Edição: sábado, 31 de outubro de 2026

Frederico Amaro Haack

COLUNISTA

Frederico Amaro Haack

O DIA DE SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA EM 1845: QUANDO PETRÓPOLIS COMEÇAVA A SE TORNAR REALIDADE

Por ocasião do dia de São Pedro de Alcântara, celebrado em 19 de outubro, vale recordar um episódio pouco conhecido, mas de grande significado para a história de Petrópolis: as comemorações realizadas em 1845, quando a Imperial Colônia ainda dava seus primeiros passos.

Naquele ano, a povoação era uma realidade recente. O projeto de criação de Petrópolis havia sido estabelecido pelo Decreto Imperial de 16 de março de 1843, durante o reinado de D. Pedro II, e a chegada dos primeiros grandes contingentes de colonos germânicos, em 29 de junho de 1845, marcara uma nova etapa na ocupação do território. Era preciso construir casas, abrir caminhos, cultivar a terra e organizar a vida comunitária. Mas também era necessário criar vínculos, estabelecer tradições e dar significado àquela nova experiência de convivência.

A festa de São Pedro de Alcântara, realizada em outubro daquele ano, oferece um testemunho precioso desse momento.

São Pedro de Alcântara nasceu na Espanha, em 1499, e faleceu em 1562. Religioso franciscano, tornou-se conhecido pela vida de oração, pela austeridade e pelas reformas que promoveu na ordem religiosa a que pertencia. Foi amigo e conselheiro espiritual de Santa Teresa d’Ávila, uma das grandes figuras da espiritualidade católica.

Beatificado pelo papa Gregório XV, em 1622, foi canonizado pelo papa Clemente IX, em 1669. Sua devoção difundiu-se pelo mundo católico, chegando a ocupar lugar especial na tradição da monarquia brasileira.

A ligação com a família imperial era particularmente significativa. D. Pedro I escolheu São Pedro de Alcântara como padroeiro do Império do Brasil, escolha confirmada pelo papa Leão XII em 1826. O nome do santo também fazia parte do nome de batismo de D. Pedro II, reforçando a ligação entre a devoção religiosa e a tradição dinástica.

Em Petrópolis, essa relação adquiriu um significado próprio. São Pedro de Alcântara tornou-se o padroeiro da povoação que nascia sob a proteção e o patrocínio do imperador. Sua festa, portanto, não representava apenas uma celebração do calendário católico: constituía também uma ocasião para reunir os habitantes e afirmar os laços que começavam a
se estabelecer entre a nova comunidade e a Casa Imperial.

A melhor descrição da festa de 1845 chegou até nós por meio de uma carta de Paulo Barbosa da Silva, mordomo da Casa Imperial, dirigida a D. Pedro II.

Seu relato começa com uma frase que merece ser lembrada por todos os que se interessam pela história da cidade: “Petrópolis começa a ser não um sonho, mas uma realidade.”

A afirmação revela a impressão de quem acompanhava de perto o desenvolvimento da povoação. Petrópolis deixava de ser apenas um projeto urbanístico e administrativo para se transformar em uma comunidade habitada, com moradores, atividades produtivas e manifestações coletivas.

Paulo Barbosa descreve uma comemoração que começou na véspera do dia 19 de outubro. A casa em que as majestades imperiais haviam permanecido foi iluminada, e os colonos reuniram-se para participar de uma apresentação musical. Um grupo entoou um hino dedicado ao imperador D. Pedro II, à imperatriz e ao príncipe D. Afonso, utilizando a melodia do hino britânico God Save the King.

A execução emocionou o mordomo, que registrou sua admiração pela apresentação. A música, naquele contexto, não era apenas entretenimento: representava uma forma pública de homenagem à família imperial e de expressão do sentimento de pertencimento à nova comunidade.

Ao amanhecer do dia seguinte, foram disparadas 21 salvas, anunciando a festividade.

Às dez horas, segundo a estimativa registrada por Paulo Barbosa, a colônia reuniu mais de 2.500 pessoas. Os habitantes compareceram vestidos com suas melhores roupas e adornados com flores e palmas campestres.

Imagine-se a cena: homens, mulheres e crianças reunidos em uma povoação ainda em formação, cercada pela paisagem serrana, participando de uma solenidade que combinava religião, música, ornamentação e manifestações de entusiasmo.

Entre os presentes estavam o presidente da província, Paulo Barbosa da Silva, o major Júlio Frederico Koeler, o conselheiro Magalhães, um pastor protestante, um médico e outros cidadãos e funcionários.

A presença dessas pessoas revela a importância atribuída ao acontecimento. Não se tratava de uma cerimônia restrita a um pequeno grupo, mas de uma reunião que, segundo o documento, mobilizou amplamente os habitantes da colônia.

Depois da reunião dos colonos, a comitiva dirigiu-se à Praça da Confluência, onde havia sido preparado um altar com a imagem do Redentor.

Ali se realizou a cerimônia religiosa. O sacerdote pronunciou um sermão sobre o Evangelho do dia e, conforme o relato de Paulo Barbosa, exortou os presentes ao amor, ao respeito e à gratidão para com D. Pedro II.

A passagem é particularmente reveladora. A celebração religiosa estava associada à expressão pública de fidelidade ao imperador, figura central do projeto de criação e desenvolvimento da povoação.

A religião ocupava um lugar importante na sociedade brasileira do século XIX. As festas religiosas eram momentos de oração, mas também de encontro, sociabilidade e afirmação de valores compartilhados. Em Petrópolis, essa dimensão comunitária ganhava importância especial, pois os moradores estavam construindo suas relações em uma localidade que reunia pessoas de diferentes procedências.

