COLUNISTA
Ainda que a internet tome conta do mundo, os livros impressos continuam a fazer parte de nossa vida. O contato, a sonoridade do folhear, o cheiro do papel integram o texto e nos acompanham na viagem por vezes bela em forma de prosa, conto ou poesia e de quando em vez saudosa e sofrida que, no entanto, fazem parte da vida.
Os compêndios, revistas e apontamentos se dividem em todos os pontos, onde temos pouso e nesse pormenor parece que herdei de Rachel de Queiroz o hábito de deixar nas proximidades do leito as obras que estou a ler no momento e pelo menos um caderno onde tento exprimir meu pensamento quando a onda vibratória me permite captá-la e trazê-la ao papiro.
Estava eu a manusear as obras da biblioteca de casa e deparei com os melhores poemas de Dante Milano, em primorosa seleção de Ivan Junqueira, editado pela Global Editora.
Mais comovido ainda foi lembrar a imagem do amigo. Esse exemplar me foi dedicado por sua filha Ana Maria em visita ao nosso escritório.
A generosidade é tanta que em suas palavras quis me comparar ao quilate poético do amado pai e assim disse: “Em nome de meu pai, ilustre poeta Dante, ofereço com eterna amizade ao também ilustre poeta Fernando Costa”.
Consciente do valor do insigne poeta e da grandeza do coração de Ana Maria, mais uma vez calou-me a alegria de reviver Dante que não é o autor da Divina Comédia, mas, é o autor de divinas poesias a exemplo de “Pietá”: “Essa mulher causa piedade/ Com o filho morto no regaço/Como se ainda o embalasse.../Apertando-o contra o ventre/Com dor maior que a dor do parto/Mãe, de Dor te vejo grávida/Oh mãe do filho morto!” Sérgio Buarque de Holanda disse que o pensamento de Dante Milano é de fato sua forma e Ivan Junqueira afirmou que Dante é a maior “vocação póstuma” da literatura brasileira. Isso porque Dante Milano em vida nunca pretendeu publicar sua ode. Quisera pinçar nestas pálidas considerações as inúmeras joias literárias desse poeta a exemplo de “Viver é um ir-se embora/Da vida, hora após hora...” ou quando fala da morte: “Quem sonha se transfigura/Quem morre sorri da morte.”
O bardo nasceu em 16 de junho de 1899, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, bairro que teve o privilégio de abrigar o Imperador Dom Pedro II. Era filho de Nicolino Milano e da Senhora Corina Milano.
Ambos os pais eram músicos, ele violinista e ela extraordinária pianista o que possibilitava ao casal a realização de inúmeros concertos e inclusive viagens e residência na Europa.
Dante foi aluno de escola pública em seu bairro e em Lins de Vasconcelos. O avô de Dante era dono de uma loja de colchões e era o fornecedor do Imperador. Circunstâncias diversas impediram que Dante cursasse o ginásio, por isso, ele se tornou autodidata. Aprendeu inglês, francês e italiano sozinho. Bem jovem foi trabalhar no Jornal da Manhã onde exercia a função de ajudante de revisor e, em seguida, trabalhou no Jornal do Comércio. Tinha 14 anos.
Aos 17 anos passou por outros empregos também na redação de jornal o que lhe possibilitou a convivência com a poesia de Camões, Horácio, Virgílio, Dante Alighieri, Petrarca, Baudelaire, Mallarmé e etc. Uma de suas grandes amizades foi a do Ministro do Supremo Tribunal Federal Álvaro Ribeiro da Costa. A partir daí passou a trabalhar no Setor de Recenseamento do Estado, época em que conheceu Olegário Mariano, outro grande amigo.
Era casado com a Senhora Alda Milano. O casal trouxe à luz duas filhas. Outro amigo era Aníbal Machado e nas searas literárias se tornaram seus amigos Manuel Bandeira, Jaime Ovalle, Murilo Mendes, Cândido Portinari, Emiliano di Cavalcanti, Heitor Villa-Lobos, Mário de Andrade, Ribeiro Couto, dentre outros. Esses nomes compunham o movimento modernista de 1922, no entanto, Dante os acompanhou à distância. Em 1935 publicou seu primeiro livro,: “Antologia dos Poetas Modernos”, pela Ariel.
Próximo aos 50 anos publicou “Poesias”. Seus poemas até então publicados em “Autores e Livros” e “Boletim de Ariel” em "Poesias" recebeu a consagração merecida o “Prêmio Felipe de Oliveira” de 1948 com reedição em 1958, pela Livraria Agir Editora e em terceira edição pela Editora Sabiá, em 1971.
Petrópolis o abrigou em seus braços por longos anos onde aqui residiu com sua família até a sua dormição em 15 de abril de 1991, às vésperas de completar 92 anos de idade e foi sepultado na cidade do Rio de Janeiro, no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju.
Dante Milano se mantém vivo em nossas memórias e nos escrínios das belas letras. Descanse em paz a desfrutar entre os eleitos do Criador protegido sob o manto da Rainha Assunta aos Céus.
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