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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026


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Gastão Reis

COLUNISTA

Gastão Reis

UMA ENTREVISTA COM DOM JOÃO VI


Dom João VI, o Clemente, cognome que diz muito sobre quem ele era como pessoa, faleceu em 1826, envenenado por uma dose cavalar de arsênico, fato comprovado por teste de laboratório no ano 2000. O ano de 2026 é o do bicentenário de sua morte. A despeito deste fim trágico, foi uma vida em que os sucessos e realizações de sua passagem pelo mundo terrestre deixaram sua marca na história mundial, na de Portugal e, em especial, na do Brasil.

Do mesmo modo, como consegui entrevistar Dom Pedro II, a farta documentação existente a seu respeito permite montar uma entrevista com respostas muito próximas àquelas que ele daria vivo fosse. Melhor ainda: fazer lhe justiça em relação ao que ele realmente foi como ser humano e monarca. É também uma forma de resgatar nossa dívida com ele em relação à grande obra que aqui realizou em benefício de brasileiras e brasileiros. Vamos a ela.

P1 Bom dia, Majestade! Tudo bem?

R1 Agora, sim. A minha morte por envenenemento foi trágica e dolorosa pelas convulsões que tive, mas foi recompensada pela paz de que gozo junto ao Criador, cuja bondade ao me receber me comoveu e me fez esquecer minhas agruras terrenas. Confesso que não encontrei a Carlota Joaquina por aqui.

P2 Pretendo centrar a entrevista, Dom João, no período em que viveu no Brasil, de 1808 a 1821, do qual certamente guarda gratas lembranças. O que motivou sua decisão de vir para o Brasil com cerca de 15 mil pessoas, que incluía praticamnete toda a corte portuguesa?

R2 A verdade é que transferir a sede do governo português para o Brasil era um anseio antigo dos governantes portugueses por verem no Brasil a possibilidade de um grande futuro. O que ocorreu é que as circunstâncias, em 1807, oriundas das decisões ditatoriais de Napoleão, me levaram a optar pelo Brasil como forma de manter altiva a cabeça do Império Português sem ter que me ajoelhar diante dele, como foi o caso de outros monarcas europeus. Ele sentiu o golpe ao afirmar a meu respeito: “Foi o único que me enganou”.

P3 Curiosamente, Dom João, corre no Brasil uma versão desinformada a seu respeito de que era medroso, fujão e glutão. Isto procede, Majestade?

R3 A única coisa correta foi quanto ao glutão. Quanto ao fujão e medroso, cabe esclarecer o seguinte. Não se tratou de fuga, mas de retirada  estratégica, reconhecida pelo próprio Napoleão. Ao chegar ao Brasil, uma das minhas primeiras providências foi a de ocupar a Guiana Francesa. Quanto ao medroso, todos nós temos nossos medos, mas o verdadeiro medroso é aquele que se deixa congelar, sem agir, pelo medo. Nâo foi o meu caso. Coloquei em risco minha própria dinastia na travessia do Atlântico. Só com muita coragem é que se toma uma decisão como esta.

P4 Em sua vinda para o Brasil, muitos foram os benefícios trazidos em termos de desenvolvimento do País, fato reconhecido pelos historiadores. Mas houve mesmo a transferência de riqueza monetária para o Brasil? Qual foi?

R4 Fiquei muito feliz ao tomar conhecimento da obra de Roberto Simonsen, “História Econômica do Brasil”, nas páginas 392 e 393, da sexta edição, em que afirma que transportei para o Brasil cerca de 200 milhões de cruzados em dinheiro vivo, na época, pouco mais que a metade do meio circulante português. Noto que fui acusado de raspar os cofres brasileiros ao regressar, quando levei de volta 50 milhões. A estes, aconselho a fazer os cálculos e reconhecer o saldo gigantesco de 150 milhões que ficou no Brasil.

P5 Alguma coisa a mais na obra de Roberto Simonsen lhe chamou a atenção?

R5 Certamente. Foi quando ele afirmou, com base em números, que, em 1808, a população do Brasil era semelhante a de Portugal e que o PIB de ambos também se equiparavam. Logo, em termos de renda per capita, também.  Na verdade, era como se tivéssimos construído outro Portugal no outro lado do Atlântico. Sem dúvida, uma empreitada bem sucedida. A escravidão, na época, era vistacomo coisa normal. Ninguém queria ser escravo, mas todos almejavam tê-los. Só depois, é que se tornou, felizmente, inaceitável.

P6 Como era o seu dia a dia no Brasil entre 1808 e 1821, período em que realizou sua monumental obra na terra brasilis?

R6 Não obstante o reconhecimento de meu exaustivo dia de trabalho, acordando de madrugada e deitando tarde da noite por historiadres brasileiros, há também os brasilianistas, que afirmavam o mesmo. Neill Macaulay, dentre outros, em seu livro intitulado “Dom Pedro I”, me trata de modo justo e respeitoso, reconhecendo que dei o melhor de mim pelo progresso do Brasil

P7 E como foi recebido  pela população brasileira quando aqui chegou em 7 de janeiro de 1808?

R7 Fui recebido pela população do Rio de Janeiro, digamos, de modo apoteótico tal era a alegria manifestada pelas pessoas na caminhada que fiz pela então Rua do Rosário em direção à Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, onde foi celebrado um Te Deum em agradecimento pela nossa chegada, sãos e salvos, após a travessia do Atlântico, no Rio de Janeiro.

P8 E como era o seu contato no dia a dia  com a população da cidade?

R8 Trouxe comigo uma tradição portuguesa de ouvir toda semana quem quisesse falar comigo, inclusive escravos. Existe mesmo um quadro em que um negro aparece na fila de atendimento. Esta tradição de ouvir o povo semanalmente foi mantida por meu filho, Pedro I, e por meu neto, Pedro II. E muito contribuiu para o clima de tranquilidade e respeito ao povo demonstrado por eles e por mim.

P9 Quais são as suas impressões sobre o Brasil de hoje?

R9 Aqui onde estamos, Deus nos dá a graça de acompanhar o que acontece no mundo após a nossa morte. Confesso que estou desolado com o quadro político-institucional do País. Jamais vi o Brasil tão sem rumo em que os dirigentes, em especial o STF, adotam posturas de desrespeito à constituição e ao próprio Povo Brasileiro ao tratá-lo de modo autoritário e fazendo vita grossa para a corrupção ampla, geral e irrestrita que tomou  conta dos poderes da dita república. Rezo, todo dia, fervorosamente, pelo Brasil, inclusive para votar bem nas eleições deste ano.


Nota: Digite no Google título da minha palestra “O legado da herança luso-afro-indígena”. Ou link: https://www.youtube.com/watch?v=uuLxB3Mysns&t=22s

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