COLUNISTA
A História de Petrópolis é marcada não apenas por grandes acontecimentos políticos e sociais, mas também por episódios pitorescos protagonizados por personagens que, de maneira inesperada, acabaram se aproximando das figuras mais importantes da vida nacional. Entre essas histórias encontra-se a curiosa relação entre o fotógrafo petropolitano Rodolpho Haack e o presidente da República Getúlio Vargas, iniciada por uma fotografia que, à primeira vista, poderia parecer apenas um registro cotidiano.
O episódio teria ocorrido durante uma das temporadas de verão de Getúlio Vargas em Petrópolis, quando o presidente costumava circular pelas ruas do centro da cidade. Foi justamente em uma dessas ocasiões que Rodolpho Haack, proprietário de um estabelecimento de ótica e fotógrafo conhecido na cidade, realizou uma fotografia que acabaria provocando um pequeno incidente com a segurança presidencial e, posteriormente, estabelecendo uma relação de amizade entre o fotógrafo e o presidente.
Em uma tarde de verão, Getúlio Vargas caminhava pela então Avenida 15 de Novembro, atual Rua do Imperador, no centro de Petrópolis. Conhecido por seu modo característico de caminhar, frequentemente com as mãos cruzadas às costas, o presidente parou diante do antigo Cinema Capitólio, observando o movimento da rua e conversando descontraidamente com algumas das pessoas que circulavam pelo local.
Nas proximidades encontrava-se o estabelecimento de Rodolpho Haack, fotógrafo e proprietário de uma casa de ótica situada na mesma rua. Ao perceber a presença do presidente diante do cinema, Haack não perdeu a oportunidade de registrar aquela cena.
Tomou sua máquina fotográfica, posicionou-se nas proximidades do rio Quitandinha, em frente ao cinema, enquadrou Getúlio Vargas e fez o registro.
Para Haack, tratava-se de uma fotografia espontânea, captando o presidente em um momento descontraído de sua passagem por Petrópolis. Entretanto, o destino daquele retrato seria bem menos trivial.
Depois de revelar a fotografia, Rodolpho Haack decidiu fazer uma ampliação e colocá-la em exposição na vitrine de sua loja, como era costume entre os estabelecimentos fotográficos da época.
O resultado foi imediato: uma verdadeira aglomeração formou-se diante da vitrine da “A Óptica”.
Mas o que teria provocado tamanha curiosidade?
A explicação estava no próprio enquadramento da fotografia. Naquele período, o Cinema Capitólio anunciava em sua fachada o filme “Ali Babá e os 40 Ladrões”. O letreiro da película aparecia ao fundo da fotografia, compondo uma combinação involuntariamente cômica: a imagem do presidente Getúlio Vargas surgia diante da divulgação de um filme cujo título remetia a “Ali Babá”.
A fotografia rapidamente chamou a atenção do público, justamente pela associação curiosa entre o presidente e o título do filme. O que para Haack era simplesmente um flagrante fotográfico transformou-se, aos olhos dos observadores, em uma imagem carregada de humor.
A reação da segurança presidencial
A repercussão da fotografia, entretanto, não teria ficado restrita à população que se aglomerava diante da vitrine.
A notícia chegou aos ouvidos dos integrantes da segurança presidencial. Preocupados com o significado que poderia estar sendo atribuído à fotografia, os agentes foram imediatamente verificar o ocorrido.
Segundo a tradição oral associada ao episódio, Rodolpho Haack foi detido sem que tivesse oportunidade de explicar adequadamente a situação. O fotógrafo teria sido conduzido para a cadeia de Niterói, permanecendo incomunicável.
O que começara como uma fotografia espontânea havia adquirido, portanto, proporções inesperadas.
Haack provavelmente jamais imaginaria que uma simples ampliação colocada na vitrine de sua loja pudesse resultar em sua prisão.
A situação, porém, teria uma reviravolta igualmente inesperada.
Ao tomar conhecimento da prisão de Haack e das circunstâncias que haviam provocado o incidente, Getúlio Vargas teria determinado imediatamente a libertação do fotógrafo.
