COLUNISTA
Situada no coração do Quarteirão Vila Imperial e emoldurada pela Rua Dr. Nélson de Sá Earp e pelas avenidas Roberto Silveira, Köeler e Barão do Amazonas, a Praça da Liberdade ostenta uma superfície de 21.275 metros quadrados. Trata-se da maior e mais emblemática área de lazer do centro histórico de Petrópolis, palco de transformações urbanas profundas, memórias bucólicas e crônicas marcantes da vida petropolitana.
Nas plantas originais do engenheiro Julius Köeler (1845) e do cartógrafo Reymarus (1851), o espaço foi batizado como Largo de D. Affonso. A denominação foi uma homenagem dos administradores da colônia ao filho primogênito e herdeiro do Trono
Imperial de Dom Pedro II, nascido em 1845 e falecido prematuramente em 11 de junho de 1847, com pouco mais de quatro anos.
Em seus primeiros anos, o largo era um quadrilátero vasto e sem qualquer tratamento paisagístico, estendendo-se por terrenos que hoje abrigam os edifícios de seu entorno e subindo pelas encostas da Avenida Barão do Amazonas. Cortado apenas por um caminho de terra central, o local sofria com o abandono: transformava-se em um pântano insalubre na curva do Rio Quitandinha, acumulando mato alto e mosquitos no verão e uma umidade severa no inverno.
Por mais de uma década, até 1857, o futuro cartão-postal operou como matadouro de bovinos e suínos para abastecer a crescente população da Imperial Colônia, consolidando sua reputação de área marginalizada pela administração pública.
A virada de chave para a urbanização do espaço ocorreu em 1885, quando o vereador Dr. Manoel Antônio Bordini propôs converter o antigo matadouro em um jardim público. Para iniciar os trabalhos, a municipalidade encomendou mudas de palmeiras imperiais ao Real Jardim Botânico do Rio de Janeiro, plantadas ao lado de paineiras e chorões.
Em 1886, a prefeitura trouxe a Petrópolis o renomado botânico e paisagista francês Auguste Marie Glaziou célebre por assinar os projetos da Quinta da Boa Vista e do Campo de Santana, na capital federal. Glaziou desenhou o novo traçado do Largo de Dom Affonso auxiliado por duas figuras locais:
Paralelamente, em 1879, o local ganhou o apelido popular de "Praça das Quatro Bicas". A alcunha surgiu após a instalação de um chafariz de granito com quatro torneiras, que servia para o fornecimento de água potável aos moradores das redondezas. A estrutura foi removida em 1893 com a implantação da rede de água encanada na cidade pelo Banco Construtor do Brasil, cujo sócio majoritário, o Dr. Franklin Sampaio, residia em um solar imponente que ainda emoldura a praça.
Ainda no século XIX, o entorno consolidou-se como reduto aristocrático, abrigando os casarões das famílias Hees (a pioneira), Landsberg, Grünevald e Passos, além das sedes das legações diplomáticas do Japão e da Bolívia, o tradicional Colégio do Professor Stroelle e o estúdio do fotógrafo Frank Nietsch.
Com a Proclamação da República, o espaço foi rebatizado como Praça da Liberdade por meio do decreto de 5 de dezembro de 1889, que baniu as homenagens à Família Imperial das vias públicas. A nova nomenclatura foi prontamente abraçada pelos petropolitanos, eclipsando a memória do príncipe Dom Affonso.
Em 1914, o presidente da Câmara Municipal, Coronel Arthur Barbosa, promoveu uma completa remodelação arquitetônica na praça:
Em 1923, com a morte do jurista e diplomata Rui Barbosa em sua residência na Avenida Ipiranga, a municipalidade alterou o nome da praça para homenageá-lo. No entanto, a força do hábito prevaleceu: a população ignorou a mudança oficial e continuou chamando o local exclusivamente de Praça da Liberdade.
As décadas de 1940 e 1950 converteram a praça no coração afetivo da infância petropolitana. Era a era das carrocinhas puxadas por bodes e dos cavalos de aluguel que passeavam calmamente por alamedas livres do tráfego caótico dos dias atuais.
Nos fins de semana, o "Velho Guarany" estendia uma tela branca entre as árvores ao cair da tarde para exibir desenhos animados e seriados de faroeste (bang-bang). As noites de sábado eram animadas por bailes populares inclusive carnavalescos e pelas apresentações do "Kling Show", um grupo de música sertaneja e teatro amador liderado pelo então vereador Salvador Kling.
