COLUNISTA
Selecionei um trecho da carta do pastor Georg Ströele da Igreja Luterana, escrita em 1865 a um jornal alemão, sediado na Basiléa, 20 anos após a data de chegada dos colonos germânicos em Petrópolis. Acredita-se que o conteúdo tenha um pouco de sensasionalismo, sabendo que são duas décadas depois do evento o ocorrido entre 1843 e 1845, e o próprio pastor no período relatado na correspondência ainda não se encontrava em Petrópolis e
contava apenas com 13 anos de idade.
“No anno de 1843 tomou o governo da Provincia do Rio de Janeiro a resolução de construir uma via de communicação com a Província de Minas. Para alcançar de uma maneira barata forças de trabalho para execução desse projecto fez o presidente da província em 15 de Julho de 1844 com Eugenio Pisani, agente de Charles Delrue & Cia., em Dunquerque, um contracto no qual essa casa obrigou-se a fornecer 600 famílias. O governo prometeu tomar a si as despezas de transporte e pagar por uma pessoa adulta 245 francos e para uma criança de 5 a 15 annos, metade dessa soma. Delrue, então, fez tocar o tambor de engajamento na Allemanha, especialmente no Rheno, na certa “presopição”que o manso allemão acreditaria nas falsas promessas de seus agentes e seguiria com bom ânimo para a terra das palmeiras e dos diamantes. Assim succedeo. Disse a estes pobres que ganhariam, sem grande pena, 3 fl. 30 kr. (moeda allemã 2.500); a terra era tão insigne e magnífica que apenas só poderia comparar o Paraizo com ella; receberiam terras a vontade, além de Pastores e Professores de seu idioma. Em pouco tempo estavam juntas 600 famílias. Estas venderão por preço barato os seus bens e deixarão com corações alegres sua pátria. Mas apenas tinhão deixado as fronteiras allemãs, começou a miséria. Chegadas a Dunquerque, não acharão ainda promptos os navios destinados para elles. Os capitães não os aceitarão; dirigirão-se a Delrue e este mandou a bordo e capitães outra vez a Delrue. Deste modo, mandados para lá e para cá, errarão sem conhecer a língua franceza, com seus diminutos bens pela cidade. Diversas noites precisarão passar fora, ficarão roubados e escarnecidos.
Os Consules allemães negarão auxílio dizendo que eles agora erão emigrantes e por isso não erão mais allemães. Emfim forão alojados em adegas, estrebarias e em outros míseros cantos, mas foram obrigados a sustentarem a sua custa, conquanto Delrue recebeu para esse sustento 60 francos.
Si já estavam em grande miséria em Dunquerque, acharam a bordo uma existência verdadeiramente horrível. Enquanto o sustento devia consistir de comidas fortificantes e nutritivas, que no contracto estavam especificados, os miseráveis mantimentos que recebiam apenas os livrara da morte pela fome.Quando chegou o navio ao Rio de Janeiro estava cheio de provisões e estas então foram vendidas a altos preços.
O navio chamava-se “Maria” e o capitão scelerado Castell. A esta vida de fome ajuntaram ainda castigos corporaes e a deshonra das pessoas femininas; se os Paes defenderam suas filhas ou os maridos suas mulheres foram por algumas horas amarrados no mastro do navio e queimados ao calor do sol, e também por muitas vezes maltratados. Quando enfim entraram no porto do Rio de Janeiro, que estava cheio de vida, com suas verdes e florescentes ilhas, suas risonhas chácaras e margens parecentes jardins e viram a cidade que estava situada n’uma ponta quadrada da terra resaltada,o sereno firmamento e os pittorescos montes, cortados por deleitosos vales, cobertos de Mattos de laranja e limões, então fizeram exclamações de júbilo, esqueceram-se de todas as privações, pensando que podiam descançar e restabelecer-se nessas praias que tão risonhas olharam para elles; porém os pobre! Acharam-se ainda mais miserável, ainda mais horrível.
O governo, no entanto, tinha-os abandonado.
Com o projecto de construir estradas e canaes para o interior da província do Rio de Janeiro e estabelecer uma via de communicação com Minas Geraes, não se lembrou mais dos trabalhadores engajados na Europa e por isso não tinha feitos preparativos alguns paraalojal-os.
Foram desembarcados na Praia Grande. O ardente calor, o desconhecimento da língua, a falta de mantimentos e de segurança contra os negros inclinados a roubar e a immoralidade canalha dos mulatos, levarão os deploráveis emigrantes a total desesperação. Nascerão enfermidades em pouco tempo (em todo três semanas) salvou a morte 314 pessoas das suas misérias.
Finalmente, o corpo do commercio allemão “compaixou-se” de seus pobres compatriotas e implorou a compaixão do Imperador para que se empenhasse para esses miseráveis.
D. Pedro, um monarcha benigno e benevolente, estava logo prompto a dar-lhe efficaz soccorro.
Elle comprou em parte, por sua própria custa, um numero considerável das obrigações que lhes erão impostas pelos contractos. Uma parte dos emigrantes mandou levar para outras colônias, outros, mandou transportar para sua propriedade do Córrego Secco, para fundar ali uma residência de verão e uma colônia, ainda que duas tentativas de colonização alli já se tinhão malogradas. Petrópolis, como se chama o lugar, está situada a 25 léguas do Rio; a terra é muito montanhosa, cortada por profundos valles e travessado por innumeros riachos.
A temperatura é 10 gráos differente da do Rio de Janeiro, desagradável, sempre nebulosa, turva; os chuveiros são horríveis, o chão é frio, humido de modo que muito não prospera.
Para aqui forão, pois transportados esses pobres emigrantes allemães. A cada um foi dado algum trato de terra para os primeiros dez annos livres de impostos e depois tem de pagar um pequeno imposto annual(...)”
Veja também: