Edição: domingo, 09 de agosto de 2026

Frederico Amaro Haack

COLUNISTA

Frederico Amaro Haack

UMA BICICLETA APREENDIDA EM 1932

Entre os documentos administrativos que ajudam a reconstruir a história cotidiana de Petrópolis encontram-se registros de acontecimentos aparentemente pequenos, mas que, vistos com atenção, revelam aspectos importantes da vida da cidade. Um desses documentos é o Requerimento nº 1.255, de 18 de novembro de 1932, apresentado à Prefeitura por Adelino Martins Coelho, morador de Corrêas, em razão da apreensão de sua bicicleta.

O episódio, embora simples, permite observar como funcionavam a fiscalização municipal, o controle dos veículos e a relação entre os moradores e a administração pública em Petrópolis durante a década de 1930. Ao mesmo tempo, oferece uma interessante janela para o cotidiano de uma cidade que ainda conservava fortes características de seu passado imperial, mas já vivia as transformações trazidas pela modernização dos transportes e pela reorganização administrativa do país.

Adelino Martins Coelho era proprietário da bicicleta nº 151, devidamente licenciada pela Prefeitura, conforme o talão nº 1.392, de 5 de fevereiro de 1932. A bicicleta representava, naquele período, um meio de transporte importante, especialmente para aqueles que precisavam se deslocar entre os bairros e o centro da cidade. Petrópolis possuía uma geografia marcada por vales, encostas e distâncias consideráveis entre suas diferentes localidades, e a bicicleta oferecia uma alternativa econômica e prática para os deslocamentos cotidianos.

Morador de Corrêas, Adelino utilizava seu veículo provavelmente para as atividades habituais de sua vida. Em novembro daquele ano, entretanto, precisou enviar um primo a Petrópolis para realizar algumas compras. O rapaz tomou a bicicleta nº 151 e seguiu em direção ao centro.

Ao chegar à região conhecida como Pic-Nic, percebeu que algo estava errado: a placa de licença da bicicleta havia se desprendido do respectivo parafuso. O fato, que poderia parecer insignificante, tinha importância administrativa. Uma bicicleta que circulasse sem a identificação exigida poderia ser considerada irregular pelos fiscais municipais.

O jovem tomou então uma decisão bastante lógica. Em vez de continuar o trajeto sem a placa, encostou a bicicleta e saiu a pé para procurá-la. Segundo o próprio requerimento apresentado posteriormente por Adelino, a placa foi localizada a aproximadamente quatrocentos metros do ponto onde a bicicleta havia sido deixada.

Encontrada a placa, o rapaz retornou ao local.

Foi então que descobriu o inesperado.

A bicicleta já não estava onde a deixara.

Ao procurar informações, foi comunicado de que o veículo havia sido conduzido para a polícia, pois fora encontrado aparentemente em situação de abandono.

O episódio demonstra como uma circunstância absolutamente banal podia gerar uma sequência de procedimentos administrativos. O rapaz havia deixado a bicicleta apenas temporariamente para procurar a placa, mas, para quem a encontrou sem seu proprietário e sem a respectiva identificação, a situação poderia sugerir abandono.

A bicicleta nº 151 foi, portanto, recolhida.

Para Adelino, porém, não havia dúvida de que se tratava de seu patrimônio e que o veículo estava regularmente licenciado. Por essa razão, decidiu recorrer à Prefeitura.

Em 18 de novembro de 1932, apresentou o requerimento que recebeu o número 1.255. No documento, dirigido ao prefeito, explicou detalhadamente o ocorrido. Declarou ser proprietário da bicicleta nº 151, licenciada pelo talão nº 1.392, de 5 de fevereiro daquele ano, e informou que havia enviado seu primo a Petrópolis para fazer compras.

Relatou que, ao chegar ao Pic-Nic, o rapaz havia percebido que a placa da licença se desprendera do parafuso. Por isso, encostara o veículo e saíra a pé à procura da placa, que acabou sendo encontrada a cerca de quatrocentos metros de distância.

Ao retornar, entretanto, a bicicleta não estava mais no local.

O proprietário soubera então que o veículo havia sido levado à polícia por estar aparentemente abandonado.

A argumentação de Adelino era direta: a bicicleta pertencia a ele, estava licenciada e já havia sido reconhecida como sua pelo fiscal do 2º distrito, senhor Alexandre Janiques. Diante disso, solicitava a relevação da multa e a entrega do veículo.

O documento recebeu o encaminhamento administrativo habitual e passou a ser analisado pelos responsáveis pela fiscalização municipal.

O parecer do fiscal Gouvêa, datado de 25 de novembro de 1932, acrescentou uma importante confirmação. O fiscal informou que a bicicleta havia sido entregue pela polícia porque fora encontrada sem a respectiva licença. Entretanto, confirmou que o fiscal Janiques reconhecia as declarações apresentadas pelo requerente.

Essa informação era fundamental para a solução do caso. A apreensão havia ocorrido porque, no momento em que foi localizada, a bicicleta encontrava-se sem a placa de identificação. Contudo, a administração municipal conseguiu verificar posteriormente que o veículo tinha proprietário identificado e licença regular.

O episódio revela, portanto, não apenas uma situação curiosa, mas também o funcionamento da fiscalização dos meios de transporte em Petrópolis. A existência de uma licença municipal para bicicletas demonstra que esses veículos estavam submetidos a regras administrativas e que a Prefeitura mantinha algum tipo de controle sobre sua circulação.

Hoje, a ideia de uma bicicleta possuir uma placa de licença pode parecer estranha. Entretanto, documentos como esse demonstram que a administração municipal procurava identificar e regulamentar os veículos que circulavam pelas ruas da cidade. A bicicleta, embora simples, fazia parte de um sistema urbano que precisava conciliar diferentes formas de transporte.

Petrópolis de 1932 era uma cidade em transformação.

Ainda estavam presentes muitos elementos associados à antiga cidade imperial. As construções, os jardins, os rios canalizados e a paisagem serrana mantinham características que remetiam ao século XIX. Ao mesmo tempo, automóveis, caminhões, bondes e bicicletas representavam uma nova dinâmica urbana.

As ruas eram compartilhadas por diferentes meios de transporte. Cavalos e carroças continuavam presentes, enquanto os automóveis se tornavam cada vez mais comuns. Nesse cenário, a bicicleta ocupava um espaço intermediário: era moderna o suficiente para representar uma alternativa aos veículos tradicionais, mas simples e acessível para trabalhadores e moradores que precisavam se deslocar pela cidade.

A história da bicicleta nº 151 também permite perceber a importância de Corrêas na dinâmica de Petrópolis. A localidade, distante do núcleo central, mantinha relações constantes com a cidade. Moradores precisavam deslocar-se para realizar compras, resolver assuntos administrativos, trabalhar ou estabelecer relações comerciais.

Para alguém residente em Corrêas, uma bicicleta podia representar muito mais do que um objeto de lazer. Era um instrumento de mobilidade e, consequentemente, de autonomia.

Por isso, a apreensão do veículo não era uma questão insignificante para Adelino Martins Coelho. Recuperá-lo significava recuperar um bem necessário à sua rotina.

O requerimento também revela uma característica importante da documentação histórica: os grandes acontecimentos não são os únicos capazes de contar a história de uma cidade.

Um processo administrativo aparentemente banal pode revelar costumes, normas, profissões, formas de transporte, relações entre moradores e autoridades e até a maneira como a administração pública lidava com situações inesperadas.

Nesse caso, um pequeno objeto metálico a placa de licença foi responsável por desencadear todo o episódio.

A placa se desprendeu.

O proprietário ou seu representante procurou recuperá-la.

A bicicleta ficou temporariamente sem identificação.

A polícia a recolheu.

O proprietário apresentou uma reclamação.

Um fiscal confirmou a versão.

Outro fiscal registrou o ocorrido.

E o processo administrativo preservou toda essa sequência.

Mais de noventa anos depois, o documento permite recuperar um fragmento da vida de Petrópolis em 1932.

É importante observar que o requerimento possui também valor linguístico e documental. A redação conserva a ortografia e as fórmulas administrativas características do período, utilizando expressões como “bicycletta”, “alludida”, “vehiculo”, “sahio”, “encontrata” e “condusida”. Essas formas não devem ser vistas apenas como curiosidades linguísticas: fazem parte da própria materialidade do documento e ajudam a situá-lo historicamente.

O texto revela ainda a burocracia municipal em funcionamento. O cidadão apresentava sua solicitação, a administração verificava os fatos, os fiscais emitiam pareceres e o processo seguia os trâmites necessários para chegar a uma decisão.

Nesse aspecto, a pequena história da bicicleta nº 151 é também uma história da administração pública de Petrópolis.

O documento mostra uma Prefeitura preocupada em controlar as licenças, fiscalizar os veículos e verificar as circunstâncias de uma apreensão. Mas mostra também uma administração capaz de reconhecer uma situação em que o cidadão apresentava justificativa plausível.

O fiscal Alexandre Janiques confirmou as declarações de Adelino. O fiscal Gouvêa registrou que a bicicleta havia sido entregue pela polícia por estar sem a licença, mas também consignou a confirmação de Janiques.

A partir daí, o caso deixava de ser simplesmente uma apreensão de um veículo irregular e passava a ser uma ocorrência explicada pelas circunstâncias.

Não sabemos, apenas pelo documento, todos os detalhes da conclusão do processo nem podemos afirmar com absoluta certeza como foi o momento da devolução da bicicleta. Mas o registro deixa clara a existência de elementos suficientes para identificar o proprietário e explicar o desaparecimento temporário da placa.

É justamente essa combinação de informações que torna o documento tão interessante.

A história da bicicleta nº 151 não envolve personagens famosos, grandes acontecimentos ou decisões políticas. Não há nela a grandiosidade dos episódios associados à antiga Família Imperial ou aos grandes nomes da história de Petrópolis.

Há, porém, algo talvez igualmente importante: a vida comum.

A vida daquele morador de Corrêas que precisava enviar seu primo à cidade para fazer compras. A vida de quem dependia de uma bicicleta para se deslocar. A vida dos fiscais que percorriam as ruas verificando o cumprimento das normas municipais. A atuação da polícia diante de um veículo aparentemente abandonado. E a burocracia necessária para que um cidadão pudesse recuperar aquilo que lhe pertencia.

São esses pequenos acontecimentos que ajudam a construir a história social de uma cidade.

A Petrópolis dos anos 1930 não era apenas a cidade dos grandes edifícios, dos jardins e das lembranças do período imperial. Era também uma cidade de trabalhadores, comerciantes, moradores dos distritos, estudantes, funcionários públicos, agricultores, viajantes e pequenos proprietários.

Era uma cidade em movimento.

E entre seus muitos meios de transporte estava a bicicleta.

A bicicleta nº 151, licenciada pelo talão nº 1.392, tornou-se, por uma circunstância fortuita, personagem de um processo administrativo. Seu proprietário, Adelino Martins Coelho, deixou registrado no papel um episódio que provavelmente considerava apenas um contratempo.

Para a história, entretanto, o documento adquiriu outro significado.

Ele permite que, décadas depois, possamos imaginar uma Petrópolis diferente: uma cidade onde uma bicicleta podia ser licenciada, fiscalizada e apreendida; onde uma placa podia cair durante o trajeto; onde alguém precisava caminhar quatrocentos metros para procurá-la; e onde um simples requerimento poderia registrar, para a posteridade, uma pequena aventura do cotidiano.

O caso da bicicleta nº 151 demonstra que preservar documentos administrativos é também preservar a memória das pessoas comuns.

Grandes monumentos contam parte da história de Petrópolis.

Os documentos contam outra.

E, algumas vezes, uma folha de papel datada de 18 de novembro de 1932, acompanhada de um parecer de 25 de novembro, consegue revelar mais sobre a vida cotidiana de uma época do que longas descrições.

E, graças a esse registro, uma pequena ocorrência ocorrida em Petrópolis no ano de 1932 deixou de ser apenas uma questão burocrática e passou a integrar a memória da cidade.

Uma bicicleta, uma placa perdida e um requerimento.

Pequenos acontecimentos que, vistos através do tempo, ajudam a reconstruir a grande história de Petrópolis.

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