Edição: sábado, 03 de outubro de 2026

Frederico Amaro Haack

COLUNISTA

Frederico Amaro Haack

ENTRE A NOBREZA E A CASERNA: AS METAMORFOSES DO QUARTEIRÃO PRESIDÊNCIA

De reduto do Visconde de Sepetiba e berço de colonos a "Vila Militar" e "Catinga do Bode", a história de um dos territórios mais peculiares de Petrópolis

A engenharia urbana e a sabedoria popular travam, muitas vezes, um duelo silencioso na cartografia das cidades. Em Petrópolis, pouquíssimos lugares ilustram tão bem esse fenômeno quanto o Quarteirão Presidência. Nascido oficialmente em 1849 como um desmembramento do Quarteirão Renânia Inferior, o território desenhado na histórica planta do engenheiro Otto Reymarus sofreu uma curiosa mutação na mente dos petropolitanos ao longo das décadas. Enquanto o "vulgo" jamais aceitou a sofisticada região do Valparaíso como parte da Presidência, as ruas Duque de Caxias, Itália, Elizabeth Tinoco, Bento
Gonçalves, Frederico Noel originalmente pertencentes ao Quarteirão Ingelheim foram prontamente adotadas pelo povo como o coração do bairro.

A própria denominação "Presidência" já quebrava a rígida tradição germânica que batizou a maioria dos quarteirões da colônia. O nome surgiu de uma concessão de terras ao então presidente da Província Fluminense, o influente senador Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho, mais tarde agraciado com o título de Visconde de Sepetiba. Homem forte da política imperial e líder da "Facção Áulica", o visconde deixou sua marca nominal em um solo que, logo em seguida, veria brotar o suor dos imigrantes europeus.

Nas dimensões e contornos originais da fundação da Imperial Colônia, o Quarteirão Presidência abrigou quinze pioneiros que receberam prazos de terras relativamente grandes. Colonos como Johannes Isaac Blanchoud, Nicholas Lucas, Margarite Woll, Johannes Peter Auler, Heindrich Sindorf, Nicholas Knibel, Peter Goettnauer, Adan Brandt, Christobal Klein, Louis Lucas, Josef Brandt, Wilhelm Sindorf, Johannes Peter Gregorius, Nicholas Rosembach e Michael Sixel desbravaram o loteamento. Muitos prosperaram de tal forma que seus sobrenomes cruzaram as barreiras dos séculos e ainda hoje ecoam com força na sociedade
petropolitana.

Geograficamente, a Presidência se desenvolveu em dois extremos bem distintos, batizados pela ironia ou pelo cotidiano dos moradores. A parte mais alta, outrora silenciosa, transformou-se radicalmente com a instalação de uma imponente caserna militar em 1922. A partir da década de 1940, com a introdução dos primeiros coletivos urbanos que ostentavam no letreiro o destino "Quartel da Presidência", a região foi sendo rebatizada pela população simplesmente como "Vila Militar", nome que carrega até os dias atuais.

Já a parte mais baixa, nos limites com o Quarteirão Ingelheim, ostentou durante as primeiras décadas do século XX um apelido bem menos afetuoso: "Catinga do Bode". A alcunha jocosa devia-se à presença pitoresca de um criador que mantinha no local os seus pouco cheirosos caprinos, impregnando a atmosfera da vizinhança. Cortando essa zona baixa, corre timidamente o Córrego De Lamare. Apesar de sua pequena extensão, o curso d’água é uma homenagem direta à família de origem francesa à qual o próprio Major Júlio Frederico Koeler uniu-se por matrimônio. O patriarca dessa linhagem no Brasil foi Rodrigo Antônio de Medeiros De Lamare, que integrou a histórica comitiva de D. João VI em 1808 e faleceu em 1837 como vice-almirante, iniciando uma tradição familiar que há gerações ornamenta as fileiras da Armada Nacional.

Assim, entre os títulos da nobreza imperial, a rigidez da Vila Militar, os nomes dos colonos e o folclore da "Catinga do Bode", o Quarteirão Presidência resiste ao tempo. É um mosaico vivo de Petrópolis, onde a história oficial das plantas engenhosas se curva, diariamente, à identidade esculpida pela própria população.

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