Edição: sexta-feira, 02 de outubro de 2026

Gastão Reis

COLUNISTA

Gastão Reis

A DESINFORMAÇÃO E A IMPOTÊNCIA DO ELEITOR:

COMO MUDAR O ATUAL ENQUADRAMENTO

Gastão Reis - Economista, palestrante e escritor

Acompanhar o desenrolar das campanhas eleitorais nas ruas e nos canais de televisão é (quase) um exercício de masoquismo eleitoral dado o grau de desinformação com que o(a)s eleitore(a)s em geral são tratado(a)s. Tomemos o caso das ruas e suas bandeirolas; e, em seguida, as propagandas na televisão com as inserções das breves falas do(a)s candidato(a)s, onde somos informados de nomes, números e nem sempre dos partidos a que eles e elas pertencem.

As pessoas contratadas para segurar as bandeirolas nas ruas parecem não ter recebido treinamento algum quanto ao modo mais eficiente de manejá-las. Há casos em que as giram como se tivessem descrevendo no ar o símbolo do infinito, aquele oito deitado. Quem passa a pé ou de carro simplesmente não consegue ler o nome e o número do(a)s candidato(a)s. Tem ainda aquele(a)s que parecem nos dar adeus com as bandeirolas qual limpadores de para-brisas sob chuva forte, indo rapidamente de um lado para outro. E nada de conseguir ler.

Um outro grupo se posiciona nas ruas do lado errado de quem passa numa dada direção. Novamente, é praticamente impossível ler o nome e o número do(a)s candidato(a)s. Quanto aos partidos, as letrinhas de suas siglas  são diminutas, refletindo sua desimportância no mar de siglas que dominam os parlamentos municipais, estaduais e federais (câmara e senado).

Melhor seria que as pessoas contratadas segurassem as bandeirolas como se fossem uma placa. Ou que as bandeirolas tivessem um suporte em forma de um “L” invertido para se parecerem com uma placa de modo a tornar a leitura fácil por quem passa no local. É bem melhor o grupo que circula pelas ruas, ou fica parado em determinados pontos com uma mochila nas costas. Normalmente, trazem às costas uma plaqueta acima de sua cabeça com a foto e o número do(a) candidato(a). Mas o partido continua desprestigiado com letrinhas minúsculas de difícil identificação.

Vamos e venhamos, as informações recebidas por quem passa é muito pobre para realmente conhecermos as propostas do(a)s candidato(a)s. Alguém poderia argumentar que caberia ao eleitor buscar na internet mais informação sobre o(a)s candidato(a)s. Mas a oferta em quantidades brutais de nomes e números deve deixar quem vai votar atordoado e desanimado diante da tarefa hercúlea de garimpar tantos nomes para chegar àquele em quem vai votar.

A propaganda na televisão não é muito diferente em termos da carência de informações oferecidas, ainda que seja mais fácil conhecer a cara, o número e o nome do(a) candidato(a) nos breves segundos em que nos falam. Assumem sempre algum tipo de compromisso por melhorias na segurança pública, na educação e na saúde, entre outros temas tratados sempre superficialmente.

Caminhar pelas ruas observando a reação dos passantes aos folhetos de quem foi contratado para distribuí-los evidencia o desinteresse e a desilusão com políticos e partidos de eleitore(a)s dado o ambiente de corrupção e olho no próprio umbigo de quem exerce mandatos públicos com as raras e honrosas exceções de sempre. Mas o sintoma mais grave de nossa pobre vida política é o sentimento de impotência de eleitore(a)s para mudar a atual situação em direção ao atendimento do interesse público, e não aos de grupos e indivíduos centrados em seus interesses particulares.

Domina aquele sentimento difuso de que a política é assim mesmo. Não teria jeito. Será mesmo? Na verdade, o atual quadro desanimador de nossa vida política nos permite examinar as carências de mecanismos que tornariam a população a dona do pedaço e não um joguete de políticos e partidos mal intencionados. Países bem sucedidos em que o(a)s eleitore(a)s comandam o processo dispõem de dois instrumentos eficazes: o voto distrital puro e o recall, o poder de revogar mandatos entre as eleições. Vejamos como funcionam.

O voto distrital puro, que já tivemos no Império, foi esquecido há mais de um século. É simples de entender. Tomemos o caso de uma dada cidade. Ela é dividida geograficamente em distritos eleitorais. Se a câmara municipal tiver 21 vereadores, teremos 21 distritos. Cada um deles elegerá um vereador. Um grupo de bairros pode ser agregado para formar um distrito eleitoral. A boa notícia é que você em princípio deverá conhecer a pessoa ou as pessoas candidatas a vereador naquele distrito, sendo ele ou ela morador(a) de seu bairro ou no entorno. É olho no olho. Você vai votar bem informado.

No caso de deputados estaduais, os distritos serão maiores em termos de área geográfica, e para os federais, elas serão maiores ainda. A grande vantagem é que os eleitos serão pessoas de seu município na grande maioria dos casos. É fato que para deputados federais e, por vezes, para estaduais, será necessário agregar dois ou três municípios para formar um único distrito eleitoral. Mas serão sempre pessoas de sua região que, mal ou bem, você conhece. Não é a situação atual de um número e uma cara que você, de um modo geral, conhece pouco ou nunca ouviu falar.

A boa notícia é que, uma vez por mês, os vereadores e deputados estaduais e federais terão que comparecer por lei a seus distritos eleitorais para prestar contas de que estão fazendo em seus parlamentos. Estarão sob seu controle. Melhor ainda quando existe o chamado recall, que é a capacidade de o(a)s eleitore(a)s poderem substituir seus representantes entre as eleições quando pisarem na bola, numa eleição restrita ao seu distrito eleitoral.

É claro que isso varia de país para país. No caso dos EUA, onde há voto distrital puro, em meio de mandato de quatro anos, o deputado federal, por exemplo, pode ser, ou não, reconfirmado para os dois anos restantes. Em filmes americanos sobre políticos, é observável o cuidado com  que eles tratam seus distritos eleitorais, vale dizer, seus eleitores, justamente por saberem que podem ir para o olho da rua se seu desempenho deixar a desejar.

Nada disso existe no Brasil de hoje. Obviamente, não vai ser fácil mudar a atual situação. Mas, se nada for feito, ficaremos no limbo da desinformação e da impotência permanentes. Mãos à obra.

Nota: Digite no Google “Dois Minutos com Gastão Reis: Políticos: Você no comando”. Ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=pB8MRrtGRPs

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