COLUNISTA
Fernando Costa
Célio Salim Thomaz foi um tradicional jornalista, colunista social, célebre por assinar coluna de grande circulação regional e registrar a vida política, cultural da região serrana e dedicado rotariano de Petrópolis.
O mestre da alta sociedade montesina Célio Salim Thomaz, nos anos dourados fez reluzir em esplendor os salões do Palácio Quitandinha, sobretudo, nas décadas em que a Cidade de Pedro respirava o glamour da aristocracia e da burguesia brasileira, atento e arguto, conhecia ele passo a passo, distinguia, localizava o tilintar de cristais e o linho alvo das mesas brasonadas.
Não foi apenas um cronista, mas sim, o arquiteto da memória social petropolitana da segunda metade do século XX.
A caneta, o bloco de notas e a elegância aliada ao faro jornalístico impecável, registrou o auge e a transmutação da "Cidade Imperial", eternizando o período de ouro dos grandes bailes do Quitandinha.
Percorrer os salões do monumento histórico que abrigou celebridades e rememorar a suntuosa decoração de Dorothy Draper era vislumbrar um universo à parte. A extraordinária artista foi a célebre designer de interiores americana responsável pela glamorosa e exuberante decoração do Palácio ora referido, inaugurado em 1944.
O cenário era digno do cinema Hollywoodiano.
As orquestras ditavam o ritmo de valsas, sambas-canção e boleros, joias, a brilhar, os vestidos esvoaçantes, cabelos encaracolados e sapatos de verniz cintilavam em imensos lustres dourados adornados em swarovski, asfour, baccarat, veneziano e tantos mais. A área serviu de palco para inúmeros eventos, desfiles e dos concursos Miss Brasil nos anos 50 onde os maiôs Catalina eram os preferidos das misses. Estetas da beleza, os lendários Jambert e Renaut, símbolos do éclat e da sofisticação carioca subiam a serra em atenção à fidalguia, principalmente entre as décadas de 1950 e 1970.
As senhoras desfilavam alto padrão da haute-couture carioca e da Serra da Estrela, assinadas pela Madame Maria Antônio Wiskutzki, onde homens de casaca, vestidos pela Alfaiataria De Carolis discutiam os rumos da administração e dos negócios nacionais nas mesas de centro.
E lá estava Célio Thomaz. Discreto, circulava pelos recintos com seu carisma inigualável absorvendo cada pormenor: os adornos mais comentados, quem dançava com quem, flertes ocultos atrás das colunas e os altos negócios empresariais ali realizados.
O “Palais Versailles” local era um termômetro do Brasil e Célio Thomaz mantinha-se atento à temperatura.
No dia seguinte, as páginas do Diário de Petrópolis, Jornal de Petrópolis, Revista Social, entre outros, ganhavam vida.
O leitor atualizado lia a sua coluna social, ritual obrigatório da manhã petropolitana.
Para a aristocracia da época, aparecer no famoso artigo jornalístico, sob os elogios de Célio Thomaz equivalia a receber uma condecoração nobiliárquica.
O jornalista, entre suas preciosidades ao publicar "quem é quem" era a aprovação de um “curriculum vitae”. Receber o “Troféu Vip” ou figurar entre os “Dez mais elegantes” era como se fosse o passaporte para o doutorado social.
Djanira, nome destacado da culinária orgulhava-se em dizer e agradecer, “depois de haver sido apresentada por Célio Thomaz em sua página, além de chefiar importantes banquetes locais realizou diversas viagens profissionais, em especial à Europa.”
Vários meios de comunicação o comparavam ao renomado jornalista Ibrahim Sued, de notoriedade internacional de quem Célio era amigo.
Suas crônicas captavam a atmosfera da Imperial Cidade que se dividia entre o frio da serra, o aroma de suas confeitarias tradicionais, “exempli gratia” da Casa D’Ângelo, Restaurante Copacabana e Grande Hotel onde se convivia com o retinir de taças de champanhe famosos, tais como o Bollinger, Veuve Clicquot, Moët & Chandon, Perrier-Jouët, entre outros.
Célio seguiu firme, sobretudo, a virada do milênio, observando a transformação dos tempos com a sapiência de quem viu os cassinos fecharem e as pistas de dança se modernizarem. Seu falecimento em 25 de abril de 2001 marcou o fim de uma era no jornalismo impresso do interior fluminense, deixando órfã uma legião de admiradores que viam em suas palavras o espelho de uma Petrópolis romântica e imponente.
Para a felicidade geral seu filho o eminente advogado e jornalista Célio Salim Thomaz Júnior o sucedeu e prosseguiu a honrosa missão paterna cujo prestígio e amizade a todos contagia.
O nome Célio Thomaz eternizou-se nas páginas da história e continua indelével na cidade através de seu legado profissional, ecoando qual a trilha sonora de um eterno baile e resplandecente na memória da serra e fez por merecer da edilidade integrante do Palácio Amarelo o nome de um logradouro ou de um prédio cultural no centro histórico ou cercanias. Célio recebeu inúmeras honrarias e laureis, destaco o Prêmio Academia Petropolitana de Letras, anos 80 e em 10-09-1994 o Prêmio Jornalista do Ano por ocasião de minha passagem pela presidência da centenária A.P.L. em sessão solene na Concha Acústica do Museu Imperial na presença de ilustres personalidades nacionais e locais, entre elas Suas Exas. Ministro Alexandre de Paula Dureyrat Martins (Justiça), Nascimento e Silva (Cultura) e Mauro Durante (Ministro Chefe da Presidência da República).
Neste epílogo, transcrevo a homenagem por mim, a ele dedicada no dia de sua Páscoa Celeste:
“Subiu aos céus onde dorme o sono da paz, o bom amigo Célio Thomaz. Não lhe causa inveja os belos passarinhos, agora é alado em nuvens de carinho.
Hoje convive entre as estrelas, ao sol candente e a lua cor de prata, que tantas vezes do firmamento o viu dedilhar inspirados acordes em belas serenatas...
Verdade é que se nós o lembramos, o mantemos vivo em nosso coração. Quem teve a graça de fazê-lo irmão em momento algum disso reclamou. Porque era fiel qual escudeiro iluminando estradas e sempre verdadeiro.
Olhe por nós aí do infinito, tenha em Maria seu pálio e proteção. Bem junto aos Anjos e do Pai eterno, espalhe sua luz. E da abóbada celeste agora está em doce desfrutar a justa recompensa que soube edificar.
Plantou o amor e soube dar valor ao significado e o sentido da amizade, por isso sorve o néctar etéreo de suave odor, enquanto nós nesse recordar contemos as lágrimas que teimam em rolar e fazem brotar do peito fonte cristalina e no ar exala o perfume de róseas hortênsias por entre avencas e saudade.”
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