Edição: sábado, 24 de outubro de 2026

Frederico Amaro Haack

COLUNISTA

Frederico Amaro Haack

PETRÓPOLIS EM 1861: UM RETRATO ADMINISTRATIVO E URBANO DA CIDADE

O Almanaque Laemmert de 1861 constitui uma das mais valiosas fontes para compreender a organização de Petrópolis durante o Segundo Reinado. Publicado anualmente, o almanaque registrava autoridades, repartições públicas, profissionais liberais, comerciantes, hotéis, escolas e os mais diversos ofícios existentes na cidade. Seu conteúdo revela uma Petrópolis ainda jovem, mas já plenamente estruturada como sede da Freguesia de São Pedro de Alcântara e importante centro administrativo da Província do Rio de Janeiro.

O governo municipal:

A Câmara Municipal era o principal órgão da administração local. Entre seus vereadores figuravam nomes que marcaram profundamente a história petropolitana, como Albino José de Siqueira, José Pinheiro de Siqueira, Augusto da Rocha Fragoso, Henrique Kopke e Tomás José da Porciúncula. A presidência da Câmara cabia a Albino José de Siqueira, enquanto a secretaria era exercida por Carlos Barros Falcão Cavalcanti de Albuquerque Lacerda, substituído interinamente por Frederico Damecke.

A Justiça encontrava-se organizada com o juiz de Direito Dr. José Caetano de Andrade Pinto, auxiliado pelo juiz municipal e de Órfãos Dr. João Carlos Garcia de Almeida, que também acumulava a função de delegado de Polícia. Essa acumulação de cargos era comum nas pequenas cidades do Império.

A segurança pública dividia Petrópolis em onze quarteirões, cada um fiscalizado por um inspetor responsável pela ordem local. Entre eles destacavam-se João Meyer, Lucas Antônio Vila-Real, Antônio Luís Campeão, Bento José Gomes e Francisco Inácio da Silva.

O sistema demonstra que, antes mesmo da criação dos bairros modernos, Petrópolis era administrada segundo os quarteirões planejados pelo major Júlio Frederico Koeler, preservando a lógica urbanística original da cidade imperial.

A Fazenda Imperial:

A presença da Casa Imperial era representada pela Superintendência da Fazenda Imperial, dirigida pelo tenente-coronel Vicente Marques Lisboa. Cabia ao órgão administrar os palácios, jardins, obras públicas e propriedades pertencentes à Coroa.

O mestre das obras do Palácio era José Francisco Dias, enquanto Maximiano José Gudehus exercia a função de apontador das obras, evidenciando a constante atividade de construção e manutenção da residência imperial.

Em 1861, Petrópolis possuía ensino público e escolas destinadas aos filhos dos colonos alemães.

Os professores públicos eram Jesuíno José Alves e Pedro Taborda Correia de Bulhões, enquanto a professora pública era Zeferina Josefa Pinto Bulhões.

Nas escolas da Colônia lecionavam nomes como Pedro Jacoby, Henrique Monken, Carlos Sager, Ana Maria Klaeser, Maria Beck e Martinho Dupont, distribuídos pelos quarteirões Nassau, Renânia e Rua do Imperador.

Havia ainda estabelecimentos particulares, entre eles o colégio feminino de Madame Cramer, na atual Avenida Ipiranga, e os colégios masculinos dirigidos por Henrique Kopke, Felisberto Alexandrino Drumond e Bernardo José Falletti.

Saúde pública:

O Hospital de Petrópolis contava com apenas dois médicos: Dr. José Tomás da Porciúncula e Dr. Napoleão Thouzet. Além deles, a instituição mantinha enfermeira, enfermeiro, ajudante e farmacêutico, compondo uma estrutura modesta, porém suficiente
para atender a população da época.

Duas “fármácias” funcionavam na Rua do Imperador, pertencentes a José da Cruz Pinto Júnior e José Antônio de Carvalho, sendo importantes centros de manipulação de medicamentos.

A Rua do Imperador consolidava-se como o grande eixo comercial da cidade. Nela encontravam-se negociantes como Andreas Fleschen, Bernardino de Araújo Costa Quissamã, Francisco Tavares Bastos, Leon Tridon e Vitorino Rodrigues de Figueiredo.

A hospedagem era garantida por hotéis bastante conhecidos, entre eles o Hotel de Bragança, o Hotel Inglês, o Hotel Oriental e o estabelecimento da Viúva Wiebecke, demonstrando o intenso movimento de viajantes entre a Corte e a serra.

Também existiam serviços de aluguel de carros para a subida da Serra da Estrela e para viagens à cidade do Rio de Janeiro, operados por empresas de João Meyer, Batista & Companhia e Baltar & Land.

Um dos aspectos mais fascinantes do almanaque é a enorme variedade de ofícios especializados existentes em Petrópolis.

Havia marceneiros, escultores, serralheiros, relojoeiros, seleiros, jardineiros, cutileiros, estofadores, perfumistas, chapeleiros, tanoeiros, funileiros e ourives. Entre os nomes registrados destacam-se Carlos Rittmeyer, Frederico Guilherme Cöllen, Luigi
Baronto, Carlos Spangenberg e João Batista Binot.

As fábricas de cerveja também merecem destaque. Funcionavam seis cervejarias pertencentes a José Bernasconi, Augusto Chedel, Henrique Kraemer, Timóteo Duriez, Joaquim Chedel e Pedro Gerhard, evidenciando a forte influência germânica na economia local.

O almanaque registra ainda a Sociedade de Indústria e Agricultura, composta por aproximadamente 150 membros, presidida por Augusto Rocha Fragoso. A instituição incentivava o desenvolvimento agrícola, industrial e científico da colônia, funcionando também como espaço de intercâmbio intelectual.

A vida religiosa era conduzida pelo vigário Padre Germain, enquanto a Irmandade do Santíssimo Sacramento tinha como provedor o tenente-coronel Vicente Marques Lisboa, demonstrando a estreita relação entre administração imperial e instituições religiosas.

O Almanaque Laemmert de 1861 oferece um verdadeiro retrato da Petrópolis imperial. Mais do que uma simples lista de nomes, o documento revela uma cidade cuidadosamente planejada, com administração eficiente, comércio dinâmico, intensa
atividade artesanal e forte presença da imigração europeia.

Ao percorrer seus registros, reencontramos personagens que construíram as bases da cidade e compreendemos como Petrópolis, apenas dezoito anos após sua fundação oficial, já possuía a complexidade urbana e institucional que a transformaria em uma das mais importantes cidades do Império do Brasil.

Referência bibliográfica:

ALMANAQUE LAEMMERT. Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro. Ano de 1861. Rio de Janeiro: Eduardo & Henrique Laemmert, 1861.

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