COLUNISTA
A visão do aqui e agora vigente na imprensa, nas rádios e na televisão acaba impedindo de irmos mais fundo na explicação da desconjuntura em que estamos mergulhados, suas causas e consequências danosas. O hoje pode ser o inimigo do ontem e do próprio futuro. Com frequência, é dito que não tem mais jeito, que o Brasil foi sempre assim. Examinemos se este quadro de desânimo e fatalismo foi a marca de nossa História ao longo dos tempos.
A obra de Roberto Simonsen, “História Econômica do Brasil”, 6ª edição, 1969, pela Cia. Editora Nacional, baseada em estatísticas fidedignas, com os quais ele lidava com maestria por sua formação de engenheiro, nos fornece um guia seguro de nossa trajetória histórica desde os tempos da colônia. Duas observações dele, com base empírica, merecem registro. A primeira é que a economia brasileira, quando D. João VI chegou em 1808, tinha o mesmo PIB e a mesma população de Portugal. Portanto, a mesma renda per capita, que era a mesma dos EUA na época. A segunda é que o monarca português trouxe para o Brasil 200 milhões de cruzados, pouco mais da metade do meio circulante português. Ao voltar, levou 50 milhões, deixando um saldo favorável ao País de 150 milhões, fora a formidável obra de desenvolvimento realizada.
A partir destas informações é lícito concluir que quem ocupava cargos políticos na época deu conta do recado, não obstante a narrativa tradicional de que só havia corrupção e bagunça desde o início da colonização portuguesa. Eleições regulares a cada três anos eram rotineiras, com as câmaras munici-pais retendo 70 cruzados de cada 100 arrecadados, e o prefeito era o vereador mais votado. Hoje, ficam apenas 20 de cada 100 reais arrecadados localmente.
No período do Império (1822-1889), a historiografia tradicional consolidada nos informava que o crescimento da renda real per capita foi pífio. Felizmente, a pesquisa dos Profs. E. Bacha, G. Tombolo e F. Versiani, “Secular stagnation? A new view on Brazil´s growth in the 19th century” (Estagnação secular? Uma nova visão sobre o crescimento do Brasil no século XIX), publicada no Journal of Iberian and Latin American Economic History, em setembro de 2025, nos fornece uma estimativa fundamentada de que nossa renda real per capita no período imperial cresceu 0,9% ao ano, que era o que a Europa e a América Espanhola cresciam naqueles tempos.
Outro dado importante esquecido foi que o orçamento do Império sob D. Pedro II, nos quase 50 anos de seu reinado, decuplicou ao passo que a população apenas dobrou. Logo, falta base empírica para a narrativa de um crescimento pífio. Houve mesmo economista renomado afirmando que a renda real per capita só cresceu 5% ao longo do Império(!). Logo, o desempenho dos dos políticos se portou do mesmo modo de seus congêneres europeus e latino-americanos. A narrativa, por vezes baseada em observações desabonadoras feitas por Machado de Assis sobre a elite imperial, também não se sustenta. Os políticos de então alforriaram via leis abolicionistas 80% dos descendentes de africanos, fato único no mundo, e a Lei Áurea libertou os 20% ainda escravos.
A partir do golpe de Estado que proclamou a dita república é que o papel dos políticos começa a se deteriorar rapidamente. O respeito ao povo nas audiências semanais, que incluiam escravos, e ao dinheiro público, típicos do período monárquico, perderam prioridade. Uma das primeiras medidas do Mal. Deodoro foi dobrar seu próprio salário e criar benesses para os militares.
Mas o que marcou o início da república, entre 1889 e 1991, foi o Encilhamneto, uma desastrosa política econômica e financeira sob a batuta do então ministro da Fazenda, Ruy Barbosa. Emissão desenfreada de papel-moeda e facilitação do crédito deram com os burros n’água em prejuízo dos muitos que acreditaram, tendo como resultado uma situação em que o PIB per capita mergulhou a ponto de a década de 1890 ter sido perdida. E aqui podemos constatar o início da queda acentuada da qualidade dos políticos já no início da suposta república.
Desde 1889 até 1991, um século, o desempenho dos políticos brasileiros vem piorando em termos de qualidade. Alguns números comprovam a instabilidade crônica da república: 7 constituições diferentes; 9 governos autoritários; 4 presidentes depostos; 12 estados de sítio; 19 rebeliões militares; vários períodos de censura à imprensa (jamais ocorridos no Império); dois longos períodos ditatoriais (Vargas e 1964-1985) etc.
Desde 1980, o Brasil vem contabilizando décadas perdidas em tom maior ou menor e um processo de corrupção crônico em todos os níveis de governo, federal, estaduais e municipais, bem como no Judiciário e no poder legislativo. No Judiciário, os tribunais descumprem os limites dos penduricalhos definidos pelo STF de 35% acima dos salários de ministros do STF. Poderiam assim atingir R$ 68.600,00 mensais, bem acima dos proventos dos próprios ministros do STF, tidos como o máximo que um servidor público deveria receber.
Nas últimas décadas, em que Lula e PT foram protagonistas de primeira grandeza, o respeito ao dinheiro público simplesmente desapareceu. Os salários da alta burocracia, em especial no Judiciário, extrapolaram qualquer limite legal com casos de juízes recebendo mais de cem mil reais por mês com casos absurdos de contracheques de até um milhão de reais divulgados pelo canal da CNN. E muita corrupção e inversão de valores.
O que se constata é que, com raras exceções, a qualidade do político brasileiro beijou a lona quando se trata de ter o devido respeito ao povo e ao dinheiro público. O mais trágico é a lerdeza das medidas corretivas sempre tardias e desrespeitadas na prática por tribunais e pelos próprios poderes públicos dos legislativos e dos executivos em suas gastanças desenfreadas, quando deveriam zelar pelo bem comum e aplicação eficiente dos impostos.
Onde foi parar a qualidade do político republicano no Patropi? Ninguém sabe, ninguem viu. Tarda a hora de uma reforma constitucional que recoloque o interesse público em primeiro lugar.
Nota: No Google “Dois Minutos com Gastão Reis: Políticos: Você no controle”. Ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=pB8MRrtGRPs&t=24s
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