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José Luiz Alquéres

COLUNISTA

José Luiz Alquéresz

Infância na serra: ontem e hoje


José Luiz Alquéres


Há cerca de setenta anos, passávamos as férias que então nos pareciam dotadas de uma duração quase infinita, como se o tempo, complacente com a infância, se deixasse esticar na casa de meus avós, em Petrópolis. Era uma casa ampla, dessas que pareciam conter não apenas pessoas, mas gerações inteiras, e nela viviam, além deles, um irmão mais novo de meu pai. Aviador de profissão, dono de uma motocicleta Jawa e de vistosas costeletas à moda de Elvis Presley, ele reunia em torno de si uma aura natural de fascínio, tornando-se, sem esforço, o herói absoluto dos dez sobrinhos que ali moravam ou ali vinham passar as férias.

O terreno da casa era vasto, sobrevivente de sucessivos fracionamentos desde o tempo de meu bisavô, português chegado ao Brasil por volta de 1850. Nele se distribuíam as casas do tio Chico, casado com a tia Anadir; do tio Djalma, com a tia Altair; do tio Henrique, com minha tia-avó Guilhermina; e, por fim, a casa de meu avô. Esse terreno que ainda hoje conserva essas construções situa-se no Retiro, em frente à ponte do Riverside, lugar que, para mim, permanece indissociável de uma ideia quase mítica de origem e pertencimento.

As férias constituíam a ocasião anual de acompanhar o trato de meia dúzia de porcos, ajudar na alimentação das galinhas e na coleta dos ovos do grande galinheiro, atirar um osso a um cachorro bravo que passava o dia preso à coleira, plantar algo na horta e acompanhar, com paciência quase devocional, o crescimento lento e misterioso das sementes. Brincávamos no morro, onde construíamos cabanas improvisadas e armávamos alçapões. Não se costumava capturar nada além de coleiros, canários-da-terra, tizis e, raramente, algum pássaro de canto mais elaborado, como o sabiá este, quase sempre, acabava solto, pois não se adaptava à vida na gaiola.

O almoço da garotada de quatro casas, somando de dez a doze crianças  acontecia pontualmente ao meio-dia; o jantar, às dezoito e trinta. Os mais velhos podiam ir à piscina da casa de um amigo de meu pai, o senhor Mário de Oliveira, pai do playboy homônimo. Sempre que nos encontrava, fazia uma festa ruidosa e afetuosa; até 2005 ainda tive com ele contatos esporádicos, invariavelmente marcados por uma alegria contagiante e uma simpatia rara.

De vez em quando, íamos ao cinema em Petrópolis: ao Esperanto, instalado num galpão próximo à estação, onde os apitos do trem e o ruído das locomotivas atravessavam a projeção; ou ao Dom Pedro, ao Capitólio, ao Cine Petrópolis. Mais tarde, abriu o Art-Palácio, no local onde antes funcionara o Santa Isabel. No Carnaval, havia a matinê do Petropolitano e quatro bailes noturnos: no sábado, o Branco e Preto, no próprio Petropolitano; no domingo, o Quitandinha; na segunda-feira, o Campestre; e, na terça, o Itaipava. Havia ainda os passeios de bicicleta, os lanches no Toni’s ou no Copacabana e, já no ocaso dessa época áurea, um chope no D’Angelo.

Hoje, vejo um grande terreno semelhante, onde se distribuem minha casa, as casas de minhas filhas, a de um cunhado e a de meu irmão, em Corrêas, animado pela correria de quinze netos e sobrinhos-netos. Alternam mergulhos na piscina com partidas de futebol, nas quais, não raro, as meninas jogam também. O morro aos fundos da casa, apesar de seus muitos atrativos, tornou-se território quase interditado à infância: a presença eventual de cobras, sapos, lagartos afugenta as crianças, e ele acabou convertido numa espécie de Amazônia urbana, intocada e silenciosa.

O galinheiro abriga hoje apenas um galo e três galinhas, e, recentemente, um casal de coelhos veio enriquecer a diversidade da fauna doméstica. Em compensação, o morro intocado repovoou-se de esquilos, jacus, tucanos, gambás, ouriços e teiús, constantemente perseguidos pelos dois bravos schnauzers da casa. As crianças saem com os pais para trilhas ou passeios de bicicleta no Vale das Videiras ou no Açú e, desde cedo por volta dos dez anos , fazem sauna como gente grande.

Ir ao cinema deixou de ser um hábito. É verdade que as mães policiam para que não se fixem diante da televisão, consumindo indiscriminadamente séries infantis, juvenis e, quando conseguem, até adultas. Elas possuem hoje uma compreensão da vida adulta suas paixões, ciúmes, assassinatos e relações extraconjugais que, no passado, mal se podia imaginar. Nem por isso deixam de ser crianças: conservam rompantes de uma credulidade fascinante diante de fenômenos pouco usuais, como se a imaginação ainda mantivesse sua soberania.

Ao contrário do que ocorria outrora, quando a visita de um amigo da escola ou do bairro envolvia um pequeno ritual a presença dos pais, uma conversa, um cafezinho, recomendações , hoje as crianças entram e saem com mínimo controle. Às vezes trazidas por babás, às vezes acompanhando outros amigos, permanecem perfeitamente à vontade da manhã até tarde da noite. Não raro, acabam dormindo, tendo chegado apenas com a roupa do corpo.

À mesa, seguem os horários dos adultos e, frequentemente, conversam com eles de igual para igual, revelando desde cedo os mais falantes, os mais tímidos, os mais educados toda a diversidade de temperamentos que certamente se confirmará ao longo da vida.

Mudam-se os tempos, mudam-se os costumes. Mas enquanto houver uma boa serra nas proximidades do Rio de Janeiro, e pais ou avós capazes de proporcionar essa experiência, subsistirá a lembrança do que os antigos chamavam de veraneio. Hoje, a serra disputa espaço com as praias e com viagens a paragens distantes; ainda assim, essa inserção numa vida mais rural, mais simples, como a que se vivia outrora, permanece como algo a ser cultivado com ternura não apenas como recordação, mas como valor íntimo e duradouro da memória.

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