COLUNISTA
A História de Petrópolis costuma ser narrada por meio de seus palácios, da colonização germânica, e da presença da Família Imperial. Entretanto, existe um episódio quase esquecido que colocou a Cidade Imperial nas manchetes de todo o Brasil: o primeiro acidente aéreo ocorrido em seu território, em 3 de agosto de 1926.
Naquela manhã, um frágil biplano da Aviação Naval Brasileira caiu no Quarteirão Mosela durante um ousado reide entre o Rio de Janeiro e Belo Horizonte. O acontecimento não foi apenas um acidente; simbolizou uma época em que voar era uma aventura comparável às grandes expedições terrestres do século XIX.
Para compreender o impacto da queda, é preciso voltar os olhos para a incipiente aviação da década de 1920. Era a era de ouro dos chamados reides aéreos expedições pioneiras de longa distância que tinham o duplo propósito de testar os limites das máquinas e mapear as futuras rotas aéreas do vasto território nacional. Voar naqueles tempos exigia mais do que técnica; exigia uma dose cavalar de intuição e coragem. Sem o auxílio de rádio-navegação, radares ou infraestrutura aeroportuária no interior, os aviadores guiavam-se por referenciais visuais. Rios e ferrovias eram as bússolas da época, e a Estrada de Ferro, que serpenteava do Rio de Janeiro montanha acima, era o grande farol para quem se atrevia a cruzar a Serra.
A década de 1920 foi um período de extraordinário entusiasmo pela aviação. Menos de vinte anos haviam se passado desde o voo de Santos Dumont, e o avião ainda era visto como uma máquina quase fantástica. Cada travessia de longa distância era acompanhada pelos jornais, que descreviam os pilotos como verdadeiros heróis nacionais.
O Brasil possuía duas forças aéreas independentes: a Aviação Militar, ligada ao Exército, e a Aviação Naval, pertencente à Marinha. Ambas buscavam desenvolver rotas que permitissem integrar um país de dimensões continentais.
Foi nesse contexto que nasceu o reide RioBelo Horizonte. A missão tinha objetivos científicos e estratégicos: estudar ventos, altitudes, consumo de combustível e a viabilidade de uma futura linha aérea permanente entre as duas capitais.
O dia amanheceu claro sobre Petrópolis. O inverno serrano oferecia excelente visibilidade, embora correntes de ar frio percorressem os vales da Serra da Estrela.
Desde cedo, moradores da Mosela reuniam-se em um grande campo aberto. A imprensa havia anunciado a passagem da esquadrilha, e famílias inteiras aguardavam para acenar aos aviadores. Crianças subiam em cercas, operários interrompiam o trabalho por alguns minutos e senhoras observavam das varandas das casas coloniais.
Por volta do final da manhã, três pequenos pontos surgiram no horizonte. Eram os aviões da Marinha, seguindo o traçado da estrada de ferro, referência indispensável para a navegação visual.
À frente voava o AVRO 504K nº 1, pilotado pelo tenente Luís Leal Netto dos Reys.
A aproximadamente 2.500 metros de altitude, o inesperado aconteceu.
O motor perdeu potência e parou completamente. O ruído constante transformou-se num silêncio assustador, quebrado apenas pelo vento que passava entre os estais e pelas asas revestidas de lona.
Sem rádio para pedir auxílio e sem qualquer possibilidade de religar o motor em segurança, Netto dos Reys compreendeu que precisava pousar imediatamente.
O problema era encontrar um campo adequado em uma cidade cercada por montanhas.
Do alto, o piloto identificou um grande descampado na Mosela. Era o local perfeito para um pouso de emergência.
Entretanto, havia um detalhe dramático: o campo estava completamente tomado pela multidão que aguardava a esquadrilha.
Em poucos segundos, Netto dos Reys tomou uma decisão que marcaria sua carreira. Em vez de pousar sobre o terreno e provocar uma tragédia, inclinou o biplano para a esquerda e procurou um espaço muito menor, um aterro cercado por bambus entre duas residências da tradicional família Stumpf.
O avião perdeu velocidade rapidamente. As rodas tocaram o solo de maneira irregular, a fuselagem saltou sobre o aterro e as asas chocaram-se contra o bambuzal. A estrutura de madeira despedaçou-se quase instantaneamente.
Os moradores correram imaginando encontrar apenas destroços.
Para surpresa geral, o tenente Netto dos Reys e seu companheiro de voo saíram praticamente ilesos da cabine. A resistência da fuselagem e a habilidade do piloto haviam absorvido grande parte da violência do impacto.
A única vítima foi Paulino Garcia, trabalhador que cortava capim próximo ao local. Sem ouvir o avião, que já planava com o motor desligado, foi atingido de raspão por uma das asas, sofrendo fraturas na clavícula e em costelas. Socorrido pelos próprios moradores, sobreviveu ao acidente.
A notícia espalhou-se rapidamente pela cidade. Antes do fim da tarde, vários curiosos já visitavam a Mosela para observar os restos da aeronave, transformando o local em uma verdadeira romaria popular.
Enquanto os outros dois aviões concluíam a missão em Belo Horizonte, Petrópolis tornava-se protagonista de um importante capítulo da aviação brasileira.
O relatório elaborado pelo tenente Netto dos Reys foi apresentado ao Ministério da Marinha e contribuiu para o estudo das limitações mecânicas dos motores utilizados nos reides da época. Essas experiências seriam fundamentais para o aperfeiçoamento da navegação aérea nacional e, poucos anos depois, para a criação do Correio Aéreo Nacional, em 1931.
Hoje, quase um século depois, o acidente da Mosela permanece como um dos episódios mais singulares da história petropolitana. Não foi apenas a queda de um avião, mas o encontro entre uma cidade nascida entre montanhas e uma geração de homens que ousou conquistar os céus com máquinas de madeira, lona e coragem.
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