Edição: sexta-feira, 03 de julho de 2026

Gastão Reis

COLUNISTA

Gastão Reis

O CUSTO BRUTAL DA DESEDUCAÇÃO NO PATROPI


Vira mexe, mexe vira, volta à tona na mídia a questão da baixa qualidade da educação nacional. Pior: medidas são tomadas para ficar pior ainda como a aprovação automática, mesmo que o aluno seja reprovado em até seis (6!) matérias, em estados como o Rio de Janeiro. Outros se satisfazem com números como cinco, quatro ou três disciplinas em que o aluno não conseguiu ser bem-sucedido. E foi assim  que   “melhoraram”  sua  posição  no  IDEB Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. Inacreditável!

Trata-se de um caso esquizofrênico em que se acaba com a febre, utilizando um termômetro defeituoso estacionado em 36,5 graus. O absurdo do autoengano de vários estados foi fazer de conta que estavam tomando medidas sérias para atingir melhorias efetivas na educação. É evidente que tais estratégias não funcionam a longo prazo. O aluno acaba concluindo o ensino básico com deficiências gritantes em sua formação nas diversas áreas.

Em artigo meu anterior, eu levantei a questão da queda do QI observada nos últimos dez anos no Patropi. É reconhecido o fato de que QI não reflete apenas herança de fatores genéticos. Políticas educacionais de boa qualidade e bem direcionadas conseguiram ganhos significativos de QI em outros países. Levantamemtos internacionais apontam nessa direção. E, obviamnete, na direção oposta em países, como o Brasil, que passaram a desqualificar seu processo de ensino básico, cujos efeitos trágicos se revelam no ensino superior.

Como tais políticas de aprovação automática vêm sendo mantidas há décadas, passou a ser evidente seu efeito pernicioso quanto à queda do nossso QI médio. O inverso ocorre nos países com a cabeça no lugar, como Portugal, cujo QI médio vem aumentando face à boa qualidade de seu ensino. A França, em dado momento, resolveu afrouxar seus critérios de exigência quanto ao desempenho dos alunos. Pouco depois, verificou que não funcionou. E retornou aos rigorosos padrões de desempenho anteriores.

Na verdade, seguimos a rota equivocada de misturar ensino médio de má qualidade com baixa exigência no nível de desempenho dos alunos. É como acreditar em bons resultados sem esforço. A excelência de resultados de atletas brasileiras em ginática olímpica sempre foram obtidos com exercícios extenuantes para chegar ao topo. Bons resultados no ensino médio exigem qualidade de ensino com professores qualificados e atitude de responsabilidade do aluno quanto ao seu desempenho. Moleza e mediocridade andam de mãos dadas.

Fugindo do aqui e agora, e voltando no tempo ao século XIX, a cidade do Rio de Janeiro ofereceu um belo espetáculo em termos de educação pública de elevada qualidade. Para começo de conversa, os professores do ensino médio ganhavam o triplo em termos reais do que ganham hoje. Além disso, houve uma explosão de escolas públicas sob a batuta de D. Pedro II a que tiveram acesso pessoas de origem africana livres.  Por volta de 1860, cerca de mais da metade de descendentes de africanos na cidade já era livre. Ou seja, não é de espantar a presença de negros e mulatos de destaque na imprensa e em outras profissiões como direito, medicina e engenharia, já no tempo do Império.

Cabe registrar ainda a pesquisa da Prof. Maria Lúcia Rodrigues Müller, da Universidade Federal de Mato Grosso, que confirma o desmonte do que foi descrito no parágrafo anterior. Educadores e alunos negros foram, paulatina-mente, expulsos do magistério na Primeira República. Foi o resultado direto da política seguida na época de embranquecimento da população, nascida com a república, que via nesta medida a saída para o país.No artigo publicado por ela em O Globo, de 9/12/2008, ‘Cadê a elite negra na educação?”, ela põe o dedo na ferida. As fotos de formatura da então famosa Escola Normal do Rio de Janeiro e de Mato Grosso retratam o desaparecimento progressivo de professo-res negros inclusive de cargos de direção bem como de aluno(a)s negro(a)s.

É interessante observar que nas últimas décadas esse tipo de decadência coincide com a presença de Lula, Dilma e PT nos poderes executivos federal, estaduais e municipais. Nivelar por baixo foi uma política levada adiante por uma razão muito simples. O objetivo dos dono do poder era de criar laços de dependência das pessoas aos governos nos três níveis de (des)governo. É fato que esta mentalidade torta de deseducar para controlar de modo mais fácil a população é uma prática antiga da república em mais uma de suas distorções desinformadas e prejudiciais ao País a longo prazo.

Ainda me recordo do que me relatou um grande amigo por volta de 1993 na campanha pela monarquia parlamentar. Ele sempre acompanhava um dos príncipes que mais lutou pela Causa. A importância dada pelo príncipe e por ele à educação básica de qualidade junto a políticos e prefeitos de municípios do interior de São Paulo era frustrante. Cansaram de ouvir como resposta que educação de qualidade iria impedir que eles mantivessem o controle do eleitorado. Burrice? Sim, e do tipo agudo.

É algo da mesma família que impede, por exemplo, o combate para valer à desiguladade no Brasil. Entra década, sai década, e a coisa não muda. É perfeitamente possível deter uma parcela percentual da renda nacional bem abaixo dos 50% pelos 10% mais ricos e ainda assim ser mais rico em termos absolutos. É o que ocorre com países como Holanda, Inglaterra e Espanha, na apropriação da renda nacional entre 21 e 34% pelos 10% mais ricos compatível com uma renda real per capita muito elevada medida pelo método do PPC Paridade do Poder de Compra. A renda real per capita dos referidos países é de quatro a  oito vezes maior do que a brasileira, que gira em torno de 12 mil dólares pelo PPC.

Pelo jeito foi um estrago causado, em boa medida, pela queda do QI médio da população, que certamente também ocorreu com os 10% mais ricos. A opção nada inteligente dos mais ricos no Brasil foi também uma escolha de ser menos ricos em termos absolutos. Burrice e incompetência agudas, diria Roberto Campos. E com razão.

Nota: No Google “Dois Minutos com Gastão Reis: Humildade para aprender”. Ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=s_oAVkiL6nU&t=12s

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