COLUNISTA
Selecionei duas reportagens encontradas no Jornal de Cascatinha, publicadas nos anos de 1930, sobre o culto religioso afrodescendente em Petrópolis. Transcrevi-as da mesma forma como se encontram publicadas no períodico.
Este artigo tem apenas o intuito de mostrar a forma pitoresca como os cultos afros eram tratados e descritos no início do século XX. Lembrando que não podemos fazer uma julgamento sobre a mentalidade da época, que considerava “normal” a forma de tratar esse assunto.
Domingo, 30 de novembro de 1930
MACUMBAS
Na dilligencia effectuada em 11 do corrente, pela policia de Petrópolis, à rua Paulino Áfonso, foi prezo Ramiro Ramos, como autor de “macumbas” e com elle trazidos á séde da Região Policial os seguintes objectos:
Uma caveira com um lenço encarnado amarrado, uma caçarolla de barro, uma panella de barro com pedaços de vela e varios bilhetes, um vidro de remédio, um punhal que foi encontrado enterrado, um molho de hervas medicinaes, pó de sapats, etc...
Segundo apuramos na policia a caveira pertence aos despojos de um parente de distinta família petropolitana.
O sapo encontrado com a bocca cosida, no Cemitério Municipal, foi obra dessa macumba.
Um bilhete dizia assim:
“Pai José, mando-lhe falar que o homem veio do Rio e tomou 2 banhos, um no dia que veiu e outro hontem. Está insupportável de se aturas e está tomando o remédio como o sr. Mandou e peço que o sr. me diga eu vou fazer doente.
João Borba”
Um cartão de visitas de Frederico Mesquita, Cartographo 1º Distrito Artilharia da Costa lia-se isso:
“Vou jantar no Falcone e volto”.
Diziam os autores da dilligencia policial que nos fundos da casa havia um Bode enterrado.
EM CASCATINHA TAMBÉM
Quem teria feito? Ninguém sabe. A verdade porém é que foi encontrado na subida para o Morro da Bôa Vista, na Estrada da Saudade, uma vela acesa ao lado de um frango assado, as 10hs da noite de quinta-feira. Arthur Viera e Arthur Pazeto ao passar por ali aquella hora da noite, viram esse “despacho”, tendo o primeiro dado um pontapé no tal trabalho, que se pressume tivesse sido feito naquelle momento.
Policia, onde estaes que não respondes?...
Domingo, 2 de agosto de 1931
AS MACUMBAS
RECEBEMOS:
“Ilmo. Snr. Redator do Jornal de Cascatinha.”
Saudações.
Leitor assíduo de vosso jornal, peço-vos por isso auxiliar-me na extirpação de mais uma nova calamidade que está assolando a nossa linda Petrópolis, e principalmente Cascatinha.
Trata-se aqui dos “charlatões” de baixo e falso esperitismos ou seja: a “macumba” com todos os seus horrores praticada impunemente e com prejuízo e não pequeno para a sociedade. Sendo eu um operário da fabrica de tecido e chefe de família, sinto me na obrigação de recorrer a vós para que seja repremida tão degradante, quanto atrazada pratica.
Pessôas com pouca experiência, aliás como venho observando, deixam-se levar por outras já inciadas em tão errada doutrina, arrastando assim famílias inteiras que sujeitam a batuques e dansar durante toda noite, com acompanhamento de cantos bizarros e sem nexo enfim, passam-se coisas inacreditáveis em tais casas.
Segundo o tal chefe, para desenvolver um médium, agarram uma moça (ingênua, vá se dizendo!) pelos braços e sacodem-na até roxear-lhes os braços e isto é para desenvolver... e outras babuzeiras mais.
Logares da Macumba:
Picada da Saudade, Beco no Aterro Alto, Samambaia, Quarteirão Suisso em Petrópolis.
A direcção cem deste ultimo bairro citado uns mulatos que bancam o “Pai de Santo”.
Peço vos auxiliar-me e bem assim à moral da família operaria de Cascatinha.
Vosso assíduo leitor, F.K.Y”
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