O esporte também pulsava no local: entre 1947 e 1959, o Rinque Marowil sediava acirradas partidas do Campeonato Municipal de Hóquei Sobre Patins, arrastando multidões para torcer por clubes como o Atlântico, o Mocidade Hóquei Club e o Serrano F.C.
Em 1964, durante a gestão do prefeito Flávio Castrioto, a praça passou por sua reforma estrutural mais radical. O trecho da Avenida Roberto Silveira que cortava o parque ao meio foi extinto e integrado ao jardim, forçando os veículos a circularem apenas pelo entorno. O desenho da praça tornou-se arredondado, a área do rinque foi reduzida e o coreto acabou parcialmente soterrado e envolto por telas para dar lugar a um viveiro de pássaros.
O cativeiro das aves silvestres durou até a gestão do prefeito Bianor Martins Esteves (19801981), que, em um ato simbólico, abriu pessoalmente os portões do viveiro, libertou os pássaros e mandou retirar as telas. Apesar da libertação da fauna, o antigo coreto nunca recuperou sua integridade arquitetônica original, permanecendo com os alicerces sepultados pela terra.
A Praça da Liberdade abriga dois importantes marcos escultóricos que enriquecem seu patrimônio histórico. O mais antigo deles é o Monumento a José Tomás da Porciúncula, inaugurado em 16 de julho de 1922 em homenagem ao médico e político nascido em Petrópolis que presidiu o Estado do Rio de Janeiro. A imponente obra, esculpida por Lorenzo Petrucci e executada nas Oficinas de Domingos Nóvoa, foi confeccionada em bronze e granito local; possui uma altura total de 6,80 metros, sendo a estátua de corpo inteiro do homenageado dotada de 2,20 metros. Sua solenidade de inauguração foi um marco na época, contando com desfiles de diversas agremiações escolares e com uma expressiva comitiva de autoridades nacionais e locais. Já o segundo marco, bem mais recente, é o Monumento à Bíblia, inaugurado solenemente em 11 de novembro de 1977 pelo então prefeito Dr. Jamil Sabrá, com a presença de lideranças religiosas e legisladores. Projetado pela Marmoraria João Lopes e Cia. Ltda., o monumento consiste em um bloco de granito de 1,35 metro de altura assentado sobre uma base quadrada de 15 centímetros, ostentando no topo uma Bíblia aberta em bronze com as inscrições dos Salmos 119 ("Lâmpada para os meus pés") e 105 ("Luz para o meu caminho"), além de trazer gravados na parte frontal os nomes dos componentes de sua comissão promotora.
[1] Comitiva histórica presente em 1922: Comandante Leopoldo Moreira (rep. do presidente Arthur Bernardes), Dr. Álvaro de Freitas Guimarães, Dr. Eugênio Barcellos (prefeito interino), a viúva Porciúncula, o poeta Alberto de Oliveira, reverendo Theodoro Rocha, Dr. João de Barcellos, Dr. Álvaro Lopes de Castro, Dr. João de Carvalho, Manoel Alves Seabra, Arnaldo Teixeira de Azevedo, capitão José Lopes de Castro e Joaquim Heleodoro Gomes dos Santos. Escolas presentes: Escola Senador Porciúncula, Grupo de Escoteiros, Grupo Escolar Silva Jardim e Grupo Escolar D. Pedro II.
[2] Membros da Comissão da Bíblia (1977): Luiz Cesário da Silva (presidente), Madson P. de Carvalho, Célio de Lima Medeiros, Roberto Parreira da Silva, Nathanael Inácio Teixeira e os vereadores proponentes Paulo Pires de Oliveira e José Carlos Pércia dos Santos.
Como qualquer grande espaço público, a Praça da Liberdade foi cenário de contrastes dramáticos entre a comédia e a tragédia humana. Seus jardins testemunharam o florescer e o fim de inúmeros romances de gerações de petropolitanos.
As alamedas também guardam memórias sombrias, como a da tarde outonal de 8 de abril de 1968, quando a jovem de trinta anos, Iza Prata Rodrigues, pediu um copo de água no tradicional bar da praça, sentou-se a uma das mesas e ingeriu formicida, falecendo pouco depois de dar entrada no Pronto-Socorro.
Anos mais tarde, em maio de 1984, o esqueleto de concreto abandonado do antigo Hotel Majestic na emblemática esquina da praça com a Avenida Roberto Silveira servia de abrigo precário para três casais e dez crianças assistidas pela Secretaria Municipal de Apoio Comunitário. Destinos anônimos que, cruzando os caminhos da Praça da Liberdade, teceram a identidade e a história viva de Petrópolis.
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