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José Luiz Alquéres

COLUNISTA

José Luiz Alquéresz

CONSIDERAÇÕES SOBRE A COP30


José Luiz Alquéres Membro Titular do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro IHGB


Ao analisarmos as decisões tomadas durante a recente COP30, em Belém, é possível afirmar que o encontro foi um fracasso total quando observado sob o prisma de compromissos efetivos para evitar o avanço da mudança climática. Esse desfecho já era previsível. Dois acontecimentos ocorridos pouco antes da conferência prenunciavam o enfraquecimento de seu propósito original. Ao longo das sessões, os objetivos centrais até foram mencionados, mas, como esperado, não constaram do documento final: a eliminação gradativa do uso de combustíveis fósseis; a definição de um roadmap com medidas concretas e respectivos prazos para conter o aumento da temperatura global; e um compromisso mais robusto dos países ricos em financiar ações de conservação ambiental nos países menos desenvolvidos.

Dois fatos que anteciparam o esvaziamento do encontro foram a carta de Bill Gates e a abertura da Margem Equatorial brasileira para exploração de petróleo. Bill Gates, até então considerado um dos grandes líderes do movimento climático e cujo livro Como Evitar um Desastre Climático, escrito com apoio de importantes cientistas, tornou-se referência no meio empresarial divulgou, poucos dias antes da COP, uma carta afirmando que
evitar a elevação da temperatura global já não seria mais possível. Segundo ele, o esforço mundial deveria agora se concentrar na mitigação dos efeitos da mudança do clima por meio de novas tecnologias. A carta foi imediatamente celebrada pelo presidente Donald Trump, que comentou: “Gates agora é um dos nossos!”. A ausência dos Estados Unidos na COP30 reforçou ainda mais o esvaziamento político do encontro.

O segundo episódio a autorização para exploração de petróleo na Margem Equatorial foi apenas o desfecho de uma disputa cujo resultado já era previsível desde as COPs anteriores, realizadas no Egito e no Azerbaijão. O alinhamento do Brasil à OPEP e a ausência de qualquer compromisso de renunciar a novas frentes de exploração eram apenas uma questão de tempo.

Para países na vanguarda da redução de emissões, especialmente da União Europeia, o sinal foi claro: aqui, as coisas não seriam tratadas com a seriedade necessária.

O dilema maior para o Brasil e, no fundo, um problema de governança global consiste em decidir entre esperar por um consenso mundial ou agir individualmente de acordo com aquilo que consideramos ético e correto, ainda que isso pareça, no curtíssimo prazo, significar perda de oportunidades econômicas. O peso da balança inclinou-se pelo lado mais fácil: o Brasil já tem na exportação de petróleo e combustíveis seu principal item de exportação. Agimos com o bolso, não com o cérebro.

Esperar por consenso é sempre confortável. Se Churchill tivesse aguardado um consenso europeu contra a Alemanha nazista, a Inglaterra teria sido varrida do mapa. Há trinta anos, assisti a uma memorável palestra de Margaret Thatcher no auditório do Hotel Maksoud, em São Paulo. Ao ser questionada por um líder empresarial brasileiro sobre sua postura de agir antes de buscar consensos locais ou internacionais, ela respondeu sem hesitar: “Consensus is lack of leadership.”

Sempre apreciei essa afirmação. Quando temos ao nosso lado o melhor da ciência, a melhor das proposições humanistas e o respeito de nossos pares sejam eles cidadãos ou países devemos avançar e implantar aquilo em que acreditamos, mantendo sempre abertura para ajustes diante de novos fatos.

A grande conclusão da COP30, ao meu ver, é que é inútil esperar consenso entre mais de 200 países com realidades completamente distintas em termos de emissões de gases de efeito estufa. China, Índia, Estados Unidos, Rússia e o bloco da União Europeia têm agendas divergentes e pautadas por seus interesses nacionais. No plano internacional, todos se abrigam na eterna busca por um consenso impossível que talvez só surgisse no dia seguinte a um grande desastre ambiental global.

A máxima “é melhor prevenir do que remediar” agora desmoralizada por Bill Gates está sendo abandonada. E o Brasil perdeu a oportunidade de se apresentar como um verdadeiro líder, avançando sozinho e, ao longo do tempo, atraindo para essa rota os países mais sensatos e comprometidos com a saúde ambiental. Não faltaram discursos bem elaborados. Faltou coragem para praticar o que se escreve em relatórios tão bonitos quanto inócuos.

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