Edição: domingo, 14 de junho de 2026

Frederico Amaro Haack

COLUNISTA

Frederico Amaro Haack

ALGUMAS NOTÍCIAS CURIOSAS NO JORNAL DE CASCATINHA.

Selecionei duas reportagens encontradas no Jornal de Cascatinha, publicadas nos anos de 1930, sobre o culto religioso afrodescendente em Petrópolis. Transcrevi-as da mesma forma como se encontram publicadas no períodico.

Este artigo tem apenas o intuito de mostrar a forma pitoresca como os cultos afros eram tratados e descritos no início do século XX. Lembrando que não podemos fazer uma julgamento sobre a mentalidade da época, que considerava “normal” a forma de tratar esse assunto.

Domingo, 30 de novembro de 1930

MACUMBAS

Na dilligencia effectuada em 11 do corrente, pela policia de Petrópolis, à rua Paulino Áfonso, foi prezo Ramiro Ramos, como autor de “macumbas” e com elle trazidos á séde  da Região Policial os seguintes objectos:

Uma caveira com um lenço encarnado amarrado, uma caçarolla de barro, uma panella de barro com pedaços de vela e varios bilhetes, um vidro de remédio, um punhal que foi encontrado enterrado, um molho de hervas medicinaes, pó de sapats, etc...

Segundo apuramos na policia a caveira pertence aos despojos de um parente de distinta família petropolitana.

O sapo encontrado com a bocca cosida, no Cemitério Municipal, foi obra dessa macumba.

Um bilhete dizia assim:

“Pai José, mando-lhe falar que o homem veio do Rio e tomou 2 banhos, um no dia que veiu e outro hontem. Está insupportável de se aturas e está tomando o remédio como o sr. Mandou e peço que o sr. me diga eu vou fazer doente.

João Borba”

Um cartão de visitas de Frederico Mesquita, Cartographo 1º Distrito Artilharia da Costa lia-se isso:

“Vou jantar no Falcone e volto”.

Diziam os autores da dilligencia policial que nos fundos da casa havia um Bode enterrado.

EM CASCATINHA TAMBÉM

Quem teria feito? Ninguém sabe. A verdade porém é que foi encontrado na subida para o Morro da Bôa Vista, na Estrada da Saudade, uma vela acesa ao lado de um frango assado, as 10hs da noite de quinta-feira. Arthur Viera e Arthur Pazeto ao passar por ali aquella hora da noite, viram esse “despacho”, tendo o primeiro dado um pontapé no tal trabalho, que se pressume tivesse sido feito naquelle momento.

Policia, onde estaes que não respondes?...

Domingo, 2 de agosto de 1931

AS MACUMBAS

RECEBEMOS:

“Ilmo. Snr. Redator do Jornal de Cascatinha.”

Saudações.

Leitor assíduo de vosso jornal, peço-vos por isso auxiliar-me na extirpação de mais uma nova calamidade que está assolando a nossa linda Petrópolis, e principalmente Cascatinha.

Trata-se aqui dos “charlatões” de baixo e falso esperitismos ou seja: a “macumba” com todos os seus horrores praticada impunemente e com prejuízo e não pequeno para a sociedade. Sendo eu um operário da fabrica de tecido e chefe de família, sinto me na obrigação de recorrer a vós para que seja repremida tão degradante, quanto atrazada pratica.

Pessôas com pouca experiência, aliás como venho observando, deixam-se levar por outras já inciadas em tão errada doutrina, arrastando assim famílias inteiras que sujeitam a batuques e dansar durante toda noite, com acompanhamento de cantos bizarros e sem nexo enfim, passam-se coisas inacreditáveis em tais casas.

Segundo o tal chefe, para desenvolver um médium, agarram uma moça (ingênua, vá se dizendo!) pelos braços e sacodem-na até roxear-lhes os braços e isto é para desenvolver... e outras babuzeiras mais.

Logares da Macumba:

Picada da Saudade, Beco no Aterro Alto, Samambaia, Quarteirão Suisso em Petrópolis.

A direcção cem deste ultimo bairro citado uns mulatos que bancam o “Pai de Santo”.

Peço vos auxiliar-me e bem assim à moral da família operaria de Cascatinha.

Vosso assíduo leitor, F.K.Y”

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