Edição: sábado, 26 de setembro de 2026

Frederico Amaro Haack

COLUNISTA

Frederico Amaro Haack

ECOANDO PASSOS E TRAGÉDIAS: A HISTÓRIA ESCRITA NAS CURVAS DA RUA BINGEN

Embora a Deliberação nº 2720 tenha oficializado seu nome apenas em 29 de novembro de 1968, a Rua Bingen é uma das artérias mais antigas e vitais para a formação de Petrópolis. Batizada em homenagem à cidade romana de Bingium, cujo nome deriva do celta e quer dizer, "buraco na rocha"., localizada às margens do Reno no então Grão-Ducado de Hesse , a via nasceu como o caminho central de um quarteirão colonial que margeava o rio Piabanha. Hoje compreendida entre as ruas Carlos Gomes, Paulino Afonso e Paulo Hervé, cada metro de seu asfalto guarda as dores, os triunfos e os mistérios de mais de um século e meio de história.

A saga do Bingen começou em 1845, quando vinte e oito famílias de colonos alemães fincaram suas raízes em doze prazos de terra batida. Nomes como Andréas Schweikart, Jacob Friderich Zerban, Bernard Pitzer e Wilhelm Philippi desbravaram as matas virgens construindo moradas precárias. Os primeiros tempos foram marcados pela fome crônica. Muitos imigrantes, sem vocação para a agricultura e sem os ofícios técnicos exigidos nas obras do Palácio Imperial, enfrentaram a miséria extrema; alguns abandonaram a colônia. Os que resistiram criaram gado leiteiro e porcos para o sustento. A fisionomia estritamente agrícola e germânica começou a mudar em 1857, quando a diretoria da Colônia mandou saibrar o caminho com areia grossa. Pouco depois, membros da corte, como o comendador Bernardes, e intelectuais, como o engenheiro Adriano Henrique Münsen, passaram a residir no local.

O século XX transformou o perfil da região com a chegada da indústria. Em maio de 1904, os irmãos Maxim e Hilmar Bernard Werner adquiriram terras do professor Frederico Stroelle e lançaram a pedra fundamental da Fábrica Werner. Em 20 de outubro daquele ano, às 7h da manhã, o apito da tecelagem ecoou pelo Bingen pela primeira vez. A Werner introduziu uma prática marcante na economia local: a instalação de teares manuais nas casas das operárias. As donas de casa teciam para complementar a renda familiar uma tradição que lançou as sementes da pujante indústria têxtil e de confecção caseira que define Petrópolis até os dias atuais.

À medida que o progresso avançava, o cotidiano da rua tornava-se cenário de crônicas policiais e tensões sociais. Em 1º de outubro de 1926, a Companhia Brasileira de Energia Elétrica (CBEE) inaugurou o transporte por "auto-omnibus", conectando o Bingen à Rua Piabanha. O ano de 1926, contudo, também ficou marcado pelo drama. No Carnaval, a jovem Maria Luíza, de 17 anos, foi raptada por um homem apelidado de “Alemão”. Meses depois, em 8 de setembro, a comunidade chocou-se com o brutal assassinato de um idoso negro conhecido como Pai Adão, que morava em um pequeno barraco à beira do caminho. Motivado pela superstição de que o idoso havia enfeitiçado sua esposa, o jovem João Theobald o executou sumariamente com dois tiros de espingarda.

As grandes correntes da história mundial também deixaram cicatrizes na rua. Em 18 de agosto de 1942, no auge da Segunda Guerra Mundial, o sentimento antigermânico inflamado por discursos nacionalistas fez com que manifestantes locais arrancassem as placas dos ônibus do Bingen, rebatizando a linha de "Araraquara" em homenagem ao navio mercante brasileiro torpedeado por alemães. A despeito do furor da época, a população ignorou a mudança e o nome original permaneceu intocado.

A força da natureza e a boemia também moldaram a identidade da via. Em 26 de março de 1945, uma tempestade avassaladora fez o Piabanha transbordar. As águas arrastaram as enormes toras de madeira da Carpintaria Winter, na famosa "Curva do Jóia" (relação direta com o icônico armazém da família italiana Gioia), destruindo pontes até a Westfália. A mesma enchente avariou o "Navio", uma exótica construção em formato de lancha erguida nos anos 1940 sobre uma pequena ilha fluvial. O local funcionou como restaurante e bar de luxo, colecionando lendas urbanas como a de que o célebre ator Grande Otelo teria sido jogado no rio após uma briga amorosa. O "Navio" resistiu até 1986, quando foi demolido para a duplicação da pista.

Nenhum capítulo, contudo, foi mais doloroso do que a tragédia de 22 de dezembro de 1959 no loteamento Vila Maria José. Durante os trabalhos de finalização de um poço de 25 metros de profundidade, o proprietário Guilherme Noel desceu à cisterna e desmaiou devido ao acúmulo invisível de gás carbônico. Seu sócio, Guilherme Blezer, e o operário Manuel tentaram o resgate e também pereceram. O chamado de socorro mobilizou o Corpo de Bombeiros, o Exército e a polícia. Num efeito dominó trágico, o sargento dos bombeiros Guilherme Paula de Lima e os soldados Hercílio Tardelli e Mário Cantor desceram sem o equipamento adequado e perderam as vidas. O pânico paralisou as forças de resgate até a chegada noturna de técnicos da CBEE com cilindros de oxigênio. O operário Pedro Estácio, demonstrando heroísmo incomum, desceu ao poço e içou os corpos dos seis mortos. O impacto da tragédia foi tão profundo que o poço foi imediatamente aterrado e, em homenagem, as vítimas batizaram as ruas do pacato loteamento, atualmente uma delas foi mudada por um nome, que nada tem haver com o quarteirão, “Hélio Gracie”.. infelizmente a políticatigem não anda junto com a História...

Hoje, a Rua Bingen é uma das principais portas de entrada de Petrópolis, movimentada por um forte comércio e fluxo constante. Mas sob a modernidade de seus galpões e lojas, ainda ressoam as vozes dos colonos de 1845, o apito das primeiras tecelãs e a memória daqueles que derramaram suor e sangue para erguer a comunidade.

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