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José Luiz Alquéres

COLUNISTA

José Luiz Alquéresz

SER RICO É SER MODELO PARA A SOCIEDADE?


José Luiz Alquéres - Engenheiro e Historiador


Toda sociedade costuma eleger algumas pessoas, mulheres e homens, como exemplos a serem perseguidos, para elevar seus padrões de comportamento, de aspirações e de significado a ser conferido à existência dos seus membros.

Pela sua evidente visibilidade, no passado, os conceitos de elite, riqueza e nobreza eram associados a esse padrão de ideal. Como a realidade veio a demonstrar, muitos desses pseudo-modelos foram desmascarados, e a dita elite, que de elite não tinha nada, tornou-se motivo de gozação e de chacota. Duas músicas populares, sucessos nas suas respectivas épocas, mostram bem como essa fatia “superior” era vista pela maioria do povo.

A primeira é o samba Café Society, de Miguel Gustavo, popularizado por Jorge Veiga nos anos 50. Alguns versos, para os mais jovens:

Doutor de anedota e de champanhota
Estou acontecendo num Café Soçaite
Só digo enchanté, muito merci, all right
Troquei a luz do dia pela luz da Light

E quando alguém pergunta: como é que pode?
Papai de black-tie, jantando com Didu
Eu peço outro whisky
Embora esteja pronto (sem dinheiro)
Como é que pode?
Depois eu conto

Já se vê por aí que a visão dominante em relação à suposta elite era a de um conjunto heterogêneo, onde bicões circulavam dentre as pessoas mais afortunadas e carentes de visibilidade.

Cinco décadas depois, uma outra música, de autoria dos Originais do Samba, denominada Reunião de Bacanas, estourou nas paradas de sucesso:

Você me chamou
Para esse pagode
E me avisou
Aqui não tem pobre
Até me pediu pra pisar de mansinho
Porque sou da cor, eu sou escurinho...
Aqui realmente está toda nata
Doutores, senhores
Até magnata
Com a bebedeira e a discussão
Tirei a minha conclusão...
Se gritar pega ladrão
Não fica um, meu irmão!
Se gritar pega ladrão
Não, não fica um...

Mais três décadas, e hoje vemos ser lançado um livro, de autoria de Michel Alcoforado, com um rosário de situações ridículas protagonizadas por pessoas que se imaginam modelos de sucesso, ou, se ligarmos a TV, assistirmos à versão feminina do mesmo fenômeno no programa As Poderosas do Cerrado.

Independentemente de eventuais méritos pessoais ou profissionais de todos os citados, o panorama descrito acima deve ser causa de tristeza para todos nós. Estamos longe de poder apontar um segmento da nossa sociedade em relação ao qual possamos emular respeito ou admiração. Os casos que ora aparecem no Judiciário, no Legislativo, no Executivo, nas grandes empresas financeiras, são absolutamente vergonhosos e certamente influenciam os melhores talentos das novas gerações a irem viver em outras latitudes.

Hoje, o motivo de inspiração para nós está naqueles menos afortunados que lutam pela sobrevivência, morando muitas vezes em condições sub-humanas, usando transportes precários, alimentando-se mal e sendo olhados com desconfiança, quando não com preconceito.

Precisamos que a nossa elite seja reciclada e se engaje na redução das desigualdades sociais e na melhoria do meio ambiente, para aí, sim, ser admirada por todas as camadas econômicas e sociais do nosso povo: por seus atos virtuosos e por sua contribuição concreta ao grande objetivo de formarmos uma sociedade justa, equânime e rica. Sem perder o humor e a esperança.

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