Edição: sexta-feira, 06 de novembro de 2026

Gastão Reis

COLUNISTA

Gastão Reis

ALTERNÂNCIA NO PODER, REELEIÇÃO E A ELEIÇÃO PRESIDENCIAL DE 2026

Muitas décadas atrás, ainda me recordo de uma entrevista de uma atriz americana dizendo que, na política, ela adotava a sugestão de seu pai, que alternava entre votar nos democratas ou nos republicanos a cada pleito. No fundo, punha em prática a alternância no poder. Tal mecanismo não funciona sempre, mas, em média, se sai melhor do que aquela atitude de votar sempre no mesmo partido, em especial quando ele já está no poder por tempo demais.

No atual Patropi, um dos lados se vê sempre no papel do mocinho, o bandido é quem não reza pela mesma cartilha. Este lado, por sua vez, se vê como mocinho. O bandido é sempre o outro, que dele discorda. Tal clima polí-tico tem dificultado, e até impossibilitado, o diálogo entre familiares, amigo(a)s e cidadão(ã)s. Trata-se de um fenômeno de regressão cultural em que a mudez tomou conta do pedaço. Mas conversar e debater civilizadamente é preciso.

Quem é de direita, direito que lhe é legitimo, vira extrema direita, fascista mesmo, ou seja, defende a repressão sob a batuta de um ditador à qualquer oposição política. Logo, quem tem perfil conservador é sinônimo de atrasado ou autoritário, independentemente de suas posições em casos concretos. O apa-gão de nossa memória histórica do século XIX nos impede de tomar conhe-cimento, por exemplo,  de que todas as leis abolicionistas foram passadas por gabinetes conservadores, acompanhando as aspirações da sociedade na época.

A polarização política extremada abre espaço para a burrice aguda. Ela estreita, em muito, o papel da inteligência na politica. Gera um clima de destruição mútua. Nós estamos votando sempre no mal menor, ou até no mal maior, sem nos darmos conta. Manter no poder um presidente que buscou comprar votos, usando a máquina pública para distribuir benesses bilionárias de montão, sem nenhum posicionamento restritivo dos tribunais superiores, é uma situação mais que preocupante. Lembra Dilma no segundo mandato, que acabou em impeachment.

Aquele clima de debate acirrado no Parlamento, seguido à noite por um jantar amigável entre os dois debatedores, que havia no Império, simplesmente se perdeu. Embarcamos no presidencialismo, onde não há voto de desconfiança. Normalmente, temos que esperar a próxima eleição, ou recorrer a um complicado processo de impeachment, para verificar se houve crime de responsabilidade por parte do chefe do executivo federal, estadual ou municipal. A simples  quebra de confiança, comum no parlamentarismo, sem provar nada em cartório, simplesmente não tem vez.

Cabe relembrar aqui a situação crítica a que chegaram países como Argentina, Venezuela e Grécia, em que a gastança desenfreada desembocou em situações em que o povo de cada um deles pagou um preço elevadíssimo pelas irresponsabilidade dos políticos e respectivos partidos. E ainda estudar, com seriedade, aqueles que souberam dar a volta por cima como Singapura, Suíça, Suécia e Chile, dentre outros, e que foram capazes de tomar medidas corretivas em benefício de suas populações, dizendo não ao mito do governo grátis.

A questão de ser permitida ou não a reeleição para cargos executivos voltou, mais um avez, à ordem (ou desordem?) do dia nos três níveis de poder: federal, estadual e municipal. Trata-se de um tema recorrente que já deveria estar resolvido faz tempo de uma vez por todas.

A primeira observação quanto a proposta de proibir a reeleição para postos executivos vem sempre na mesma linha de impedir o povo de se mani-festar através de um plebiscito. A tradição da república brasileira é sempre na linha de não ouvir o povo, bem diferente das audiências semanais de nossa tradição monárquica, sempre mantida por D. João VI, D. Pedro I e D. Pedro II.

A segunda é verificar qual foi o desempenho da reeleição, desde FHC, em 1998, até hoje, um longo período de quase uma geração. A experiência  da permissão legal da reeleição teve suas virtudes. A habilidade com que FHC conduziu a aprovação do Plano Real e sua sustenção ao longo de seus oito anos de mandato na estabilização da nova moeda representaram um grande ganho para a população, após décadas de inflação elevada, o pior tipo de imposto para as parcelas mais pobres do País.

No plano municipal, tomando o exemplo da cidade de São Paulo, cujo orçamento é maior do que a grande maioria dos estados brasileiros, observamos que Marta Suplicy e Fernando Haddad, prefeitos de São Paulo, não conseguiram se reeleger. A avaliação do desempenho dos dois petistas foi negativa, impedindo-lhes a reeleição. Ainda me recordo de minhas viagens a São Paulo naqueles tempos da profunda decepção com ambos dos taxistas, cujos taxis eu tomava para me deslocar entre dois pontos da cidade.

O argumento dos que defendem mandato único seria citar, por exemplo, o desatre que foi o segundo mandato da ex-presidente Dilma. Se não houvesse reeleição, estaríamos livres de seus desmandos. Será? Bom lembrar os graves danos ao setor elétrico, com consequências danosas de longo prazo, que tiveram início em 2012, ainda em seu primeiro mandato. Afinal, conceder um segundo mandato a um presidente, governador ou prefeito é um ato soberano do povo, obviamente com a devida garantia da legitimidade do pleito.

E a legitimidade de um pleito requer ambiente seguro na hora de votar e garantia de recontagem dos votos quando necessária ou solicitada. Não foi bem o nosso caso. Relatório da OEA sobre a janela de duas horas de Zanin nos informa que a equipe teve de reestruturar os sistemas e os procedimentos de contagem de votos do tribunal em pleno andamanento do pleito. Logo, paira na voz das ruas a questão da fraude. Simples assim.

Para piorar o quadro, as últimas reações de Lula parecem configurar um quadro de quem não esperava vencer. O pepino que deixaria para seu sucessor, Flavio Bolsonaro, se virou contra ele. A súbita viagem à Turquia, no outro lado mundo, parece fuga de quem está perdido. Como manter a gastança diante de uma situação em que o corte de gastos é recomendado por 11 entre 10 economistas? Ou vai esquecer as promessas de campanha? Sinuca de bico sem taco!

Nota: Digite no Google “Simpósio de História do Brasil Imperial O legado da herança luso-afro-indígena até 1889”, palestra de Gastão Reis. Ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=uuLxB3Mysns&t=26s

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