão doce criatura que no dia dois de janeiro último retornou ao regaço celestial.
A legião de anjos se engalanou, Maria Santíssima a levou pelas mãos no paraíso onde a festa é infinita.
E por falar na doce Mãe de meu Senhor e nossa, desejo hoje, mais que nunca, prestar os sinceros encômios a esta notável mulher, símbolo de amor, na candura e na fidelidade: Alice Carvalho de Souza Vieira! Quem com ela conviveu guarda na alma seu heterônimo, a “Dona Alice do SESC”!
Ela, ao trabalho chegava antes do sol despontar e poucas vezes o viu declinar, era devotada servidora e assim permaneceu até o dia de sua merecida aposentadoria. Dona Alice elegeu-me como se filho fosse e disso não abro mãos.
Durante nosso convívio, falava-me da alegria sentida nos raros momentos de caminhada, deixando que o vento brincasse com seus cabelos e em pura contemplação às flores e o trinar das andorinhas, tendo sob os pés grãos de areia à margem do regato, que, ainda hoje, reflete sua imagem. Não lhe eram suficientes às 24 horas do dia... Precisava realizar e ser, em plena devoção, ao próximo. Multiplicava - se também na dona de casa.
O tempo era escasso ao cuidado da família, mas, o fazia com maestria, sem deixar, no entanto, a missão de dirigente de tão importante instituição. Era mulher idealista!
Cuidava da administração e não descuidava de ir à sala de aulas, à recreação e às demais dependências. Ali, extasiava-se ante o sorriso das crianças ou, da janela, vislumbrava os belos e bem cuidados jardins... O SESC foi para a Dona Alice símbolo de vida, doação, integração...
Admitida na Organização em 06/01/1955, época em que eram acanhadas as instalações da antiga Av.15 de Novembro. Lutou sem cessar, até conseguir o suntuoso prédio da Rua Alfredo Pachá.
Não só era, como é, até hoje aconchegante. Suas dependências passaram a oferecer maior conforto aos trabalhadores no comércio e aos consanguíneos, aos empresários comerciais e a todos nós companheiros afetivos e efetivos da casa não somente social, mas cultural.
Dona Alice, no seu tempo, fez do SESC uma das mais atuantes unidades operacionais que o Serviço Social do Comércio imprimiu e até hoje mantém no Estado do Rio de Janeiro.
São inúmeros os títulos e lauréis conquistados ao longo de sua trajetória. Um deles, o de “Mãe dos Comerciários de 1971”, além de, destaque da festa “Personalidades Petropolitanas de 1974,” do então cronista Padre JAC.
Foi pioneira no fornecimento de merenda aos funcionários empresariais e sua simpatia, inteligência, espírito criativo, a fez amada da comunidade da Imperial Cidade e alhures. Em sua gestão, o SESC foi modelar, pois, coordenou com proficiência e invulgar sabedoria o “Centro de Atividades João Daudt Oliveira, justamente em honra a esse ilustre fundador dos SESC e também do SENAC, imortalizando-o pela classe para a qual ele tanto pelejou.
Alice foi elegante no trajar e no conviver com os funcionários, constituindo-se pedagoga exímia. Casada com o Seu Juquinha, a quem ousávamos chamar de “Tio”. Foi mãe exemplar que se orgulhava dos filhos, genros, nora, netos e parentes... Não é a primeira vez que externo em alto e bom som.
Graças à Senhora, muitos menestréis consagraram-se e tomou assento em diversas cátedras literárias locais e internacionais, outros desfrutam do escrínio da literatura, tudo isso porque em fins dos anos sessenta e durante todo o decorrer dos anos setenta, sua visão, talento, acuidade e percuciência souberam vislumbrar o quilate de nossos vates organizando saraus, tertúlias, jogos florais, cursos e concursos literários projetando e preservando valores que alçaram voos ao mundo das letras e das artes.
Por Vossa especial mercê e generosidade, diversas vezes, me fez coordenar e apresentar tais certames viu em mim valores que eu desconhecia, incentivo esse que serviu de pilar a continuar nas sendas intelectuais já brotadas no íntimo do jovem de ontem.
As vitoriosas e prestigiadas exposições de artes plásticas que realizei e minha primeira noite de autógrafos do livro Silepses, foram no SESC! E elas mereceram o prestígio da alta roda local, circunstante, intelectual e veiculação por toda a imprensa, inclusive nacional, sem contar em TVs, tais como no Programa Edna Savaget - TV Tupy, Bandeirantes, TV. Globinho e etc. Dona Alice, guardo-a no coração e em minhas orações.
Os bardos e profissionais da arte em seus múltiplos matizes em geral, muito lhe devem pela semente plantada, pois só quem possui a candura de um querubim, a beleza da rosa e a singeleza dos amores-perfeitos faz da vida um eterno serviço, pois conjuga sem cessar o verbo amar.
A saudade que cristalizara ante a lembrança do filho que os céus arrebataram precocemente e de outros entes tão amados, agora estão superadas ante o reencontro na eternidade. As perdas não esmaeceram o sorriso da virtuosa Criatura neste apostolado terreno. Vele por nós e pela paz no mundo. Cum Christo in pace Dona Alice.
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