A carta registra a emoção provocada pelo sermão. Paulo Barbosa afirma que viu lágrimas nos olhos dos presentes e que nem ele próprio ficou imune à comoção.

Em seguida, Aureliano deu vivas ao imperador. O mordomo descreveu a reação da multidão como algo extraordinário, destacando o entusiasmo de homens, mulheres e crianças.

É preciso considerar que estamos diante do testemunho de um funcionário da Casa Imperial, naturalmente favorável ao empreendimento que acompanhava. Ainda assim, sua narrativa permite perceber como a administração imperial desejava registrar aquele momento: como demonstração de que Petrópolis começava a constituir uma comunidade unida em torno
da religião e da figura do soberano.

A festividade também foi marcada pela realização de batismos. Paulo Barbosa relata que algumas crianças receberam o sacramento durante a cerimônia e que ele próprio, juntamente com Aureliano, atuou como padrinho.

Outras crianças seriam batizadas por ocasião de uma futura visita do imperador, conforme o desejo manifestado pelos moradores.

O episódio revela um aspecto interessante da vida social da época. O batismo não era apenas um rito religioso: constituía também uma ocasião de aproximação entre famílias e padrinhos, estabelecendo relações que podiam adquirir importância para a vida comunitária.

Nesse caso, a participação de integrantes ligados à administração imperial acrescentava um significado especial à cerimônia. A religião aproximava pessoas que, em outras circunstâncias, poderiam ocupar posições sociais bastante distintas.

Ao descrever a festa, Paulo Barbosa menciona ainda festões de flores, arcos de ramagens e cânticos religiosos. Depois do encerramento do ato, os colonos desfilaram diante das autoridades e retornaram às suas casas e cabanas.

Esses detalhes ajudam a reconstruir o ambiente da celebração. As flores e as ramagens, retiradas da própria natureza, transformavam a paisagem em cenário festivo. Os cânticos davam unidade à reunião, enquanto o desfile permitia que a comunidade se apresentasse publicamente diante das autoridades.

Em uma povoação tão recente, tais experiências contribuíam para formar uma memória compartilhada. A cidade não nascia apenas da abertura de ruas ou da construção de edifícios. Também se formava por meio de encontros, celebrações e relações humanas.

Ao final da carta, Paulo Barbosa faz uma observação que pode parecer simples, mas possui grande valor histórico. Ele afirma estar consumindo hortaliças cultivadas pelos colonos em lugares que, até então, desconhecia como áreas de cultivo.

A passagem demonstra que a vida da colônia começava a adquirir uma dimensão produtiva. Além de construir moradias e organizar a povoação, os habitantes trabalhavam a terra e desenvolviam atividades destinadas ao próprio sustento.

A referência às hortaliças revela o olhar atento do mordomo para os sinais concretos de desenvolvimento. O progresso de Petrópolis não estava apenas nos projetos concebidos pelas autoridades, mas também no trabalho cotidiano de seus moradores.

A festa religiosa e a produção agrícola aparecem, assim, lado a lado no mesmo documento. De um lado, a celebração do padroeiro; de outro, os resultados do esforço dos colonos para tornar habitável e produtivo o território.

É justamente essa combinação que confere especial interesse à carta: ela registra tanto a dimensão simbólica quanto a realidade material da povoação que começava a se consolidar.

O dia 19 de outubro de 1845 merece ser recordado como um episódio expressivo dos primeiros tempos da história petropolitana.

A carta de Paulo Barbosa da Silva revela uma comunidade que começava a se organizar em torno de práticas religiosas, relações sociais e símbolos políticos. A solenidade reuniu autoridades e moradores, promoveu batismos, apresentou cânticos e manifestações públicas de entusiasmo e deixou um registro significativo da vida da Imperial Colônia poucos meses após a chegada dos primeiros grandes contingentes de colonos germânicos.

É importante distinguir os diferentes marcos da formação da cidade. O ano de 1843 assinala sua criação administrativa; junho de 1845 marca a chegada de um contingente inicial expressivo de colonos; e outubro daquele ano documenta uma celebração que evidencia o desenvolvimento da vida comunitária.

Esses acontecimentos, longe de se excluírem, integram etapas distintas de um mesmo processo histórico.

A frase de Paulo Barbosa continua a sintetizar o significado daquele momento: “Petrópolis começa a ser não um sonho, mas uma realidade.”

Naquele 19 de outubro, a povoação ainda estava longe de apresentar a estrutura urbana que conheceríamos nas décadas seguintes. Contudo, já possuía moradores reunidos em torno de uma celebração, crianças recebendo o batismo, cânticos ecoando na praça e a terra começando a oferecer seus frutos.

Recordar essa festa é reconhecer que a história de Petrópolis também foi construída por esses momentos aparentemente simples, nos quais uma comunidade começa a se reconhecer como tal.

Ao celebrar São Pedro de Alcântara, os primeiros habitantes da Imperial Colônia não apenas homenageavam o padroeiro: participavam de um capítulo inicial da história social, religiosa e cultural de Petrópolis.

Edição: sábado, 31 de outubro de 2026

Veja também:




• Home
• Expediente
• Contato
 (24) 99993-1390
redacao@diariodepetropolis.com.br
Rua Joaquim Moreira, 106
Centro - Petrópolis
Cep: 25600-000

 Telefones:
(24) 98864-0574 - Administração
(24) 98865-1296 - Comercial
(24) 98864-0573 - Financeiro
(24) 99993-1390 - Redação
(24) 2235-7165 - Geral