COLUNISTA
José Luiz Alquéres, vice-presidente do IHGB
O tema mais frequente das conversas em qualquer ambiente tornou-se a situação geopolítica mundial. Não posso deixar de fazer um paralelo com o recente livro de Ruy Castro sobre o Rio de Janeiro na trincheira da Segunda Guerra Mundial, em que o autor identifica sinais, eventos e movimentos que já prenunciavam o fim de uma era, precipitado por um conflito mundial.
Hoje, também, conflitos sangrentos se desenrolam na Faixa de Gaza, na Síria, na guerra entre Rússia e Ucrânia, apenas para citar alguns. O recente sequestro do presidente da Venezuela pelas forças armadas norte-americanas marca o fim do modelo vigente de ordem mundial.
Há uma inquietação difusa, quase uma percepção coletiva de que o mundo mudou, talvez mais acentuadamente desde a pandemia da COVID-19. O que distingue o cenário atual do passado é o grau de integração econômica global já alcançado. Até a Segunda Guerra Mundial, os fluxos comerciais eram relativamente compartimentados: antigas metrópoles e colônias, uma Ásia bastante isolada, uma África marginalizada, uma América do Sul restrita a alguns produtos agrícolas e minerais. Hoje, vivemos uma realidade radicalmente distinta. Automóveis são montados com peças provenientes de dezenas de países; aeronaves brasileiras incorporam componentes fabricados em mais de dezenas de nações. As cadeias produtivas tornaram-se globais. Por isso, guerras e crises políticas afetam diretamente o emprego, os preços, o abastecimento e a estabilidade econômica em escala mundial.
Nesse contexto, chama atenção a postura recente dos Estados Unidos, cujo presidente passou a questionar tratados firmados ao longo de décadas, alegando que teriam representado uma espécie de “roubo” contra seu país. A resposta tem sido a combinação de retórica bélica com ameaças comerciais algo que, embora pareça novo, tem raízes históricas profundas. Basta lembrar que, ao chegar ao Brasil, em 1808, D. João VI abriu os portos às nações amigas, beneficiando amplamente a Inglaterra, cujos produtos passaram a pagar tarifas menores do que os oriundos da própria metrópole portuguesa. A política internacional sempre foi, em grande medida, uma política de interesses comerciais.
Com o tempo, essas práticas se sofisticaram e deram origem a tratados de livre comércio, alianças econômicas e, em alguns casos, projetos políticos mais ambiciosos, como a União Europeia. Ali, o ideal de integração avançou para além da economia, ancorado em valores como paz, direitos humanos e desenvolvimento ainda que esse projeto esteja longe de se completar plenamente.
Quando se trata de integração plena, com livre circulação de pessoas e mercadorias, o Brasil apresenta uma singularidade preocupante. Apesar de possuir um PIB que se aproxima de 70% da média mundial, o país se apresenta como um dos que exibem maior desigualdade na distribuição da renda. Segundo dados do IBGE, mais de 20% da população cerca de 40 milhões de pessoas vivem em condições sub-humanas. Diante disso, é inevitável questionar: o que significaria, para esse contingente, um eventual tratado de livre trânsito de bens, serviços e pessoas com países mais desenvolvidos? Seria o inverso do que ocorreu com os europeus pobres que migraram para a América do Sul há 150 anos, fugindo da miséria, da ausência de serviços públicos e de perspectivas?
A história mostra que aquelas grandes migrações duras, sofridas e, muitas vezes, desorganizadas acabaram formando, em poucas décadas, a parte mais expressiva da elite cultural e econômica da América do Sul. Italianos, espanhóis, portugueses, entre inovadores e geradores de emprego. Políticas migratórias devem fazer parte dos acordos comerciais e culturais entre países.
O que vemos hoje, contudo, é um movimento inverso: fechamento de fronteiras, criminalização da migração, tentativa de congelar privilégios como se fossem estáticos. Esquece-se que a mobilidade humana é, historicamente, um dos principais mecanismos de redução das desigualdades. As pessoas se deslocam como em um modelo gravitacional, no qual são atraídas pela riqueza e repelidas pelo quadrado da distância física em relação aos
seus objetivos.
Hoje, com maiores facilidades no transporte, começam a proliferar situações antes raras. Recentemente, em visita a Vassouras, cidade revitalizada em seu papel cultural pela liderança do empresário Ronaldo Cezar Coelho e de seu filho, Guilherme Coelho, chamou- me a atenção o fato de farmácias, restaurantes e lojas estarem sob a gestão de imigrantes chineses. A nova geopolítica passa também pelo cotidiano das pequenas cidades.
Essa realidade exige uma resposta que não seja movida pelo medo ou pelo ódio, mas por uma visão fraterna e integradora. O Brasil, nesse sentido, tem uma vocação histórica singular. Estudos recentes mostram que nossa população é majoritariamente de origem ibérica, mas profundamente miscigenada. Aqui, o “melting pot” ocorreu de forma intensa e rápida. Diferentes correntes migratórias, em pouco tempo, tornam-se brasileiras.
Está na hora de o Brasil assumir plenamente essa vocação, promovendo desenvolvimento com justiça social, combatendo de forma rigorosa a corrupção não apenas a material, mas também a moral, que corrói instituições e desacredita a democracia. Só assim poderemos nos afirmar como uma potência respeitada, integrada e justa, à altura das aspirações de seus bons brasileiros.
Enquanto isso não ocorre, registramos a decepção com o que se passa no mundo e o novo farol de esperança que parece se iluminar a partir da reunião anual em Davos.
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