Edição: sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Gastão Reis

COLUNISTA

Gastão Reis

AS PESQUISAS E A VIRADA DE JANONES

Gastão Reis

A eleição presidencial de 2026 em seu segundo turno apresentou algumas características estranhas. Analistas políticos tentam entender o fato de as últimas pesquisas, às vésperas da eleição, apontarem Flávio Bolsonaro como favorito com uma vantagem sobre Lula de 2 ou mais pontos percentuais. E, de repente, não mais que de repente, o quadro mudou, até percentualmente, em questão de poucas horas, a favor de Lula.

O autor do milagre teria sido o deputado federal André Janones. Sua estratégia teria mudado a cabeça do(a)s eleitore(a)s nas redes sociais a ponto de conseguir milhões de votos para Lula, vencedor no segundo turno, após ter  ficado em segundo lugar no primeiro, vencido por Flávio Bolsonaro. Situação inédita, sem dúvida. A questão central é se as pesquisas simplesmente erraram em massa ou haveria outros fatores explicativos do surpreendente, e não esperado, resultado das urnas.

Vamos por partes. Qualquer sistema eleitoral fidedigno deve permitir a recontagem de votos quando e aonde for necessária para dirimir quaisquer dúvidas quanto aos resultados. As atuais urnas permitem a retirada de um bo-letim de urna em forma de lingueta com os votos de cada um dos candidatos. Não obstante, parece haver resistência quando se fala em recontagem. O fato de o ministro Cristiano Zanin prorrogar por duas horas o funcionamento das seções eleitorais, em decisão monocrática, causou estranheza, aqui e no exterior, pois  algo semelhante jamais havia ocorrido antes.

O mercado financeiro, por não acreditar no corte de gastos (ajuste fiscal) sob Lula, viveu na segunda-feira, 26.10.26, um dia muito tumultuado. A bolsa caiu quase 14% e o dólar disparou 8,22%, fechando em R$ 5,40. Tal situação revela a acentuada falta de confiança no futuro. Afinal, um presidente que afirma que é babaquice fazer superavit primário, ou seja, gastar menos do que se arrecada para reequilibrar as contas públicas, não merece crédito, vale dizer, confiança do mercado.

(Na mesma segunda-feira, o economista Samuel Pessôa, em entrevista à CNN, no programa WW (William Waack), deu uma explicação elaborada, com certa dose de economês, para explicar a resistência de Lula ao ajuste fiscal. O jornalista William Waack, ato contínuo, pede a palavra e pede ao participante para ser corrigido, se estiver errado, na tradução que iria fazer de suas palavras em português curto e grosso, que foi a seguinte: “A verdade é que Lula não entende nada de economia!”. Acertou na mosca, pois é exatamente do que se trata, ou seja, arrogância de analfabeto em economia.)

Ouvir o povo não é uma tradição republicana no Brasil desde 1889. Os tempos em que D.Jo ão VI, D. Pedro I e D. Pedro II ouviam o povo (inclusive escravos) toda semana passaram a ser tempos idos e vividos, como dizia Machado de Assis. A raridade de plebiscitos no Brasil é a prova dessa surdez seletiva quando se trata de ouvir o povo. Absurdos como penduricalhos no Judiciário e juízes pegos em flagrante em atos de corrupção têm como punição aposentadoria integral sem devolver aos cofres públicos o dinheiro surrupiado.

No mesmo programa já mencionado, William Waack chama atenção para nosso lado esquizofrênico, vale dizer, presidentes que vencem a eleição sem ter ganhado simultateamente as eleições para o Congresso, câmara federal e senado. Na tradição parlamentarista mundial, e nossa até 1889, um governo só se estabelece após obter maioria no Parlamento. Além da compra descarada de votos para se reeleger, mais de 300 bilhões de reais, Lula terá que inaugurar uma segunda fase de acertos nada republicanos para conseguir governar.

A mudança de humor do eleitorado a favor de Lula em apenas três semanas antes do segundo turno e a unanimidade das pesquisas dando vitória a Flávio na véspera do pleito nos colocam diante de um contexto muito estranho. A interrupção da apuração de votos durante duas horas, insisto, foi uma situação jamais vista em apurações anteriores. Tais circunstâncias dão margem a dúvidas dado o súbito avanço de quase 4% a mais para Lula em relação a Flávio no segundo turno.

O modo correto de superar e esclarecer o que houve seria uma recontagem dos votos de modo a dirimir qualquer desconfiança sobre o resultado da eleição. Mas, como sempre, isso dá muito trabalho, e não vai acontecer. O fato de Flávio Bolsonaro pedir a cassação da chapa Lula-Alckmin poderia ser superado com uma simples recontagem dos votos, pois não haveria mais base alguma para a cassação, uma vez confirmado o resultado favorável a Lula.

O atual mandato de Lula foi viabilizado via STF pelo ministro Esdson Fachin com a desculpa de CPF errado. Teria que ter sido julgado então em Brasília. Mas não, sem julgamento, Lula é solto, podendo ser candidato a presidente. E acabou se elegendo, pela terceira vez, presidente. É comum nas conversas de cafezinho Brasil afora boa dose de desconfiança em relação ao papel do STF para manter Lula no poder. A ordem de prorrogação por mais duas horas das seções eleitorais, reitero, foi dada pelo ministro Zanin, ex-advogado de Lula, às 17:05 horas, fora do horário de término, estabelecido para 17:00 horas em todo o País.

A população vem questionando e pedindo apuração das irregularidades ocorridas ao longo da campanha e do próprio segundo turno sobre a referida reviravolta histórica benéfica a Lula. Erros em pesquisas acontecem, mas dentro de certo padrão em que algumas, ou muitas, erram, mas algumas, ou pelo menos uma delas, acerta. No caso em tela do segundo turno, as pesquisas apontavam Flavio Bolsonaro como vencedor até a véspera do dia da eleição. Muito estranho, não é mesmo, caro(a) eleitor(a), a súbita virada histórica.

A solução óbvia seria a recontagem de votos. O País se vê em situação semelhante à liberação de Lula para se candidatar no pleito anterior. E foi assim que, agora, há suspeitas quanto a este quarto mandato de Lula.  E que poderia ser confirmada a virada de Janones, ou não, pela simples recontagem dos votos. Legitimidade democrática se constrói com transparência.

Nota: Digite no Google “Dois Minutos com Gastão Reis: Políticos: O que a revis-ta VEJA não viu”. Ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=qS3-k352Ktc&t=3s

Vídeo feito em outra época, mas atualíssimo.

Autor: Gastão Reis

Economista, palestrante e escritor

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