COLUNISTA
José Luiz Alquéres, editor
A construção de uma sociedade se ampara, dentre múltiplos fatores, na lembrança de alguns de seus membros que se destacaram por suas ideias, por suas ações e pela presença que tiveram em determinados momentos históricos. Ela se apoia também na definição de um estilo de vida. E o estilo de vida do brasileiro é muito peculiar. Tem sido objeto de estudos sociais e de reflexões de grandes sociólogos, pois as características difusas de um povo acabam encontrando, em alguns de seus membros, exemplos importantes daquilo que se percebe no conjunto.
O primeiro tipo inesquecível que apresento é Ana Maria Ramalho. Jornalista, começou trabalhando ainda bem jovem com Ibrahim Sued, na crônica social. Continuou por décadas em O Globo, trabalhou com Ricardo Boechat e, já mais tarde, seguiu carreira de forma autônoma, assinando colunas. Eu a conheci socialmente e, desde então, tornei-me um admirador absoluto. Isso se intensificou quando descobrimos eu e minha mulher vários amigos comuns de infância, o que nos aproximou ainda mais e nos fez acompanhar a vida de Ana e as suas inúmeras façanhas.
Bisneta de Capistrano de Abreu, cultivava com entusiasmo uma famosa proposta atribuída ao historiador para a Constituição brasileira: um texto com apenas um artigo. “Todo brasileiro deve ter vergonha na cara.” Parágrafo único: “Revogam-se as disposições em contrário.”
Munida desse grande arcabouço cultural e familiar, Ana transitou pela vida social com desenvoltura rara. Alguns de seus podcasts já entre as últimas manifestações de sua vida profissional são memoráveis, como a entrevista com o embaixador Marcos de Azambuja. Quando ela faleceu, desenvolvíamos juntos os projetos de dois livros: A Sociedade Brasileira nos anos 50 e 60 e A Sociedade Brasileira nos anos 70 e 80. Chegamos a preparar o sumário dos capítulos que retratariam aquele grande momento de transição que ela viveu e cobriu como jornalista, sob os mais variados aspectos.
O segundo tipo inesquecível é justamente Marcos de Azambuja, seguramente um dos maiores diplomatas da história do Itamaraty.
Representou o Brasil na França e na Argentina. Foi chefe do Departamento de África e Oriente Médio do Itamaraty. Conviveu com grandes líderes mundiais. Foi também secretário-executivo da instituição na prática, ministro interino das Relações Exteriores.
Naquela geração de extraordinários embaixadores como Luiz Felipe Lampreia, Nelson Fonseca, mais moço, Sebastião do Rego Barros, entre outros Marcos era talvez o nosso maior frasista. Suas tiradas espirituosas lembravam as máximas de antigos diplomatas ou surgiam de sua própria imaginação. Dizia, por exemplo: na França, as pessoas saem à francesa sem se despedir; no Brasil, as pessoas se despedem e não saem! Era uma observação feita a propósito dos intermináveis coquetéis brasileiros, convocados para as cinco da tarde nos quais os convivas não largam a boca livre até a meia-noite! E haja protocolo para administrar tais situações.
Mas havia também momentos de franqueza cáustica. Em entrevista concedida a Ana Maria Ramalho em seu podcast sobre o Itamaraty, lamentava que a diplomacia brasileira estivesse sendo levada a uma posição menor no cenário internacional, submetida a padrões governamentais que considerava inaceitáveis.
O terceiro personagem que quero lembrar é o recém-falecido Marcelo Cerqueira. Homem de notáveis contribuições ao Brasil, foi autor de vasta bibliografia jurídica, incluindo um alentado volume sobre a história das Constituições brasileiras e sua análise crítica. Foi também um homem corajoso: advogado de presos políticos durante o regime militar.
Participou das negociações com o então general João Baptista Figueiredo antes de assumir a Presidência em torno da chamada Lei da Anistia, concebida como ampla, geral e irrestrita. Entendia que, sem um gesto dessa natureza, o impasse continuaria a dividir o Brasil por muitas décadas. Apesar de esforços posteriores de alguns para reabrir esse fosso, naquele momento a negociação generosa permitiu que o país retomasse o caminho da democracia que ainda hoje buscamos construir, não sem dificuldades.
Mas lembro também Marcelo Cerqueira como escritor. Autor de contos, ensaios e relatos de não-ficção. Tive o privilégio de editar, pela Edições de Janeiro, um livro seu que mistura contos e memórias, intitulado “Fragmentos”. Trata-se de uma obra excepcional, da qual destaco o conto “O Sapato de Humphrey Bogart”, baseado inteiramente em fatos reais. Nele se demonstra como um mesmo episódio pode conter drama, comédia e tragédia, dependendo do olhar de quem o narra.
Descanse em paz, meu querido Marcelo Cerqueira. E vocês três podem estar certos de que, cada qual a seu modo e em seu estilo, ajudaram a caracterizar talvez não aquilo que o brasileiro é, mas aquilo que o brasileiro deveria ser: alegre, sociável, culto, inteligente, generoso e corajoso. Enfim, o cidadão de que o século XXI precisa.
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