Edição: sábado, 28 de fevereiro de 2026

José Luiz Alquéres

COLUNISTA

José Luiz Alquéresz

EU VI NA TV.


JOSÉ LUIZ ALQUÉRES, editor.


Uma das formas mais antigas de literatura é a literatura de viagem. Muito antes dos relatórios diplomáticos e das estatísticas oficiais, eram os viajantes que descreviam o mundo. A Odisseia já narrava o retorno de Ulisses à sua terra natal após a guerra de Troia, estabelecendo um modelo narrativo que combinava aventura, observação e imaginação. Séculos depois, surgiriam os relatos de Pausânias sobre a Grécia, bem como as extensas viagens de Ibn Battuta que percorreu vastas regiões do mundo islâmico medieval.

Durante muito tempo, historiadores influenciados pelo rigor documental de Leopold von Ranke olharam com desconfiança para esse gênero. Afinal, muitas dessas narrativas misturavam observação direta, hear-say e imaginação. No entanto, a historiografia contemporânea resgatou o valor dessas fontes, sobretudo no que dizem respeito aos costumes, mentalidades e práticas sociais. No século XIX, as viagens científicas consolidaram essa tradição. A jornada de Charles Darwin a bordo do Beagle, as expedições sul-americanas de Alexander von Humboldt, as buscas de Richard Francis Burton pelas nascentes do Nilo e o percurso a pé de Patrick Leigh Fermor até Istambul revelam como a literatura de viagem se tornou uma fonte privilegiada para compreender civilizações, hábitos alimentares, formas de vestir e estruturas sociais.

Hoje, a televisão assumiu parte desse papel. Multiplicaram-se programas que exploram destinos turísticos, frequentemente reduzidos a paisagens fotogênicas e roteiros padronizados a clássica foto com a Torre Eiffel ao fundo, o enquadramento calculado do Golfo de Nápoles. Trata-se, muitas vezes, de uma vitrine do turismo de massa.

Há, porém, abordagens distintas.

A série na Apple TV “The Reluctant Traveler”, apresentada por Eugene Levy, oferece um modelo interessante. O formato é simples: visitas breves, de dois a quatro dias, a diversas cidades ou regiões. O diferencial está na postura do apresentador. Levy evita as obviedades turísticas e busca estabelecer relações pessoais com os habitantes locais. O humor é discreto; a curiosidade, genuína. Em episódios ambientados na ilha de Milos, em Florença ou na Escócia terra de seus antepassados percebe-se um esforço deliberado de inserção cultural. Não há hierarquização civilizacional; há, antes, uma tentativa de compreender.

Em contraste, a série brasileira Avisa Lá Que Eu Vou, conduzida por Paulo Vieira na plataforma Globoplay, adota outra estratégia narrativa. Vieira é espirituoso, domina o tempo cômico e sustenta o ritmo do programa com habilidade. Contudo, o registro frequentemente privilegia o escracho e o folclore, por vezes em detrimento da abordagem mais equilibrada.

Observa-se uma ênfase reiterada no sincretismo religioso e na valorização da rica cultura das classes economicamente menos favorecidas. Em determinados episódios, como o que aborda Itaparica ou a narrativa sobre o cangaço, percebe-se uma leitura social que sugere alinhamento com interpretações de viés ideológico mais definido.  Não se trata de negar a legitimidade dessas leituras, mas de reconhecer que elas moldam a narrativa e influenciam a recepção do espectador.

Toda narrativa é seletiva. Escolher enquadramentos, entrevistas e ênfases já constitui uma interpretação. A televisão contemporânea, assim como a antiga literatura de viagem, não é neutra. Ela media a realidade. Ambas as séries merecem ser vistas. Mas merecem ser vistas com discernimento. Se outrora o leitor precisava distinguir entre o relato fiel e a fantasia do viajante, hoje cabe ao espectador filtrar o que lhe é apresentado na tela. A viagem continua apenas mudou de suporte.

Eu vi na TV. E procurei ver além dela.

Edição: sábado, 28 de fevereiro de 2026

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