Edição: sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Gastão Reis

COLUNISTA

Gastão Reis

POBRE NÃO NASCEU PARA ESTUDAR, LULA?


Em junho de 2014, eu publiquei nos jornais de Petrópolis um artigo intitulado “Lulices e Dilmices” para ressaltar as asneiras seriais de ambos. Pois bem, não é que Lula conseguiu se superar em vídeo recente em que ele brinda  a incauta plateia, aparentemente de pessoas pobres, com a seguinte pérola: “Pobre não nasceu para estudar, vocês nasceram só para trabalhar!”. E ainda recebeu aplausos, embora só de parte da plateia. Havia ali gente que pensa.

O quadro patético me relembrou, de imediato, de um trecho de um filme em que Stálin se dirigia a uma plateia de bestializados. Foram duas “pérolas”. A primeira foi a seguinte: “Quando a política o exigir, há que mentir, trair e até matar”. A segunda foi perniciosa: “Eu emancipo o homem da humilhante quimera da consciência.” O que ele estava defendendo era uma “humanidade” composta por robôs, que se comportam de acordo com a programação a que devem obedecer. É simplesmente a liquidação da essência do espírito humano.

O pobre que trabalha ao longo do dia e depois se dirige a uma escola noturna merece  todo o nosso respeito. Menos o de Lula, que lhe recomenda entender que nasceu para trabalhar. E que esse negócio de estudar é coisa de rico, que depois ainda vai  para o exterior fazer doutorado nos EUA, na França e em outros países.

Ao longo das décadas de 1960 e 1970, muitos brasileiros e brasileiras, que não eram ricos, através de bolsas de estudo oferecidas por entidades gover-namentais brasileiras, ou mesmo estrangeiras, foram se aperfeiçoar em universidades americanas e europeias. No caso da EMBRAPA Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, cerca de dois mil estudantes foram envia-dos aos EUA para se qualificarem em pesquisa agrícola e pecuária de ponta.

Nos anos 1972 e 1973, eu estava fazendo meu mestrado em Economia na EPGE/FGV, no Rio de Janeiro, e tive que fazer um trabalho sobre a produtividade agrícola no Brasil. Qual não foi a minha surpresa ao me deparar com os dados para 1970 de nossa produtividade por hectare em comparação com a americana. Ficava entre um quarto e quinto da americana nas mais diversas culturas.  Minha autoestima levou um soco no estômago.

Mas, nas décadas seguintes, através de pesquisas agrícolas de alto nível, o Brasil deu um salto qualitativo  em sua produtividade por hectare que hoje se compara e até supera! a americana. Nossa produtividade agrícola faz frente à dos americanos e europeus, que clamam por tarifas de proteção dada à sua dificuldade de competir. A fome que nos ameaçava no passado mudou para uma situação de obsidade de cerca de um terço de nossa população.

Vejamos, agora, o que países como Japão e Coreia do Sul, dentre outros, fizeram quando se deram conta de seu atraso relativo a países avançados em época passada. Simplesmente enviaram levas e mais levas de seus estudantes para se aperfeiçoarem no exterior, basicamente EUA e países europeus. Importante ressaltar que, naquela época, parte dos selecionados eram pobres, e nem por isso foram enviados para trabalhar ao invés de estudar, como aconselha Lula em um de seus diversos momentos de disparates agudos.

Quando Lula diz que pobre não precisa estudar, ele comete um ato falho. Ou será ato proposital?. E a razão é muito simples. É muito mais fácil manobrar politicamente pessoas que não aprenderam a pensar e se habituaram a obedecer ordens acriticamente. É bem verdade que algumas caras na plateia expressavam um semblante de discordância ao despropósito dito por ele. Provavelmente por se lembrarem dos pais lhes dizendo que estudassem para terem uma vida melhor do que a deles.

A formação, talvez deformação, intelectual de Lula vem de longa data. E, na medida em que ganhava popularidade e importância no plano político sem dar maior atenção ao preparo que deveria buscar, ele acabou concluindo que chegou lá sem ter que estudar. E chegou mesmo a se gabar do triste feito, dando um péssimo exemplo à juventude, mais fácil de enganar em função da inexperiência.

Ainda me recordo de um amigo competente que trabalhou comigo no Ministério do Planejamento em 1974, em Brasília. Conversa vai, conversa vem, um dia ele me falou de um conhecido dele que quando tinha que resolver alguma coisa, sempre repetia algo do tipo: “Você sabe, Heitor, que eu toco de ouvido. E sempre ouço você e seu cohecimento técnico com o devido respeito”. Tinha pelo menos a virtude de ouvir quem sabe.

Não é bem o caso de Lula. Em parte, ele lembra o conhecido do Heitor em termos de tocar de ouvido. Afinal, nunca foi muito chegado a ler. Dava sono, e sequer recorria a um café bem forte. A outra parte de ouvir respeitosamente quem sabe e detém conhecimento técnico, não parece ser a praia de Lula. Um bom exemplo é o caso do atual presidente do Banco Central (BC), o competente economista Gabriel Galípolo, que foi nomeado por Lula.

O presidente Lula atacava seu antecessor, Roberto Campos Neto, dia sim e outro também, por manter a Selic (taxa de juros) em nível muito elevado. Quando Galipolo assumiu, Lula deve ter sonhado que alguém nomeado por ele iria baixar a Selic na marreta. Mas Galipolo tem mandato de quatro anos, e não pode ser demitido. Além disso, estudou o suficiente para saber que não é possível baixar na marra a taxa de juros sem que o governo estabelecesse e cumprisse uma meta de corte significativo  de gasto público.

O presidente do BC sabe que Lula tem um caso de amor com a gastança desenfreada. Os déficits crescentes de seu governo, desde o primeiro ano, davam a Galipolo e aos diretores do Banco Central a certeza de que cortar gastos para aumentar a eficácia do setor público federal não teria vez na agenda de Lula. E foi assim que a Selic se manteve em 15% ao ano, para impedir que um processo inflacionário tomasse conta da economia brasileira. Responsáveis, sabiam que inflação elevada bateria mais duro nos pobres.

E foi assim que Lula deveria ter aprendido que, pobres e ricos, temos todos que estudar para evitar que pessoas despreparadas como ele venham a fazer os estragos que a Dilma só conseguiu em parte.

Nota: Digite no Google “Entrevista com Gastão Reis: Quando o Brasil perdeu o rumo da História”. Ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=gtg4NGdjBbQ&t=20s


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