COLUNISTA
Ainda me recordo bem, cerca de 15 anos atrás, de uma experiência de trânsito civilizado. Fui visitar meu filho que fazia doutorado na Universidade de Illinois, localizada numa pequena cidade dos EUA. A primeira vez que saímos de carro com ele dirigindo, paramos numa encruzilhada em ângulo reto. Notei que havia carros que paravam ao chegar em cada ponto do cruzamento. E não tinha sinal. Eu lhe perguntei como os motoristas se entendiam para saber quem avançava primeiro.
Ele me disse que quem chegava na encruzilhada parava, olhava para ver quem chegou primeiro, depois em segundo e assim sucessivamente. O motorista do carro que chegou primeiro tinha preferência, depois o seguinte na ordem de chegada e assim por diante. Em inglês, era conhecido como “four ways” (quatro caminhos). Confesso que fiquei um tanto apreensivo, na dúvida para verificar se o combinado ia funcionar. E não deu outra funcionava!
Essa experiência de trânsito civilizado me ficou na memória. Uma proposta no mesmo espírito deveria ser pensada para as nossas ciadades. Sabemos que a quantidade de motos aumentou muito nos últimos anos em todo o Brasil, com taxas exponenciais de crescimento das vendas. Casais resolveram se livrar do complicado transporte público, adquirindo uma moto. Mesmo sabendo dos riscos, a rapidez do deslocamento e o baixo custo da moto agradaram à muita gente cansada da morosidade e desconforto dos ônibus.
Ainda me lembro de uma reunião na CPTrans Companhia Petropolitana
de Trânsito e Transportes de um proprietário de empresa de ônibus nos dizendo que nunca imaginou que as motos um dia pudessem ser seus duros concorrentes. Por outro lado, mudanças quantitativas levam a mudanças qualitativas. Ou seja, a abordagem do problema em tela tem que ter um novo enfoque para ser entendido de modo a solucionar a nova situação.
Ninguém tem dúvida de que as motos vieram para ficar. É claro que os motoristas de carro reclamam, com certa razão, da afoiteza de quem pilota uma moto descuidadamene. Existem aquele(a)s que parecem não se dar conta de que correm, todo dia, risco de vida. Afinal, seu corpo é seu próprio para-choque. Os acidentes de moto vêm crescendo, inclusive com casos fatais, de modo preocupante. Como, então, conciliar o deslocamento mais rápido das motos em relação aos carros de modo civilizado e seguro?
Venho observando o problema há alguns meses. E noto que existe uma pista que poderia ser bem usada se houver colaboração mútua entre as partes interessadas. Moro em Itaipava, e me desloco de duas a três vezes por semana para ir até à sede da empresa no bairro Quissamã, próximo ao centro de Petrópolis, onde passo parte do dia. Ao longo do tempo, eu me dei conta de que cada pista de ida e volta a Petrópolis na estrada União & Indústria tem 3 metros de largura.
Para faciltar a vida de quem conduz uma moto, passei a me aproximar mais da faixa à minha direita, já que a largura de um carro é em torno de 1,5 metros. Ainda assim, eu ficava com cerca de dois metros de espaço à minha disposição. Esta decisão permite a quem dirige uma moto me ultrapassar sem ter que invadir a contramão, evitando riscos a si próprio e a quem vem em sentido contrário. Noto que, aos poucos, isto vem sendo feito por alguns motoristas.
Observo também que os motoristas em Petrópolis têm, aos poucos, incorporado hábitos civilizados ao volante. Ceder a vez, por exemplo, a quem quer dobrar à esquerda em direção contrária à sua. Deixar de fazer isso, faz com que uma longa fila de carros se forme atrás daquele carro que precisa dobrar à esquerda. É um pequeno gesto inteligente que não significa necessariamente perda de tempo quando se leva em conta que os carros à frente podem estar parados ou se movendo lentamente.
Tenho notado também que quando alguém está manobrando, o motorista que está indo em direção contrária, tem a paciência de aguardar um pouco até que ele termine para seguir em frente. Mais de 20 anos trás, alguém me relatou a reação de uma turma de colegiais do Rio de Janeiro que estava visitando Petrópolis. O grupo já tinha ido o Museu Imperial, mas a lembrança dos alunos não foi a beleza das joias da Coroa, e sim o fato de terem achado curioso que os carros parassem nas faixas para os pedestres. Pelo jeito, este hábito civilizado petropolitano já vem de um bom tempo atrás.
É muito comum ouvir um “muito obrigado!” ao dar passagem a quem vai entrar num elevador, em especial quando se trata de idosos. Os mais jovens fazem o mesmo muitas vezes. Como tenho uma longa ligação com o turismo de Petrópolis, já ouvi comentários de visitantes e turistas de que petropolitanos e petropolitanas são educado(a)s quando lhes solicitam alguma informação. Nessa área, nosso(a)s guias de turismos vêm fazendo um belo trabalho.
Mas, retomando a proposta inicial, seria muito bom que dirigir mais à direita não precisasse de algo parecido como uma nova lei. Até mesmo porque tal medida iria requerer acréscimos ao Código Nacional de Trânsito, cuja esfera é federal. Bastaria apenas que motoristas e condutores de moto colaborassem para colocar em prática esta sugestão. Ao que sei, o four-ways (quatro caminhos), método de ordenação do trânsito urbano lá naquela pequena cidade americana, foi espontâneo e resultou do interesse mútuo de todos.
Aqui poderia ser chamado de deslocamento á direita, ou ainda DD, para simplificar. Como sabemos, em épocas passadas, ao longo do Império e da república até 1960, Petrópolis virava a capital do País por três meses no verão. A Corte subia a serra e os presidentes da república vinham para Petrópolis fugindo do calor do Rio de Janeiro. Decisões importantes para o País como um todo foram tomadas aqui. O Tratado de Petrópolis, a compra do Acre da Bolívia, por exemplo, foi assinado no clima ameno de Petrópolis em novembro de 1903.
Em contrapartida, condutores de moto poderiam buzinar na medida certa e lembrar que motos e carros não estão incluídos entre os veículos que têm preferência nas vias urbanas. Nada como um trânsito civilizado e seguro.
E seria muito prático que a moda DD pegasse Brasil afora.
Nota: Digite no Google “Dois Minutos com Gastão Reis: A reação do Brasil profundo”. Ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=Bytk5mwEm90
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