COLUNISTA
Teve essa denominação, pois no início da colonização de Petrópolis, o mordomo Paulo Barbosa da Silva, mandou com ergue-se nesse localidade uma cruz com a seguinte inscrição: “Cruz de São Pedro de Alcântara de Petrópolis”, daí o nome “Morro do Cruzeiro”.
É o morro contornado pelas ruas as quais formam, a grosso modo, o hexágono do Quarteirão Vila Imperial. Nos primeiros anos da Imperial Colônia de Petrópolis, era conhecido pelos colonos por “Kaiserkopf”, que traduziam desde seu idioma natal, por “Morro do Imperador” ou “Coroa do Imperador”. Nestes tempos a população ali realizava excursões e convescotes, como chamavam aos “pic-nics” de então. A Superintendência da Colônia mandava construir, na década de 1850, um caminho bem cuidado, pois, além da população local, muitos forasteiros para lá se dirigiam, de modo a desfrutarem o magnífico panorama que do alto do morro se descortinava. Era na coroa do morro onde se reuniam os primitivos habitantes da terra, especialmente nos dias de Natal, Ano Novo, Páscoa e Pentecostes, o “Sängenbund Eintracht” (Sociedade Coral Concórdia) e os colégios, como a Escola Evangélica e a do Professor Stroelle, eram frequentadores habituais do local. Na grande área plana e limpa cantavam e dançavam ao som de polcas e valsas, executadas pelas bandas dos irmãos Eckhardt e Esch. Existia também, no referido planalto, um tronco de árvore cortada e que servia de assento e tribuna ao mesmo tempo. Desta tribuna silvestre declamavam e discursavam petropolitanos como Julius Esch, Philip e Johannes Bretz, Anne, Edmund e Otto
Hees, Andréas Koslowsky, Mauritius Reichelt, Heindrich Sixel e outros, que o tempo esqueceu-se de registrar. O imperador subia, vez ou outra, ao “Kaiserkopf” e descansava no tronco cortado, daí também se denominar aquele tronco “Kaiserstuhl”, isto é: Cadeira do Imperador.
Para evitar desentendimentos no centro da cidade, onde também tinham comércio e residiam cidadãos franceses, os alemães e seus descendentes subiam ao “Kaiserkopf” para queimar fogos de artifício, todas as vezes que chegavam notícias de vitórias das armas prussianas, durante a guerra franco-prussiana de 1870-1871. Porém, isto não impedia que um negociante português, no então final da Rua do Imperador, o Sr. Cunha, proprietário do
famoso e curioso buraco, no Quarteirão Francês, mais realista que o imperador, em seu germanofilismo, celebrasse as mesmas vitórias prussianas no centro do Quarteirão Vila Imperial, com grande foguetório, porém, sempre pretextava haver tirado a sorte grande na loteria.
No início da ladeira para o Morro do Cruzeiro, à direita, instala-se em 1855 a ferraria do colono Johannes Mauricius Reichelt, que ali também residia com sua esposa, a parteira Frau Helene Reichelt, figura muito conhecida nos primeiros lares petropolitanos. Este prazo de terra foi, posteriormente, adquirido pelo engenheiro Miguel Detzi, que ali manda construir sua residência. No alto do morro, nos primeiros anos da década de 1860, intentou o imperador o plantio de amoreiras para a criação do bicho-da-seda, empreitada que não foi adiante. Quase no alto em 1870 começou-se a construir um grande prédio mandado levantar pelo cidadão francês Cèsar Bulleh, que ali pretendia construir um hotel. César, porém, desistiu de construí-lo, ainda no início das obras, alegadamente pela dificuldade de levar água potável até ao local. Esse episódio deu lugar a que o Morro do Cruzeiro tomasse
mais uma denominação: “Morro do César”. Da obra abandonada, na década de 1880, restavam vagos vestígios dos alicerces, tendo o material restante desaparecido, depois das ruínas terem servido de abrigo a escravos fugidos.
A Câmara Municipal, em 1885, composta em sua maioria por “liberais” prevendo a derrota para os “conservadores”, pretendeu entregar os cofres municipais vazios. Para gastar o dinheiro deliberou aterrar o Largo de Dom Affonso (Praça da Liberdade) com a terra do Morro do Cruzeiro, porém não teve sucesso, por um ou outro motivo, e o bom senso prevaleceu. O imperador Dom Pedro II, em despacho de 3 de outubro de 1885, “dignou-se
conceder a licença pedida pela Câmara Municipal para alargar o caminho para o alto do morro, com o fim de estabelecer, no mesmo, um logradouro de recreio para a população desta cidade”. Isto foi, oficialmente, comunicado à municipalidade, em ofício da Mordomia da Casa Imperial, e lido na seção de 12 de outubro de 1885. Era, portanto, o Morro do Cruzeiro um logradouro público. A repartição da “Carta Corográfica do Estado do Rio de Janeiro” em
1896, com a mudança da capital estadual para Petrópolis, instalou no alto do Morro do Cruzeiro uma estação meteorológica, que ali funcionou até o retorno da capital à cidade de Niterói. Extinta a estação, o pavilhão mandado construir para abrigá-la, desapareceu, evaporaram-se os materiais, tal qual sucedera ao hotel do francês César, mas tudo corrobora no sentido de que, pelo menos o topo foi um dia um bem público. Na administração do
coronel Arthur Alves Barbosa, 1913 a 1916, este, acompanhado de alguns vereadores, várias vezes visitou o Morro do Cruzeiro e foi examinada a possibilidade de tornar realidade o projeto imperial de 1885, pelo jeito não foi possível.
Nos primeiros anos da década de 1940, de algum modo, o morro tornou-se propriedade particular e, como tal, foi loteado e urbanizado. Foram abertas ruas de acesso aos lotes, surgiram então as ruas A, B, C, D etc., do loteamento, da região que o povo rebatizou de “Morro dos Milionários”.
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