Edição: sexta-feira, 17 de julho de 2026

Gastão Reis

COLUNISTA

Gastão Reis

A DESMEMÓRIA NACIONAL EM NOSSAS NOTAS E MOEDAS


Será que nossa memória nacional virou uma página em branco? Eu me fiz esta pergunta quando resolvi fazer uma pesquisa internacional sobre notas e moedas de diversos países do mundo em contraposição às nossas. Confesso que não me surpreendi com os resultados. Praticamente todos os países do mundo colocam fotos em suas notas de grandes vultos de sua história como forma de manter sua memória viva. A única exceção foi o Brasil que teve a brilhante ideia de homenagear outros seres como os animais e até edifícios como o prédio do Banco Central em Brasília.

É difícil imaginar qual foi a mente iluminada que propôs esta mudança sui generis para o país face ao padrão internacional. Muito provavelmente, nem lhe passou pela cabeça (ou cabeças, sendo mais de um) em verificar como era o padrão dos demais países do planeta. Vejamos a configuração de algumas de nossas notas e moedas.

A primeira coisa que salta aos olhos é uma imagem de um rosto feminino envolto em louros representando a suposta república. Se observarmos detidamente a fisionomia ali estampanda, ela nos passa a sensação de estar com o estômago embrulhado. Para piorar, os olhos, num primeiro momento, parecem estrar fechados. A mensagem implícita é de desconforto facial combinado como uma expressão do tipo “não quero nem ver”, dada a situação da república na atual quadratura do Patropi.

A nota de maior valor, a de 200 reais, além do rosto de face da república, sempre presente, traz no verso a figura de um lobo-guará em movimento, provavelmente pensando com os seus botões: “Aqui não é o meu lugar”. O lobo deve ter ficado constrangido quando soube que D. Pedro I, defensor perpétuo do Brasil e responsável pelo Grito do Ypiranga, que nos separou de Portugal, está “homenageado” numa pequena moeda de apenas 10 centavos. É evidente a desproporção das homenagens, tendo em vista o que cada um fez pelo País. Sem desdouro algum, o logo-guará não ficaria entristecido na moeda de 10 centavos.

Vamos adiante. A moeda de 50 centavos aparentemente homenageia o Barão do Rio Branco, o estadista que, sem disparar um único tiro, acrescentou ao território nacional cerca de um milhão de km2. Ou seja, o Brasil teria hoje 7,5 milhões de km2, com reduçaõ de quase 12% de seu território. Só isso tudo! O Barão não mereceu ter seu rosto estampado em nenhuma de nossas notas. O reconhecimento recebido foi o (quase) esquecimento. Na prática, as pessoas só olham para a moeda para ver se é de 50 centavos. A cara, a despeito de ficar  no anverso, face principal, sequer é contemplada no dia a dia. E, para piorar, não tem nada escrito que o identifique.

A nota de 100 reais, a segunda de maior valor, traz, como sempre no anverso, a cara da república e no verso uma garoupa, um belo peixe marinho nadando. E provavelmente em direção a uma caverna quando ele se lembra da injustiça cometida contra o Barão do Rio Branco. Na nota de 50 reais, a paisagem não muda muito. No verso, aparece uma onça. Nas de 20, 10, 5 e 2 dois reais, surgem, respectivamente,os seguintes animais: o mico leão dourado, uma arara, uma garça e uma tartaruga marítima. Nada contra nenhum deles, pelo contrário, mas políticas públicas efetivas de preservação e fiscalização seriam bem mais efetivas na sua preservação do que sua exposiçao nas notas.

Curiosamente, essa reconfiguração de nossas notas e moedas, que no passado homenageavam vultos como D. Pedro I, D. Pedro II, Princesa Isabel, Barão do Rio Branco, dentre outros, foi modificada sem levar em conta a importância de preservar nossa memória histórica. Trata-se de uma originalidade capenga no tempo e no espaço. A nota de maior valor, de 200 reais, foi engendrada em gabinetes de Brasília sem dar ouvidos a não ser aos que a propuseram.

Tarda a hora de nos perguntarmos a razão dessa estranha originalidade. Até hoje, ela não foi acompanhada pelos demais países do globo ao longo do mais de meio século de existência do real. Ou, quando o foi, apenas em pequena parte. Existem mesmo casos curiosos, como o da Austrália, que traz a foto da rainha Elizabeth II em sua nota de 5 dólares australianos no anverso e no verso uma foto que parece ser a do edifício do parlamento australiano. Na Nova Zelândia, Elizabeth II aparece na nota de 20 dólares e no verso há uma foto de um falcão, ave que corre risco de extinção, chamada karearea.

Obviamente, a rainha Elizabeth II não nasceu na Austrália ou na Nova Zelândia. Mas, como a independência destes dois países foi obtida por acordos políticos e reformas constitucionais pacíficas, eles aceitaram que o/a monarca inglês(a) continuasse a ser seu Chefe de Estado pró-forma, representado no país por um governador-geral nativo, ou seja, um australiano ou neozelandês. E que ocupa, na prática, a chefia de Estado, pois ambos os países mantêm o parlamentarismo herdado da metrópolle.

A Inglaterra teve a sabedoria de aceitar a independência, evitando a guerra que ocorreu com os EUA. Procedeu da mesma forma com a maioria de países africanos que foram colônias inglesas.

Que lição devemos tirar dessa situação que já perdura por mais de meio século? A primeira delas é que, em matéria de notas e moedas, foi mais um passo em direção ao apagamento de nossa memória nacional vilipendiada por narrativas tortas que nos falam das mazelas que teríamos herdados dos portugueses, segundo Raymundo Faoro. Pesquisas recentes refutam Faoro.

Diferentemente da Austrália e da Nova Zelândia, jogamos fora a tradição parlamentarista lusitana que tínhamos desde os tempos da dita colônia e que perdurou ao longo do Império, que soube preservar a memória nacional. Fecho com um exemplo prático. Tivéssemos nós um governo parlamentar, jamais um Collor teria conseguido chegar a Primeiro-Ministro, dado o partido diminuto que o lançou. E provavelmente o PT  não teria segurado as rédeas do poder por tanto tempo como vem conseguindo.

Perda de memória nacional acaba, inclusive, em desastres político-institucionais com o qual estamos convivendo hoje. Hora de mudar.

Nota: Digite no Google “Dois Minutos com Gastão Reis: A reção do Brasil profundo”. Ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=Bytk5mwEm90 https://www.youtube.com/watch?v=Bytk5mwEm90

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