Mais do que isso: o presidente quis conhecer pessoalmente o autor da fotografia.
O encontro entre ambos teria transformado completamente o episódio. O que inicialmente poderia ter criado uma situação de constrangimento acabou se convertendo no início de uma relação de proximidade e confiança.
A partir daquele momento, segundo a memória preservada sobre o episódio, Rodolpho Haack passou a manter uma relação amistosa com o presidente, que o teria tratado com grande consideração. O fotógrafo, conhecido carinhosamente pelos amigos como “o velho Haack”, tornou-se presença habitual nas temporadas de Vargas em Petrópolis.
O fotógrafo de Getúlio em Petrópolis
Durante as permanências de Getúlio Vargas na cidade, Rodolpho Haack teria passado a acompanhá-lo em diversas ocasiões, registrando fotograficamente momentos de sua vida cotidiana.
Getúlio era frequentemente visto caminhando pelas ruas do centro de Petrópolis, e não seria raro encontrar Haack ao seu lado, máquina fotográfica em mãos.
A relação entre os dois teria ultrapassado, assim, a simples condição de fotógrafo e fotografado. Haack tornou-se uma espécie de acompanhante habitual do presidente durante suas caminhadas e atividades na cidade.
A fotografia, que inicialmente quase lhe custara a liberdade, acabaria proporcionando justamente o contrário: uma aproximação com uma das figuras políticas mais importantes da história brasileira.
Segundo a tradição familiar e a memória transmitida sobre o relacionamento entre os dois, Getúlio chegou inclusive a conversar com Haack sobre assuntos relacionados ao país, ouvindo suas opiniões e conselhos durante as caminhadas pelas ruas de Petrópolis.
É importante, contudo, compreender esse aspecto dentro do contexto da memória histórica local. A eventual influência efetiva de Haack sobre decisões presidenciais não deve ser tomada automaticamente como fato documental sem a localização de fontes primárias que a comprovem. O episódio, entretanto, permanece significativo como testemunho da proximidade que o fotógrafo teria alcançado junto ao presidente durante suas temporadas em Petrópolis.
A história de Rodolpho Haack e Getúlio Vargas possui todos os elementos de uma boa narrativa histórica: um presidente caminhando tranquilamente pelas ruas de Petrópolis, um fotógrafo atento, uma fotografia espontânea, um título de filme colocado involuntariamente ao fundo, uma interpretação bem-humorada do público, a intervenção da segurança presidencial e, finalmente, uma amizade que teria nascido de toda essa sucessão de acontecimentos.
O episódio também revela um aspecto interessante da vida cotidiana de Petrópolis durante o período em que a cidade recebia frequentemente autoridades políticas e personalidades de destaque. A presença presidencial fazia parte da paisagem urbana, mas não impedia que acontecimentos aparentemente banais adquirissem grande repercussão.
No caso de Rodolpho Haack, uma fotografia tirada diante do Cinema Capitólio transformou-se em uma passagem singular de sua trajetória profissional e pessoal.
A imagem que provocou o incidente também teria sido responsável por aproximá-lo de Getúlio Vargas. De fotógrafo que registrara casualmente o presidente, Haack teria se transformado em seu fotógrafo de confiança durante as temporadas petropolitanas.
Assim, entre as muitas histórias que compõem a memória de Petrópolis, a de Rodolpho Haack e Getúlio Vargas destaca-se por seu caráter pitoresco e humano. É uma história em que fotografia, política, cinema e cotidiano se encontram em uma única cena e na qual um simples letreiro de cinema acabou desempenhando um papel inesperado na aproximação entre um fotógrafo petropolitano e o presidente da República.
Mais do que uma fotografia, aquele registro tornou-se parte da memória afetiva de uma época em que Getúlio Vargas caminhava pelas ruas de Petrópolis e em que Rodolpho Haack, com sua máquina fotográfica, estava sempre pronto para eternizar os acontecimentos.
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