Edição: domingo, 23 de agosto de 2026

Frederico Amaro Haack

COLUNISTA

Frederico Amaro Haack

UM DISCO VOADOR EM PETRÓPOLIS

A curiosa notícia do Jornal do Povo de 11 de abril de 1950

No início da década de 1950, quando o mundo ainda vivia as incertezas do pós-guerra e a corrida tecnológica despertava fascínio e temor, uma notícia inusitada ocupou as páginas do Jornal do Povo: um misterioso “disco voador” teria sido observado sobre os céus de Petrópolis, precisamente nas proximidades do então 3º Regimento de Infantaria, conhecido como o Quartel da Presidência.

Publicada em 11 de abril de 1950, a reportagem constitui hoje um valioso documento histórico, não por comprovar a existência de objetos extraterrestres, mas por revelar como a imprensa, os militares e a sociedade petropolitana interpretavam um dos maiores fenômenos culturais do século XX: a febre mundial dos discos voadores.

A expressão “disco voador” havia surgido apenas três anos antes, em 1947, após o piloto norte-americano Kenneth Arnold relatar ter visto nove objetos luminosos sobrevoando as montanhas do estado de Washington. A notícia percorreu o mundo e inaugurou uma verdadeira onda de relatos semelhantes em diversos países.

No Brasil, jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e do interior passaram a publicar regularmente testemunhos de aparições misteriosas. Balões meteorológicos, reflexos atmosféricos, planetas brilhantes e até aeronaves experimentais eram frequentemente interpretados como engenhos desconhecidos.

Foi nesse ambiente de intensa curiosidade que Petrópolis ganhou espaço no noticiário nacional.

Segundo o Jornal do Povo, por volta das 13 horas de um domingo de abril de 1950, o capitão Alberto Carlos Mendonça Lima, oficial de serviço no 3º Regimento de Infantaria, percebeu no céu um grande objeto luminoso de coloração prateada.

O relato descreve um disco de brilho intenso, impossível de ser confundido com um astro devido à sua forma circular e ao comportamento incomum. Alertados pelo capitão, diversos oficiais passaram a observar o fenômeno utilizando binóculos.

A reportagem enfatiza que a fonte era “insuspeitável”, justamente porque os principais observadores pertenciam à oficialidade do Exército Brasileiro, conferindo ao episódio uma aparência de maior credibilidade perante o público.

O tenente Mario Roca Dieguez, ouvido pela reportagem, declarou que acompanhou o objeto durante mais de duas horas. Seu depoimento descreve características bastante peculiares:
“Movimentava-se lentamente, chegando por vezes a parar no espaço. Estava aproximadamente a três mil metros de altura e possuía coloração prateada.”

Outro entrevistado, Silvio Branco, foi mais cauteloso. Reconheceu ter visto um objeto metálico brilhante, mas evitou afirmar categoricamente tratar-se de um disco voador, demonstrando uma postura de prudência incomum em meio ao entusiasmo popular.

Também a professora Franci Ferreira de Souza, da Escola Progresso, localizada na Rua Paulino Afonso, confirmou ter observado o fenômeno e foi justamente quem avisou a redação do jornal sobre o ocorrido.

Lendo a reportagem com o olhar contemporâneo, percebe-se um aspecto interessante do jornalismo da época. O texto alterna linguagem informativa com expressões como “engenho desconcertante”, “misterioso aparelho” e “objeto incompreensível”, refletindo o imaginário coletivo então alimentado pelas notícias internacionais.

É importante lembrar que 1950 antecede a popularização da televisão no Brasil. Os jornais impressos eram a principal fonte de informação, e acontecimentos extraordinários despertavam enorme repercussão entre os leitores.
Petrópolis, por abrigar frequentemente o Presidente da República e importantes instalações militares, possuía ainda um ambiente propício à circulação de rumores relacionados à aviação e à segurança nacional.

O que poderia ter sido?

Passados mais de setenta anos, não existe qualquer comprovação de que o objeto observado fosse uma nave de origem desconhecida. Historiadores e pesquisadores da ufologia reconhecem que muitos relatos daquele período permanecem sem explicação conclusiva, justamente pela ausência de registros fotográficos, radares ou documentação técnica.

Entre as hipóteses mais plausíveis encontram-se:

* balões meteorológicos refletindo intensamente a luz solar;
* fenômenos ópticos produzidos pela atmosfera;
* aeronaves experimentais observadas à distância;
* interpretações visuais influenciadas pelo contexto cultural da época.

Nenhuma dessas possibilidades, entretanto, pode ser confirmada para o episódio petropolitano.

Independentemente da verdadeira natureza do objeto, a notícia publicada pelo Jornal do Povo em 11 de abril de 1950 permanece como uma das mais curiosas reportagens da imprensa petropolitana. Ela testemunha um momento em que ciência, imaginação e jornalismo caminhavam lado a lado, revelando muito mais sobre a sociedade de seu tempo do que sobre os céus propriamente ditos.

Hoje, essa narrativa integra o rico patrimônio documental de Petrópolis e demonstra como pequenos episódios publicados nos jornais antigos ajudam a reconstruir o cotidiano, as crenças e as inquietações de uma cidade que sempre ocupou lugar singular na história brasileira.

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